[REVIEW] Arqueiro Verde: Os Caçadores

“Hoje é o primeiro dia do resto de sua vida”, é o que dizia o anúncio de Arqueiro Verde: Os Caçadores (Green Arrow: The Longbow Hunters, no original), minissérie lançada em 1987 sob assinatura de Mike Grell. Depois do estrondoso sucesso de Batman: O Cavaleiro das Trevas, a DC Comics teve a chance de repaginar o Arqueiro Esmeralda seguindo uma premissa mais adulta, que provou-se como uma abordagem aceita pelo público. E o personagem, de fato, precisava disso. Depois de Arqueiro Verde/Lanterna Verde e Crise nas Infinitas Terras, aquela era a oportunidade perfeita.

Na escrita de Mike Grell, as flechas com truques faziam parte de um passado distante. O cenário real, corrupto e perigoso de Seattle era a ambientação perfeita para uma caça urbana. A partir de agora, os vilões eram realmente malignos, sujos e faziam parte de grandes cartéis de drogas, organizações políticas e até mesmo da máfia. A mudança era brusca até mesmo depois da aclamada fase de Dennis O’Neil e Neal Adams, que trouxe um novo senso de justiça para o personagem.

A narrativa segue a mudança de Oliver Queen e Dinah Lance, que foram para Seattle procurando um recomeço em suas vidas. Depois de uma breve relembrada de sua jornada até aquele momento, Oliver sente-se velho por estar perto de seus 43 anos. Ao mostrar interesse em formar sua própria família, ele se depara com um “não” de Dinah, que teme dar luz à crianças que poderiam tornar-se órfãs a qualquer instante, uma vez que a profissão de ambos os pais seria extremamente perigosa. Não demoraria muito para que o argumento se tornasse válido e o dever os chamasse. Dinah começa a investigar um grande esquema de cocaína que estava matando mulheres jovens enquanto Oliver caça a pessoa responsável por assassinatos em série sem qualquer padrão visível.

Depois de suceder na caça ao assassino conhecido como Estripador, o Arqueiro Verde cruza caminho com a arqueira Shado – uma mulher que estava a mando da Yakuza assassinando figuras importantes de Seattle. Curioso com suas habilidades e buscando justiça, Oliver decide investigá-la.

Dinah, no entanto, estava com problemas. Depois de conseguir rastrear quem estava por trás da cocaína, a heroína é capturada e torturada severamente. Depois de uma busca acentuada, Oliver consegue encontrar o paradeiro de sua parceira. Na infame cena, Dinah estava prestes a ser ainda mais torturada quando Oliver chega e atira uma flecha no coração do torturador para salvar sua vida. Esse evento mudaria completamente a jornada de ambos no Universo DC. Para Oliver, a decisão difícil de matar alguém tinha sido tomada. Para Dinah, o trauma inimaginável seria motivo de angústia grande o suficiente para bloquear seus poderes sônicos e dar um fim em sua fertilidade.

Surpreendentemente, Shado ajuda Oliver e Dinah a saírem do armazém. Mais tarde é revelado que as pessoas por trás do esquema de cocaína eram inimigos da Yakuza e o trabalho de Shado para a máfia era um pagamento de dívidas deixadas por seu pai. Oliver junta-se a Shado na caçada pelos responsáveis e desmascara um agente corrupto da CIA que importava drogas usando os fundos monetários de um acordo com o exército iraniano para apoiar contrarrevolucionários da Nicarágua. Por fim, Oliver e o agente entram em acordo para que o silêncio do Arqueiro fosse comprado com o dinheiro das drogas e a certeza que o Governo não seria envolvido.

Nas páginas finais da história, vemos Oliver e Dinah juntos e dispostos a recomeçar mais uma vez na cidade que tinha se mostrado muito diferente da fictícia Star City.

Caçadores também prospera em sua arte. As ilustrações de Mike Grell são arrojadas, expressivas e mostram sequências impressionantes e bem trabalhadas. Em momentos, os painéis parecem possuir harmonia tão grande entre si que o passado e o presente mostrados na escrita conectam-se também na ilustração. As cores de Julia Lacquement são bem trabalhadas e auxiliam no processo de imersão com a obra.

Já se passaram 30 anos desde a primeira publicação de Caçadores e a marca que Mike Grell deixou no personagem continua forte na literatura das histórias em quadrinhos. Grell cumpriu seu dever de reinventar o personagem, tornar aquela cidade realista dentro de um universo cercado por poderes e suceder a ponto de concretizar a primeira série recorrente do personagem, usando Caçadores como ponto de partida para o futuro de Arqueiro Verde e Canário Negro, como casal e como pessoas distintas. Aquele, sem dúvidas, foi o primeiro dia da vida de Oliver Queen.

  • Murilo Fernando

    Mike Grell fez um baita trabalho mostrando a evolução do Arqueiro Verde clássico da Era de Ouro para um herói mais calejado e que se viu em um mundo bem diferente do que era antes. Tem passagens bastante tensas e sombrias, mas que servem ao propósito de desenvolvimento tanto de Ollie quanto de Dinah. Excelente história!