[REVIEW] Lendas do Universo DC: Mulher-Maravilha Vol. 1

Em dezembro de 1941, pelas mãos do psicólogo William Moulton Marston, o mundo é apresentado ao que posteriormente se tornaria o maior ícone de representação feminista da cultura pop, que aos poucos foi conquistando seu espaço no cerne cultural da sociedade daquela época com histórias que promoviam e incentivavam a luta das mulheres pelos seus direitos na sociedade patriarcal e que, acima de tudo, exaltava a paz e o amor como a solução primordial para todos os conflitos do mundo. É mais do que óbvio que se trata da Mulher-Maravilha, a maior heroína de todas, que, mais do que nunca, vem recuperando o seu prestígio nessa nossa nova era dos heróis de quadrinhos que invadiram os cinemas e a TV.

Após décadas de sua publicação e uma evolução como um todo no mundo da nona arte, foi decidido que era hora de dar um novo gás às histórias da heroína, que até então vivia em um período nebuloso em suas questões criativas – culpa do pouco caso que sua editora tinha em sua época, que resultava no título entregue a qualquer um que estivesse disponível, independente de sua afinidade com a heroína ou da sua qualidade artística como um todo. E é aqui que entra George Pérez. Após conseguir bastante crédito com o seu trabalho em Novos Titãs e, principalmente, em Crise nas Infinitas Terras, Pérez tomou as rédeas do dever de recriar e atualizar o título da heroína mais famosa dos quadrinhos para toda uma geração. E assim, em Fevereiro de 1987, é lançado Wonder-Woman Vol. 2 #1, que foi o começo de toda uma revitalização criativa no título da heroína.

A partir do mês de março de 2017 a Panini Comics começou a relançar essas mesmas histórias na coleção Lendas do Universo DC, que já trouxe histórias clássicas do Batman escritas pelo Neal Adams; Lanterna Verde/Arqueiro Verde de Dennis O’ Neil e, mais recentemente, o Superman pelo traço clássico do José Luis García Lopez.

Então, chega ás bancas Lendas do Universo DC: Mulher Maravilha Vol. 1, com os seus 7 primeiros capítulos apresentando todo o contexto mitológico da origem da Princesa Diana, seus primeiros passos no mundo do patriarcado e a sua trajetória para impedir o Ares, o deus da Guerra.

Na história, já no começo, vemos Ares sendo premeditado como uma ameaça, com ele sugerindo o exercício da soberania dos deuses do Olimpo aos homens, para que não perdessem sua força pela falta de devoção e pelo esquecimento do tempo, além de se tornarem mais poderosos ainda com o poder que o medo dos mortais lhe daria. Os deuses restantes não compactuavam com aquela ideia, mas isso não foi suficiente para que Ares não desistisse dela. Temerosos, alguns deuses do Olimpo se juntaram e criaram as Amazonas, uma raça composta apenas por mulheres, feitas para mostrar à humanidade a trilha da virtude e os ensinamentos de Gaia.

Assim, essas guerreiras criaram Themyscira, uma sociedade fértil e gloriosa. Porém, por causa do orgulho dos homens que gerou um terrível conflito com várias baixas físicas e morais, elas foram obrigadas a abandonar esse lugar e se isolar na Ilha Paraíso, uma ilha totalmente a parte de qualquer acontecimento do mundo, onde as amazonas conseguem o dom da imortalidade. Rapidamente, surge uma nova Themyscira e, após uma aparente era de paz, Hipólita, líder das Amazonas, se descobre grávida e dá a luz à Diana, a única criança em toda a história daquela raça. Os deuses concedem dons para ela, confiando todas as suas fichas que aquela será a última esperança para impedir Ares, que se fortalecia cada vez mais com o passar dos conflitos da humanidade. Após o seu amadurecimento de corpo e espírito, chega à hora da Princesa Diana ir para o mundo dos homens e deter os planos do deus da guerra, que estavam cada vez mais próximos de serem realizados.

Por mais que toda essa premissa possa parecer simples, ela é orquestrada e executada com esmero por Pérez. A forma que a mitologia é apresentada, com todas as suas formas e cores, compõe perfeitamente uma narrativa épica que nos é apresentada logo nas primeiras páginas. É difícil você não se pegar admirado pelo conjunto da obra durante a leitura, apreciando uma qualidade que raramente é vista nos quadrinhos de hoje. Uma característica que fortalece o aspecto clássico do quadrinho é a sua narração, que cria um espírito de um épico mitológico nas suas descrições utilizando com êxito metáforas, sinestesias, hipérboles e muitos outros tipos de figuras de linguagem. O mesmo acontece com os diálogos, que são diretos e expressivos em um excesso típico dos quadrinhos da época. Com certeza é um pouco estafante ler nos dias atuais conversas absurdamente formais como as que aparecem nessa história, mas isso é algo de época que tem que ser levado em consideração.

A arte é fabulosa. O trabalho de cores, figuras, formas e detalhes são admiráveis. E os efeitos são de uma engenhosidade impressionante. É perceptível a intenção do que cada quadro quer expressar em sua arte. Em especial, o design de toda a parte mitológica, na arquitetura, nos personagens e na natureza. É de saltar os olhos.

O volume 1 dessa coletânea reúne perfeitamente o que se pode considerar o primeiro arco narrativo da era George Peréz da Mulher-Maravilha (Mulher-Maravilha: Deuses e Mortais), que até Rebirth era considerado o Mulher-Maravilha: Ano Um. Mesmo com seu clichê e com sua pegada exageradamente épica, Lendas do Universo DC: Mulher Maravilha Vol. 1 é não somente uma excelente aquisição para quem é fã, mas como também é um excelente ponto de partida para começar a ler as histórias e se tornar ainda mais interessado no universo da nossa querida Princesa Amazona.