Rebirth e a reinvenção do Universo DC

A continuidade é vista como uma barreira para atrair novos leitores, e muitas vezes é. Por exemplo, você não pode ter uma história como a Crise nas Infinitas Terras sem uma finalidade; você não pode desenvolver um personagem rico como Wally West, a menos que ele tenha um legado significativo para herdar e superar. Você também não pode, se está planejando histórias em série que podem prolongar 20 ou 50 anos para o futuro, fazer coisas como dar um filho para o Superman ou casar o Batman com a Mulher-Gato. Mas o Universo DC pós-Rebirth revelou um benefício escondido em sua série de reboots e retcons, ele permite riscos que antes seriam impensáveis.

Há uma sensação de que, nos quadrinhos, não importa o quão destruída a Terra seja o último evento, as coisas eventualmente retornarão ao status quo. O bem vencerá o mal. Mas para situações em que você não está lidando com gente boa versus gente má, quando as histórias entram nos aspectos mais humanos da vida sobre-humana, mudar o curso pode ser extremamente difícil.

O reboot d’Os Novos 52 foi cheio de problemas, mas ele deu a oportunidade da DC criar um novo Universo, reorganizando uma configuração de relações entre personagens que era vigente há mais de 10 anos – como o casamento do Superman com Lois Lane. Isso prova que, acertando ou errando, a DC ficou ousada. Não com o tipo de mortes chocantes e revelações exageradas, mas com o lado humano, a parte que nos conecta com esses heróis, que nos permite acreditar neles.

Agora, Lois e Clark não só se casaram, como também têm um filho, Jon. O solitário eterno Batman propôs a Mulher-Gato em casamento, e eles podem se casar. Nesse cenário, ela se tornaria a madrasta de Robin, criando outra dinâmica intrigante.

Essa “abordagem familiar” é uma mudança muito maior do que parece, porque é muito mais difícil do editorial reverter a história. Batman pode se recuperar de uma coluna quebrada, mas apagar um casamento é outro assunto. E isso é importante, porque permite que novas histórias sejam contadas com esses personagens vivendo esses momentos específicos. Fora de Elseworlds e Terras Paralelas, nunca tínhamos parado para imaginar o Superman como um pai. Se Selina disser que sim, teremos, pela primeira vez, uma visão de Bruce Wayne como um homem casado. Isso é inerentemente mais interessante e emocionante do que a tensão sexual perpétua que a editora criou ao redor desses personagens.

E tudo isso é possível por conta dos reboots. Se você está regendo um universo heroico por cinco ou dez anos, você pode assumir esse tipo de risco muito mais facilmente do que se tivesse um universo contínuo por 80 anos. Se a atual abordagem saturar e os fãs clamarem pelo retorno de um Bruce Wayne playboy, basta a DC Comics pressionar o reset.

Ainda assim, essa cultura do reboot possui perigos. Arriscar muito pode tornar as histórias menos importantes, por reduzir seu impacto no Universo como um todo. A suspensão voluntária de descrença nos permitirá acreditar que um homem pode voar, que um Cavaleiro das Trevas pode superar sua própria tragédia pessoal para proteger os inocentes; mas para acreditar nesses heróis, devemos acreditar que suas ações têm um peso. Que eles tenham um passado relativamente conhecido, que seu futuro, enquanto não escrito, seja pelo menos linear. As reinicializações destroem fundamentalmente essa narrativa.

O relacionamento Batman/Mulher-Gato representa que a DC está entrando em uma nova era e que os reboots, anteriormente ridicularizados pelos fãs, proporcionaram bases que aumentaram a força da editora. O Universo DC agora é um ambiente para cultura de novas narrativas, onde experimentos de mudança de personagens podem e ocorrerão com a compensação de que tudo não será desfeito em um piscar de olhos.