Watchmen no Universo DC: um guia para o Rebirth

Tudo começou com o one-shot especial DC Universe: Rebith #1 (2016), e de lá pra cá, diversas pistas envolvendo os personagens de Watchmen foram espalhadas na maioria dos títulos da DC Comics. Entretanto, mesmo com Dan Didio e Geoff Johns – co-editor e presidente/chefe criativo da DC Entertainment, respectivamente – afirmando que teremos mais vislumbres da criação de Alan Moore e Dave Gibbons no UDC em 2017, o que faremos aqui é um balanço mostrando onde cada personagem de Watchmen se encaixa na iniciativa Rebirth e o que tudo isso significará para o futuro do Universo DC.

PREVIOUSLY ON WATCHMEN

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Envolver os personagens do universo de Watchmen com o universo heroico regular da DC Comics é algo que pode parecer pretensioso demais – alguns até diriam que não existe chance disso dar certo. Até mesmo todo o contexto histórico em que a trama de Watchmen foi desenvolvida só contribui com a ideia de que a graphic novel não deveria fazer parte do cosmo multiversal da DC Comics. Entretanto, aqui estamos. Então, se você amou ou odiou a ideia, resta aceitar e esperar pelos resultados. Portanto, vamos ver como Watchmen deixou seus personagens ao término de sua ultima edição.

Watchmen, a grosso modo, conta a história do plano de Adrian Veidt (Ozymandias) – teletransportar uma lula-telepática-explosiva para o meio da cidade de Nova York – para salvar o mundo do holocausto nuclear. Pelo fato do plano envolver um genocídio em massa, sua execução acaba gerando uma grande conspiração que deixa um rastro de pessoas mortas pelo caminho. Um dos personagens que encontra um infeliz destino por conta dos planos de Ozymandias é Eddie Blake, o Comediante – vigilante e mercenário que atua desde 1930. Blake sabia demais e então Veidt decidiu matá-lo. O vigilante que acaba decidindo investigar o assassinato do mercenário é ninguém menos que Rorschach, que começa a desvendar os planos de Ozymandias. Por saber mais do que devia, ao final de Watchmen Rorschach é morto pelo Dr. Manhattan.

Apesar dos esforços de Rorschach, Coruja (Dan Dreiberg)Espectral (Laurie Juspeczyk), os planos de Veidt são concretizados. Dan e Laurie sobrevivem ao final de Watchmen e assumem novas identidades – Sam e Sandra Hollis. Embora aparentem estar fugindo da lei – por terem ajudado na fuga de Rorschach da prisão na edição #7 -, ambos estão decididos em continuar suas vidas de vigilante. Dr. Manhattan, outrora um cientista chamado Jon Osterman, deixa o Sistema Solar da Terra no final de Watchmen, deixando para trás um estilhaçado castelo cristalino em Marte.

Quanto à própria Terra, as páginas finais de Watchmen indicam que o plano de Veidt funcionou. A Guerra Fria acabou, a União Soviética e os Estados Unidos estão trabalhando juntos dispostos a criar uma defesa contra ataques extraterrestres e até mesmo o ator Robert Redford pode concorrer à presidência em 1988. A única coisa que pode colocar um fim nesse cenário é o diário do Rorschach, entregue pelo vigilante em pessoa antes de morrer à sede de um jornal com viés conservador.

RELOJOEIRO, MAGO E OBSERVADOR

Se o Rebirth acontece após os eventos de Watchmen, quatro de seus personagens principais ainda estão por ai: Dr. Manhattan, Ozymandias, Coruja e Espectral. DC Universe: Rebith #1 (2016) também conecta o Universo DC com Watchmen através de artefatos, como o relógio de Wally West – consertado telepaticamente em Marte – e o famoso button sujo de sangue do Comediante.

Em 2011, aconteceu o evento Flashpoint no universo principal da editora – ou na Terra-0, por definição oficial. Evento esse que terminou com o Barry Allen – guiado pela misteriosa e imortal Pandora – reordenando a linha do tempo e gerando o reboot conhecido como Os Novos 52. Os Novos 52 acabou por eliminar o sucessor de Barry, Wally West – assim como muitos outros elementos de 20 anos de Universo DC. Todavia, DC Universe: Rebith #1 (2016) o trouxe de volta, com a consciência de que uma nova e poderosa força havia roubado dez anos da cronologia do UDC. E um pouco antes de DCUR #1, aconteceu a troca do Superman d’Os Novos 52 pelo Superman pré-Flashpoint.

