Primeiras Impressões – Batman: White Knight

Já vimos inúmeras vezes nas redes sociais e nos noticiários um espectador captar em um vídeo o momento crucial em que aqueles que servem ao lado certo da lei a infligem por meio de ações questionáveis – e diversas vezes violentas – sobre aqueles que estão do outro lado dela. Nesse momento, a percepção pública de ambos os lados é revogada, à medida que os criminosos se tornam vítimas simpatizantes e aqueles que os perseguem agora são os desprezados.

Tal é a premissa que Sean Murphy construiu em Batman: White Knight # 1, onde Batman e Coringa se encontram nesse mesmo tipo de reversão de papéis, quando anos de reputação, boa ou ruim, de repente não significam mais nada depois que um vídeo de poucos segundos se torna viral e muda completamente o papel dos rivais na história.

No mundo real, tais incidentes geram manchetes, discursos e debates por um tempo, mas pouco tempo depois ficam em segundo plano, pois notícias mais recentes atraem a atenção do público – ou até que outro incidente desse tipo ocorra. Em White Knight, porém, o tempo e as circunstâncias permitem que o Coringa aproveite o momento – um momento onde seu espancamento e suposto envenenamento pelas mãos do Batman coloca a opinião pública contra o Cavaleiro das Trevas – e cria um enorme movimento que proclama o vitimado Palhaço do Crime como o Cavaleiro Branco de Gotham.

O vídeo de um criminoso que é perseguido pela polícia e depois espancado após entrar em um armazém farmacêutico pode ser a notícia do momento por algumas noites no universo tradicional. Mas se esse criminoso for o Coringa, quem o tivesse espancado for o Batman, e o tal criminoso fosse forçado a ingerir uma mistura de pílulas que por sorte o cura de sua condição, com certeza, todos falariam disso por muito tempo. Em nosso mundo, os criminosos que são vitimados assim não são curados milagrosamente de sua criminalidade, mas no mundo cheio de coincidências dos quadrinhos, um vilão que acaba por ser curado pelas ações de seu arqui-inimigo, que muitos acreditam que estava tentando matá-lo, é coisa típica de contos de fadas. Nascido de tal tragédia, Coringa acaba por se tornar o tipo de Cavaleiro Branco que o mundo real nunca poderia ter.

Uma coincidência um tanto boa é que em White Knight, o Coringa deste mundo, aparentemente, não é um psicopata como seus homólogos em todo o Multiverso, tendo sido condenado apenas pelo crime relativamente moderado de assalto à mão armada – de acordo com os padrões do Coringa, é claro. Isso certamente faz com que seu caminho para a redenção seja muito mais fácil – um Coringa que matou Jason Todd ou aleijou e abusou Barbara Gordon dificilmente seria uma grande figura proeminente contra a brutalidade e a violência, independentemente das circunstâncias. Junto disso, temos um Batman claramente mais sombrio que utiliza métodos mais brutais para perseguir o Coringa, o que certamente faz dele um personagem que o público está bem disposto a se voltar.

A história é uma espécie referência às atitudes não muito claras tomadas hoje em dia tanto pela a polícia quanto pelos criminosos – um Batman que parece estar se aventurando por um caminho mais escuro alinhado com as percepções da sociedade sobre a polícia, aparentemente usando táticas mais violentas contra criminosos. Do mesmo modo, o tratamento do Coringa nas mãos de Batman evoca a simpatia do público, fazendo com que uma convicção de assalto à mão armada pareça irrelevante – não é diferente de um vídeo de dez segundos mostrando que uma pessoa sendo espancada não é nada senão uma vítima, independentemente de quaisquer atos criminosos que ela possa ter cometido. Mocinhos que chegaram longe demais e caras maus que não parecem tão ruins fazem com que a virada da opinião pública seja um pouco mais plausível – tanto na vida real quanto nos quadrinhos.

Aqueles que foram maltratados pelo sistema naturalmente terão alguém em sua defesa. Tais heróis existem, é claro – muitos protestaram em nome de tais vítimas, emprestando suas vozes singulares como parte de um movimento organizado muito maior. Legisladores avançaram para tentar restringir esse tratamento ilegal. Aqueles não corrompidos dentro do sistema muitas vezes trabalham por dentro, tentando melhorá-lo para que tais transgressões não ocorram novamente.

Tais ações heroicas, porém, são apenas como passos de bebê em uma jornada de incontáveis quilômetros. As soluções de longo prazo são pouco úteis para aqueles que necessitam de assistência imediata ou a curto prazo. Legislação, comoção social e pensamentos positivos são todos maravilhosos, mas são de pouca utilidade para alguém que foi ilegalmente atacado em um momento qualquer. Não dada a chance e a oportunidade de desejar libertação, as vítimas de tais irregularidades ficariam mais do que satisfeitas em ver um herói fantasiado salvando sua pele, especialmente quando não há outras opções imediatas disponíveis.

Os super-heróis têm por muito tempo suas origens enraizadas em fantasias e desejos, voltando ao próprio início do gênero. Superman e muitos outros heróis vestindo trajes coloridos foram inventados por seus criadores para servirem com triunfos sobre a opressão – para fazer aos nossos inimigos o que nós mesmos não pudemos. As leis e os protestos são ótimos, mas nada oferece essa gratificação imediata como ver um herói chegar à cena e despachar os opressores de uma vez.

No entanto, o Coringa realmente é adequado para esse papel? Como pode um grande e verdadeiro vilão superar sua história e se posicionar como um modelo a se seguir contra as forças que o consideraram um vilão, em primeiro lugar? É uma questão que é paralela às questões da sociedade sobre os criminosos vitimados – como alguém assim pode ser confiável? Por que eles estavam correndo da polícia em primeiro lugar? Eles não mereceram o que aconteceu com eles? Essas questões são muitas vezes contestadas com outras questões – por que essa força excessiva foi usada? Por que os defensores da lei não são responsáveis? Por que a polícia pode ter esse poder? Há muitas perguntas, mas poucas a caminho de receber respostas – um cenário na sociedade que White Knight está perfeitamente preparado para abordar.