[REVIEW] Lanterna Verde: Renascimento

Uma das missões mais ingratas para qualquer escritor de quadrinhos é a difícil tarefa  de assumir a jornada de um personagem consagrado, mexer com conceitos estabelecidos e atender ao exigente publico de quadrinho. É um desafio que poucos saem ilesos, pois ao fazer isso o editorial assume o risco de perder muitos leitores regulares e a obrigação de atrair um publico novo que não tinha interesse pelo seu personagem  até então. É fácil enxergarmos os editoriais como grandes impérios do mal dirigidos por vilões sem coração, mas infelizmente, por diversas razões, a revista do Lanterna Verde não era mais tão vendável quantos outros medalhões da editora, e uma nova ótica era necessária, e então Geoff Johns – que já cantava o retorno de Hal Jordan há algum tempo, por ser um grande fã – recebeu sinal verde para executar o seu projeto mais ousado no mundo dos quadrinhos.

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Antes de ler lanterna renascimento, é preciso entender algumas referencias que o autor usará para demonstrar a personalidade de alguns personagens e alguns acontecimentos. Vale salientar que durante todo o período em que foi responsável pelo Lanterna, Geoff Johns usou o perigoso recurso do retcon para amarrar os erros e as pontas da cronologia (inclusive os próprios), de modo a dar seguimento na sua história. Para o entendimento da historia, segue um breve resumo do que se passou:

  • Crepúsculo Esmeralda, onde Hal Jordan, até então conhecido como o maior Lanterna Verde, enlouquece depois que sua cidade é destruída e assassina todos os integrantes da Tropa dos Lanternas Verdes, mergulha na bateria central  e se torna o vilão Parallax;
  • Noite Final, onde Hal se sacrifica em um ato final para reascender o sol;
  • Day of Judgment, onde Hal vira o hospedeiro do Espectro, o Espírito da Vingança.

E durante essas histórias, temos o Lanterna Kyle Rayner, que muitos fãs atestam como o Lanterna Verde definitivo, pois quando Hal cedeu à tentação e se tornou um assassino por motivos egoístas, Kyle foi o Lanterna que assumiu o seu lugar e quem deu continuidade ao legado da Tropa dos Lanternas. E por falar em Kyle, o personagem sofreu muito nos anos seguintes nas mãos de roteiristas, que mesmo não sendo o protagonista, ofuscava tanto o Hal que acabou assassinado durante a Guerra dos Anéis, e após o fim da saga, foi relegado apenas à um bucha. Particularmente, eu diria que Johns só fez justiça ao Lanterna Kyle no seu ultimo arco à frente do Lanterna, A Ira do Primeiro Lanterna.

No inicio da história temos Kyle Rayner caindo na Terra em uma nave – da mesma forma como a nave de Abin-Sur – extremamente abalado e com um caixão com um simbolo dos lanternas nele; nisso já corta para como está o cotidiano dos Lanternas Guy Gardner (ainda com os poderes vuldarianos), John Stewart e Hal Jordan (surgindo como fantasma), sempre conversando sobre o que Hal era no passado e o que ele se tornou. Como Espirito de Vingança começou a andar em público, as pessoas surtam e começam a confessar os seus pecados abruptamente. Nisso, a Liga da Justiça já começa suspeitar, encabeçada por Batman, que Hal Jordan nunca se regenerou e continua um vilão extremamente perigoso para o Universo, que pode atacar novamente a qualquer momento. No decorrer das seis edições, temos alguns vilões clássicos reintroduzidos como Mão Negra, Sinestro, Parallax e muitos outros elementos que são o ponto de partida para o novo universo de histórias do Lanterna Verde que Johns viria explorar nos próximos quase dez anos. Nessa história, já se observa o porquê dos lanternas serem sensíveis à cor amarela, como cada anel se comporta de acordo com as características pessoais de cada usuário, e Parallax como entidade cósmica.

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Mas nem tudo são flores. A história também marca o retorno de Hal Jordan, porém ao invés de enaltecer o personagem com suas qualidades, ela diminui os outros, como a famigerada cena do soco no Batman que trouxe mais uma imagem negativa do que positiva sob o personagem; aliado a isso, também temos o fato dos outros lanternas terem uma confiança cega na pessoa que tentou assassinar todos pouco tempo atrás e temos um protagonista forçado. Trazer Hal de volta foi bom, ele por muitas vezes toma decisões e atitudes erradas, já foi vilão e continua com uma personalidade demasiada babaca e o fato dele não ser um  personagem “preto no branco” traz uma complexidade que só tem a adicionar nas historias, como ele erra, aprende, erra de novo, é derrotado, as possibilidades são ótimas, mas, infelizmente, não houve um bom aproveitamento nesse sentido.

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A arte de Ethan Van Sciver é muito bonita com a coloração mais escura de Moose Baumann,  bem detalhada e nos presenteia com ótimas cenas como a luta contra Sinestro no cinturão de asteroides – que é, de fato, emocionante – porém ele falha em muitas transições e em determinados momentos, mais confunde do que ajuda o leitor. Por exemplo, a cena em que Hal está tentando se separar da entidade Parallax, a medida que ele quer transparecer uma luta mental, mais parece uma bizarra simbiose no plano físico. O leitor ciente desses detalhes poderá aproveitar o belo trabalho desenvolvido por Ethan.

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A partir de Lanterna Verde: Renascimento temos o inicio de uma expansão da mitologia do Lanterna Verde, e, inegavelmente, foi a consolidação de Geoff Johns na DC Comics. Seus métodos são polêmicos, mas ali está a base para o Lanterna Verde contemporâneo muito amado e com uma legião de fãs. Como toda renovação que tem por missão acabar com os defeitos antigos e, fatalmente, criar novos, não é uma obra perfeita. Assim como o anel energético escolhe usuários com  capacidade de enfrentar grande medo e não por caráter. Nem sempre você verá um personagem “heroico” mas com certeza não poderá reclamar de falta de aventuras.

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Nota: 7/10

  • O Primeiro e o Maior

    O soco na cara de Batman é um dos melhores momentos EM TODO O MULTIVERSO DC! Deveria ser aplaudido de pé! A paranoia de Batman às vezes é enojante! E Hal não se entregou a Parallax por motivos egoístas, bem ao contrário mesmo! Sua cidade foi arrasada, todos mortos! O trauma foi grande. Renascimento é um grande quadrinho. Johns é um escritor excelente, e o que ele fez por Hal o torna ainda maior, tanto o artista quanto o personagem!

  • Murilo Fernando

    Parabéns pelo review, Ricardo! Foi simples e direto. Concordo com suas palavras!