Primeiras impressões: Senhor Milagre de Tom King e Mitch Gerads

Como homenagem aos 100 anos do nascimento de Jack Kirby, a DC Comics decidiu lançar uma série de títulos e edições especiais com as icônicas criações do Rei dos Quadrinhos. Com certeza, um dos títulos mais esperados – e ambiciosos – era Senhor Milagre. De autoria de Tom King e Mitch Gerads, somos apresentados ao famoso artista escapista vivendo um de seus maiores dilemas: conseguiria ele escapar da morte?

Considerado um dos melhores roteiristas da atualidade por trabalhos como Batman, The Omega Men e O Xerife da Babilônia, a expectativa em torno do título é completamente plausível e é recompensada com uma primeira edição que quebra as convencionais barreiras narrativas usadas em histórias de super-heróis e ao mesmo tempo se aprofunda no melhor da fantasia existente no gênero.

A edição começa com Scott Free deitado no chão do banheiro, usando seu traje, com os pulsos em sangue em uma clara tentativa de suicídio. É uma imagem chocante e o motivo que o levou a optar por tamanha decisão é explorado por toda edição, revelando muito não apenas do Senhor Milagre, mas de todos os personagens em torno dele, desde sua esposa até seu pai e seu irmão. Mesmo assim, existem dúvidas se a tentativa de suicídio de Scott foi realmente infrutífera ou se sua maior fuga ainda é algo que esteja em progresso, pois quase todos os detalhes da edição colocam em xeque o sucesso da experiência orquestrada pelo Senhor Milagre.

Após a tentativa de suicídio, temos uma página que, à primeira vista, pode até parecer algo simples, mas se mostra repleta de nuances. Ao invés da formatação de nove quadros por página, vemos uma sequência de imagens de uma criança desenhando enquanto um tipo de piada é contada ao longo dos recordatórios. A criança é mostrada sentada em uma mesa escolar de maneira isolada e repetitiva. Claramente conseguimos reconhecer Scott Free graças à tonalidade da cor do cabelo e do uso das cores do uniforme do Senhor Milagre, aparentemente causados pela distorção da própria imagem. O fundo é, ou pelo menos aparenta ser, uma fotografia se deteriorando devido ao tempo e à exposição ao Sol. Também é possível enxergar em cada repetição da imagem da criança, uma fita amarelada sobre seu rosto. Não tão amarelada que consiga obscurecer a imagem, mas amarelada o suficiente para ser visível.

A criança diz ao seu professor que está desenhando Deus, ao qual o professor responde “ninguém sabe como Deus é”, o que nos leva à réplica: “Sim. Até agora”. A piada é repetida nas próximas páginas da edição pelo amigo de Scott, Oberon, embora Barda logo depois lembra ao marido que Oberon havia morrido recentemente de câncer.

No meio disso tudo, Orion – filho de Darkseid, criado em Nova Gênese – se teletransporta através do uso de um Tubo de Explosão até o apartamento do casal para “ensinar” Scott – filho do Pai Celestial, criado em Apokolips – uma lição, através de uma surra, devido à sua errônea decisão. Após Barda o colocar em seu devido lugar ao dizer que “somente Vovó Bondade pode ensinar”, Orion parte, deixando Scott prestes a enfrentar uma confusão mental. O mundo não é mais o que ele pensou que era.

Logo após, temos outra cena incrível. Em uma sequência totalmente distorcida, remetendo à uma imagem projetada pela tela de uma televisão, Senhor Milagre realiza uma fuga espetacular de um tanque de água em um programa de televisão antes de uma entrevista com o apresentador do programa chamado apenas de Godfrey. Os fãs de Kirby com certeza o reconhecerão como Glorioso Godfrey, um dos seres de Apokolips, embora Scott aparenta não fazer tal conexão. O escapista conta a Godfrey que sua tentativa de suicídio era apenas um truque motivado pela busca de um desafio ainda maior em sua carreira. “Do que não posso fugir? Do que não deveria ser capaz de escapar? Morte. Ninguém escapa da morte. Então me matei”.

Senhor Milagre faz um gesto como se estivesse fazendo um corte em sua garganta, o que gera risos da plateia, e a distorção da imagem se intensifica ainda mais, com Godfrey olhando diretamente para a câmera em uma espécie de quebra da quarta parede.

Na sequência, temos uma cena de uma conversa entre Senhor Milagre e Pai Celestial, o deus supremo de Nova Gênese, onde descobrimos que Darkseid alcançou a Equação Antivida e que Scott não tem uma boa relação com seu pai. Logo após, Orion convoca Scott e Barda para Nova Gênese, dizendo que a guerra contra Apokolips começou e que o Pai Celestial está morto. Antes de entrarem no Tubo de Explosão, Senhor Milagre diz que algo não está certo. “Tudo está errado… Eu não sei como escapar disso”. Barda, usando o mesmo método usado por Orion anteriormente, tenta acabar com a crise existencial de seu marido o derrubando no chão; o que acaba funcionando. Juntos, eles partem para seu lar em Nova Gênese.