Uma série de eventos em DC Universe: Rebith #1 (2016) indicam que Dr. Manhattan pode estar agindo no Universo DC. De todos, o mais óbvio é o assassinato de Pandora, executado graficamente de forma similar à morte de Rorschach. Em retrospectiva, podemos também supor que o assassino de Pandora matou, de forma igual, Metron e o Coruja da Terra-3 – que estavam brigando pela posse da Poltrona Mobius no final de Liga da Justiça #50.

Dr. Manhattan também parece estar por trás das alegações de Wally West sobre as mudanças na linha do tempo, embora Watchmen nunca tenha mostrado sua habilidade de alterar o passado – na verdade, Dr. Manhattan considerava o tempo imutável. Pouco antes de sua partida, ele diz à Ozymandias: “Assuntos humanos não me preocupam. Eu estou deixando esta galáxia por uma menos complicada” – o que sugere que ele precisaria de, pelo menos, uma boa razão para fazer algo tão drástico. Watchmen sequer mostra se Manhattan pode ou não afetar uma linha temporal. Ele pode ter uma única perspectiva sobre o tempo e ele viaja no fluxo do tempo da forma que bem entender. Fazer algo assim seria contra sua filosofia vista em Watchmen.

Inclusive, Dr. Manhattan tem problemas para ver seu futuro quando partículas mais rápidas que a luz – os Táquions – estão envolvidas. Como parte de seu plano, Ozymandias gerou Táquions artificialmente com intuito de confundir Manhattan para que ele não fosse capaz de deter seus planos. No meio de toda a destruição, Dr. Manhattan acaba achando tudo aquilo interessante e diz: “Eu quase havia me esquecido da emoção de não saber, das delícias da incerteza…“.

Portanto, quando Dr. Manhattan deixa a Terra, ele não sabia para onde iria – provavelmente devido a existência de outras partículas exóticas como os Táquions que estão espalhadas no Universo. Naturalmente, isso nos lembra a Força de Aceleração, onde tudo viaja mais rápido que a luz e onde ele poderia ter encontrado o perdido Wally West. No entanto, Dr. Manhattan esta incerto se seu futuro pode também ser apenas mais um acontecimento onde ele sabe o que fará, mas deseja fingir que é tudo uma surpresa.

Falando de futuro, o primeiro arco da era Rebirth dos Titãs envolveu um inimigo do Flash chamado Abra Kadabra, que é um mago vindo do século 64 que usa tecnologia avançada para realizar truques mágicos. Na história Dark Flash, de autoria de Mark Waid – que chegou às bancas nos anos 1999/2000 -, Kadabra sequestrou a esposa de Wally, Linda Park, com objetivo de apagá-la da linha do tempo. Agora, no recente arco da revista dos Titãs, ele bola um esquema similar, porém, dessa vez, Kadabra alegou ter removido Wally da linha do tempo ao invés de Linda Park – que, por sua vez, sequer chegou a conhecer Wally West.

Em Titans #3 (2016), Kadabra também falou sobre se recusar a voltar a “aquela relojoaria futura sem alma”. Isso pode ser tanto uma referência ao Dr. Manhattan ter conquistado a Terra para todo o sempre, ou apenas se referindo ao século 64 e suas diversas monotonias e representações. Wally visitou o futuro de onde Kadabra veio nas edições Flash #67-68 (1992) e o achou um futuro opressivo para todos, não apenas para Kadabra. A personagem Lilith confirmou isso quando entrou na mente de Kadabra em Titans #6 (2016), descrevendo seu futuro não apenas como uma “relojoaria”, mas também como “fria e sem alegria”. Como um experimento de laboratório.

O relógio de bolso manchado de sangue que aparece em Titans #6 (2016) talvez faça apenas uma singela referência à Watchmen, mas Kadabra se vê atuando sozinho, ciente de que existe alguém capaz de alterar a linha do tempo: “O tempo foi alterado. A história está confusa. Isso não é obra de Wally West… Isso é obra dele. Só pode ser”. Isso, junto ao momento de Lilith encontrando a palavra “Manhattan” nas memórias de Kadabra, aponta uma direção diretamente para Watchmen.

