[REVIEW] Doutor 13 – Arquitetura e Mortalidade

A metalinguagem é um artifício comum nas histórias em quadrinhos. Desde Alan Moore com seus Contos do Cargueiro Negro, passando pelo Homem Animal de Grant Morrison e culminando no medíocre Superboy Prime, a metalinguagem sempre foi presente nas histórias da DC. E Dr. 13 só veio para reforçar essa ideia.

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Escrita por Brian Azzarello e desenhada por Cliff Chiang (mesma dupla criativa da Mulher Maravilha dos Novos 52), Dr. 13 – Arquitetura e Mortalidade é uma divertida história que viaja pelo underground dos quadrinhos da DC Comics, unindo os personagens mais improváveis em situações extremamente bizarras.

Terrence Thirteen é um investigador paranormal conhecido por ser a pessoa mais cética viva – tão cético que não acredita nem em magia ou alienígenas. Junto com sua filha, Traci, Doutor 13 é convocado pelo premier francês para investigar a queda de um avião desaparecido há meses nos alpes franceses. E a partir daí as coisas começam a ficar malucas.

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Em pouco espaço de tempo, Dr. 13 se vê ao lado de um vampiro centenário e piratas fantasmas um navio voador, lutando contra gorilas nazistas. Parece roteiro de filme trash dos Anos 80, se não fosse a classe com a qual a história é desenvolvida, e os personagens envolvidos nela.

Durante essa viagem de ácido, por ser uma pessoa cética, Dr. 13 fica o tempo todo em estado de negação, e rende os momentos mais divertidos da trama, apesar de ser um fator importante para o seu desfecho.

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Azzarello se aproveita de antigos personagens da DC Comics, que acabaram esquecidos no limbo, e os traz de volta para a construção dessa sua odisseia metalinguística:

  • Capitão Medo, um pirata fantasma que fala com um sotaque escandalosamente estereotipado;
  • Andrew Bennett, também conhecido como o emocionalmente torturado Eu, Vampiro;
  • Genius Jones, o garoto que pode responder qualquer pergunta se lhe derem um centavo;
  • Julius, um macaco nazista da Patrulha Primata;
  • Anthro, o primeiro garoto na Terra;
  • O fantasma de James Ewell Brown Stuart do Tanque Assombrado;
  • E Infectious Lass, do futuro distante da Legião dos Super-Heróis.

Eles são personagens da Era de Ouro/Prata que foram esquecidos e acabaram habitando as margens do Universo. Esses personagens (e muitos outros como eles) fazem escritores desequilibrados e inseguros se sentirem desconfortáveis ao escrevê-los, porque eles podem ser ridicularizados pelo público. E quando leitores que não entendem a proposta desses personagens riem de suas características, os personagens também se sentem ridicularizados.

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Toda a trama gira em torno de avisos contra Os Arquitetos. Os Arquitetos – um conceito brevemente arranhado em 52 e na revista mensal do Gladiador Dourado, de 2007 – são os seres que regem o Universo, e que decidem quais personagens vivem e quais personagens morrem. E, convenientemente, os Arquitetos decidiram que os protagonistas e coadjuvantes da história não deveriam existir, por não encontrarem um propósito para eles em seu Novo Mundo que estava sendo construído. E o genial é que os Arquitetos são nada mais nada menos do que o quarteto que regia os caminhos do Universo DC entre 2005 e 2007: Geoff Johns, Grant Morrison, Greg Rucka e Mark Waid.

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Arquitetura e Mortalidade é um festival de referências da cultura pop. Para novos leitores, talvez esses easter eggs não fiquem tão claros quanto para os veteranos, mas ainda assim você vai estar lendo uma aventura no melhor estilo Sessão da Tarde, com todos os elementos de quadrinhos que você possa imaginar.

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A arte de Cliff Chiang é um colírio para os olhos. Seu traço consegue expressar a beleza e a dinâmica que é uma boa história em quadrinhos, e sua arte não decai em nenhum momento das oito edições. Ouso dizer que essa é a obra prima dele, por conseguir nos remeter à Era de Prata, ao mesmo tempo que constrói quadros modernos.

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Vale também mencionar que o título da história é baseado no terceiro álbum da banda de new wave Orchestral Manoeuvres in the Dark (OMD)Architecture & Morality (1981), e alguns dos capítulos da história recebem os nomes das músicas desse álbum.

Infelizmente, é uma história fechada, e por mais que seu final pareça um cliffhanger para outras histórias, não é, já que ele brinca com o existencialismo de personagens em quadrinhos. Mas não custa nada sonhar com Azzarello e Chiang retornando para um título do Team 13.

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Lá fora, Arquitetura e Mortalidade saiu como histórias back-up da revista Tales of the Unexpectedque contava as aventuras do novo Espectro, Crispus Allen. Mais tarde, todas as edições foram compiladas em um belíssimo encadernado, que está a venda em papel e formato digital até hoje. No Brasil, por incrível que pareça, a história também saiu pela Panini, mas em um péssimo formato, nas páginas da finada revista Wizmania (edições #51-53Wizmania Preview #1Wizmania Especial #1). Então, caso queira correr atrás – e você deve correr atrás dessa história -, o único jeito é recorrer aos sebos e ao encadernado americano.

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Excelente história, excelente arte e excelentes personagens que vão marcar a vida de cada um que ler com sensibilidade, e fazer pensar o quanto que a indústria de quadrinhos atual é carrasca com personagens não-vendáveis. Prenez garde aux architectes.

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Nota: 10/10

  • Leo

    ótimo mesmo, mas não li tudo, na época comprava wizmania, mas perdi as últimas revistas.

  • Fake do Murilo

    Me lembrou Doctor Who.