Além do estranho episódio envolvendo a criança e seu desenho, existe uma série de intrigantes elementos em Mister Miracle #1. King é conhecido por ser um grande fã da formatação de nove quadros por página, e assim como em The Omega Men, O Xerife da Babilônia e The Button, o roteirista novamente faz uso desse conceito durante a maior parte da edição. Tal artifício nos trás interessantes detalhes. A sequência da cena envolvendo Godfrey tem uma presença notável da cor preta, com os quadros sendo reduzidos para a inserção de legendas contendo o diálogo entre os personagens. Além disso, conforme a distorção aumenta, os quadros se fundem uns com os outros através de uma espécie de estática gerada pela “televisão” e que confunde nossa visão. O espaço escuro cresce ainda mais nos quadros onde está escrito “Darkseid é”.

Aparecendo pela primeira vez logo depois da chegada de Scott no hospital, na página 3, a frase “Darkseid é” aparece em quase todas as outras páginas da edição. A frase é bastante usada nas histórias envolvendo Darkseid, especialmente nas histórias onde o tirano de Apokolips sai como vencedor. Podemos pegar como exemplo o arco Liga da Justiça: Pedra da Eternidade e o evento Crise Final – clássicas histórias onde Darkseid dobra o Universo à sua vontade ao usar a Equação Antivida -, onde presenciamos o uso da imponente frase. Um cosmos desprovido de esperança, desprovido de escolha, é onde Darkseid impõe sua existência.

A principio, o quadro contendo a frase aparece após o quadro contendo chegada da ambulância e antes do quadro que nos mostra o despertar de Scott no hospital. Ele se repete logo antes da chegada de Orion no apartamento de Scott e Barda e durante toda a sua “lição”, se estendendo até um momento de calma entre Scott e sua esposa, antes dele perceber que a cor dos olhos dela mudou.

Porém, é na cena onde vemos Oberon que as coisas saem do controle. Agora existem dois quadros contendo a frase por página e eles agora aparentam interferir no meio de atividades mundanas. Quando Barda lhe diz a verdade, surgem quatro quadros por página contendo a frase, em uma espécie de tabuleiro de xadrez. Logo depois, o tabuleiro de xadrez se inverte e agora existem cinco quadros contendo a frase. Pontuando cada momento. Cada pensamento. Por mais que Scott insista em dizer que tudo não passou de um truque, fica evidente que o que está acontecendo aqui é um quadro claro de depressão. E então todas a páginas ficam escuras. Só uma mensagem é transmitida: Darkseid é.

A edição começa e termina com uma espécie de narrador pedindo para os leitores acompanharem as aventuras do Senhor Milagre – narrador este que permanece ausente por toda edição. King usa do artifício como uma espécie de introdução feita no início de programas de televisão, porém, se o narrador tem ou não alguma participação mais direta na história, ainda é algo a ser descoberto.

Senhor Milagre #1 é uma edição com pouquíssima ação, mas recheada de eventos. A ameaça é maior do que qualquer monstro gigante. Maior mesmo até do que Darkseid. King e Gerads novamente nos surpreendem com uma história original e completamente inesperada. Os fãs dos personagens de Kirby podem até ficar chocados ao verem seus heróis passarem por uma situação tão sombria, mas não há nada aqui que já não tenha sido previamente estabelecido. Com relação aos novos leitores, a edição é capaz de fazê-los simpatizar imediatamente com Scott e Barda, dando a oportunidade deles irem se aprofundando aos poucos em todo o Quarto Mundo. Com essa nova minissérie, Tom King e Mitch Gerads não reformularam apenas um grande personagem, mas estabeleceram as bases para uma reformulação universal das histórias em quadrinhos.

  • O Homem do Amanha

    Obra prima. Mais um Eisner chegando pra DC

  • O Homem do QI200

    A DC tá ganhando muito com o Tom King, o cara tá trazendo muitas coisas novas para os quadrinhos de heróis.

    • Dumas Barão

      Verdade, na minha humilde opinião Tom King tem feito as melhores histórias do Batman em muito tempo. Os arcos “eu sou suicida”, “eu sou bane” e “telhados” são muito bons e estou extremamente empolgado com “a guerra de piadas e charadas” kk

    • Eduardo Faria Guimarães

      Melhor roteirista na atualidade,por isso que sempre digo que a melhor HQ do Renascimento é o Batman escrito por ele.

  • Dumas Barão

    Adoro essa dupla de artistas, é a conjunção de excelente roteiro com uma arte brilhante, Batman 23 e Xerife da Babilônia são exemplos disso: A arte é espetacular e o texto primoroso. Hoje meus artistas favoritos são sem dúvida Mikel Janín e Mitch Gerads.

    • O Homem do QI200

      Cara, confere as edições #25 e #26 de Aquaman Rebirth, veja as artes do Stjepan Sejic, também é bem foda. Mitch Gerads, não sou muito familiarizado, leio muitas HQs sem ao menos ver quem é o escritor ou o artista, talvez eu já tenha conhecido e nem sabia, já as artes do Mikel Janín é sensacional mesmo.

      • Dumas Barão

        Stjepan Sejic é excelente também kk Curti demais a arte dele no Namor e agora melhorou ainda mais. Aliás, dá uma olhada nas capas variantes do Aquaman com a arte do Joshua Middleton: Olha que arte incrível na edição 16

  • Neo

    Já até imagino Mitch Gerards usando seu sobrinho como modelo, kkk. Da mesma forma que foi em Xerife da Babilônia.