Ainda assim, pode ser que nada esteja relacionado ao Dr. Manhattan. Até o momento, os leitores não viram nada concreto sobre o super-humano azulão. Todavia, o que temos de substancial atualmente no Universo DC são as aparições de Mr. OZ – um personagem que fez uma discreta estreia em Superman #32, ainda durante Os Novos 52. Criado por Geoff Johns, Mr. Oz passa bastante tempo observando tanto o Superman d’Os Novos 52 quando o Superman pré-Flashpoint, insinuando que ele ajudou a treinar o Superman d’Os Novos 52 quando o kryptoniano ainda era jovem. Seguindo a morte do Superman d’Os Novos 52, Mr. Oz então diz para o Superman pré-Flashpoint: “Você e sua família não são o que acreditam ser […] assim como o outro Superman“. Mr. Oz também conversa com prisioneiros que ele capturou para algum propósito – ainda – desconhecido. Nós sabemos que entre esses prisioneiros incluem uma versão pré-Flashpoint do vilão Apocalypse e Tim Drake, o Robin Vermelho – capturados respectivamente em Action Comics #962Detective Comics #940.

Mr. Oz usa um manto verde com capuz, carrega um cajado, observa tudo através de um painel de monitores – assim como Ozymandias – e possui uma assistente chamada Janet, que tem uma tatuagem que se parece com o logotipo do perfume Nostalgia, fabricado por uma das empresas de Adrian Veidt em Watchmen. Para muitos, esses são indícios claros da interferência de Watchmen no UDC, mas ao mesmo tempo, tudo isso pode apenas não passar uma tentativa do editorial de nos despistar com grandes referências.

É mais plausível que Oz seja uma apelido para Osterman. Dr. Manhattan era suscetível a explosões emocionais, porém se orgulha de manter seus sentimentos contidos; e como citado acima, ele não aparenta ser do tipo que interferiria em uma linha temporal apenas por capricho, usando qualquer método que lhe convir. Não seria nenhuma surpresa se Veidt, por acidente, tivesse encontrado uma forma de duplicar o acidente que deu a Jon Osterman seus poderes. Por outro lado, isso, de alguma forma, poderia significar um traço de humanidade na personalidade do Dr. Manhattan.

VALE A PENA VER DE NOVO

A tatuagem de Janet em referência ao perfume Nostalgia é apenas um dos diversos elementos que lembram Watchmen no Universo DC pós-Rebirth. Em The Hellblazer #2, John Constantine finaliza uma citação dizendo: “Chega a manhã, a noite se vai, os vigilantes deixam seus postos”. Isso é uma citação do livro America: A Prophecy, de William Blake, dita por um personagem libertino durante o apocalipse. Blake também escreveu o poema The Tyger, citado em Whatchmen #5. A citação feita em The Hellblazer pode ser apenas um detalhe, mas foi uma referência digna de nota.

O mesmo vale para Tweedledee e Tweedledum – detentos do Arkham que atuavam em Gotham usando os nomes dos personagens gêmeos do livro Alice Através do Espelho, continuação do clássico Alice no País das Maravilhas – citando seu poema em Batman #9: “Assim desceu um corvo monstruoso, negro como um barril de alcatrão; que assustou os dois heróis e eles logo esqueceram sua disputa“. Naturalmente, no contexto de Watchmen, a citação é referente à ideia de Ozymandias de que uma ameaça externa obrigaria tanto os Estados Unidos quanto a União Soviética a ficarem “tão assustados” que eles acabariam esquecendo de suas brigas entre si. Tom King, de fato, caprichou com a referência nessa edição.

Também nas recentes edições de Batman, está o Pirata Psíquico, famoso por ser um dos poucos personagens a se lembrar do infinito Multiverso que existia antes de Crise nas Infinitas Terras. Isso não o conecta diretamente com Watchmen – só pra lembrar, a graphic novel esta situada no período pós-Crise da DC Comics – mas se existe alguém que sabe qualquer coisa sobre mudanças no universo, esse alguém seria ele.

E, é claro, Besouro Azul (Ted Kord) e Capitão Átomo – as inspiração para criação de Coruja e Dr. Manhattan, respectivamente. Isso os conecta a Watchmen em um nível metalinguístico, e ambos retornaram do limbo editorial após um tempo considerável de ausência, embora nenhum esteja envolvido diretamente com o grande mistério do Rebirth. Todavia, a DC parece não ter muitos planos para o Questão, que é, claro, a inspiração para Rorschach.

O símbolo do raio talvez seja uma das maiores coincidências e semelhanças. O raio na estação de recarga de carros elétricos em Watchmen é o mesmo símbolo que o Wally West carrega em seu uniforme. Contudo, o símbolo na estação de recarga é tão pequeno que é muito provável ser somente uma coincidência. No entanto, um escritor ousado poderia tornar isso algo maior.

O nome Wally West também é similar a Wally Weaver, o amigo do Dr. Manhattan antes do acidente. Weaver foi diagnosticado com câncer, falsamente atribuído a sua associação com o Dr. Manhattan. É algo pequeno também, mas se o Dr. Manhattan realmente se perdeu na Força de Aceleração e ouviu o nome Wally, provavelmente isso deve ter lhe chamado a atenção – ok, essa é forçada, mas do jeito que Geoff Johns gosta de retconar todas as coincidências que vê pela frente, não custa nada tentar.

Quanto ao button do Comediante, o Coruja o limpou na edição #1 de Watchmen. Portanto, o button que estava na Batcaverna deve ter vindo de algum lugar da linha temporal de Watchmen. Antes mesmo da edição #1, pois ele também ficou sujo de sangue quando Blake foi ferido no rosto em sua passagem pelo Vietnã. De qualquer forma, isso parece ser algo mais simbólico sobre a nova conexão entre os universos ao invés de um elemento principal da trama. Inclusive, isso será o mote de um crossover que chegará as bancas gringas em abril.

Finalmente, esperamos que Wally West consiga recuperar o relógio de seu tio em algum momento. Pela narrativa simbólica que a DC vem empregando em suas histórias, é muito provável que o Rebirth se encerre com esse reencontro.

PEQUENOS DETALHES

Alguns outros elementos talvez tenham maior impacto nessa passagem de Watchmen pelo Universo DC. Por exemplo, o vilão de Liga da Justiça vs. Esquadrão Suicida é Maxwell Lord, personagem famoso por ser o assassino de Ted Kord em Contagem Regressiva para Crise Infinita. Assim como Ozymandias, Max começou como um rico bem sucedido que eventualmente orquestrou uma vasta conspiração e assassinou um de seus antigos associados que havia descoberto seus planos. É claro que isso não teve influencia nenhuma de Watchmen, mas no atual momento, é algo difícil de ser ignorado.

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As experiências do Superman durante Rebirth também incluem alguns elementos de Watchmen. Ele luta contra um monstro gigante com tentáculos em Justice League: Rebirth #1, Superman #1-2Superman Annual #1. Em Superman #1 ele deixa no solo marcas digitais azuis e brilhantes de sua mão.

É verdade que nem todos os monstros gigantes com tentáculos são criações de Adrian Veidt, entretanto, a edição anual parece explicar que essas marcas digitais – uma delas inclusive transformou o Monstro do Pântano temporariamente em um criatura azulada kryptoniana – eram uma consequência do Superman não estar sintonizado corretamente com as frequências naturais da Terra. O Monstro do Pântano parece ter ajudado o Superman a se sintonizar, então as digitais provavelmente não reaparecerão. Ainda assim, qualquer outro detalhe azul e brilhante precisa ser investigado.

Por fim, a visita de Ray Palmer ao Microverso poderia estar conectada à prisão de Mr. Oz, mas o que todos nós sabemos até agora é que Palmer está preso em um novo universo com companhias não muito amigáveis.

O TEMPO ESTÁ PASSANDO

A crescente infusão de elementos de Watchmen no Universo DC tem dado aos leitores bastante material de investigação. Enquanto existe um grande número de conexões diretas, existe muita especulação e pareidolia envolvida nas nossas colocações. Existem até mesmo plots que provavelmente não serão desenvolvidos, como os 3 Coringas.

Toda essa trama envolvendo os personagens de Watchmen será mantida no forno por um bom tempo – possivelmente dois anos. Até lá, podemos esperar mais especulações, surpresas e até mesmo um ou outro cameo. Mr. Oz será o centro das atenções em breve, especificamente quando um de seus prisioneiros escapar no no crossover Superman: Reborn, que chegará às bancas gringas em Março. Esperamos que ao fim disso tudo, os dois universos entrem em acordo da forma mais suave e plausível possível. Permaneceremos atentos e vigilantes.