Os 20 anos de Reino do Amanhã

É muito difícil escrever uma obra que continue transmitindo uma mensagem relevante através dos anos. É muito fácil reler histórias em quadrinhos antigas na qual história e a arte dataram de maneira triste, apesar das boas memórias que você teve quando a leu pela primeira vez. Em suma, não é um trabalho fácil. Contudo, Reino do Amanhã, de Mark Waid e Alex Ross – com desenhos do próprio Ross -, é uma dessas raridades.

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Mark Waid e Alex Ross, respectivamente

Se você é um leitor que começou a acompanhar o mundo dos quadrinhos entre 1980 e 1990, deve saber que a década de 90 é bastante conhecida por ser um período sombrio para a nona arte como um todo. Eram tempos estranhos em que roteiros eram deixados de lado pela valorização da violência gráfica, com cenas de ação de página dupla – splash pages -, anatomias controversas e armas, muitas armas. O altruísmo, moral e o desejo de lutar pela proteção de inocentes, a verdade e justiça haviam sido completamente jogados de lado. Lutas entre heróis e vilões se tornaram arroz de festa. O negócio era brigas entre os próprios heróis, com direito a trabucos fisicamente impossíveis, além de uniformes tão carnavalescos quanto.

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Guy Gardner de Warrior (acima) e Extreme Justice (abaixo) são ícones do exagero dos anos 90

Vendo o período tenebroso em que a mídia dos quadrinhos estava passando, Mark Waid e Alex Ross – profundos amantes da mitologia do Universo DC – se reuniram para construir uma história atemporal, que serviria não apenas como crítica para os quadrinhos em si, mas também para o mundo e para o próprio leitor. Este artigo não tem como objetivo discutir capítulo a capítulo da obra, mas trazer uma nova visão sobre o que você já leu, além de ressaltar alguns pontos que possam ter passado batidos em sua leitura.

Tudo começou com um estranho visitante

O começo já traz um tom apocalíptico para a história ao usar versículos da Bíblia – mais especificamente do livro do apóstolo João. Somos apresentados ao pastor Norman McCay, que por mais que já tenha sido um homem de fé, encontra problemas para continuar ante o mundo caótico em que vive, com seres superpoderosos em cada esquina. É através de seus olhos, guiados pela mão do Espectro, que Norman, e também o leitor, serão apresentados à este mundo.

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O Espectro viaja com o pastor McCay pelos mais diversos cantos do Universo DC, introduzindo novas versões de personagens conhecidos, como Superman, Mulher-Maravilha, Batman e Flash. Versões estas bastantes extremas de seus originais. Batman queria tanto garantir a segurança de Gotham City que instaurou vigilância constante de bat-robôs de batalha na cidade, monitorando tudo de sua caverna. O Flash queria estar em todos os lugares ao mesmo tempo para garantir que ninguém sofresse – sua conexão com a Força de Aceleração chegou a tal ponto que o herói é uma amálgama de todos os velocistas que já existiram, tão veloz que vaga em mais de um plano de existência ao mesmo tempo, tornando Keystone City, sua cidade, uma utopia. Contudo, nem todos os lugares do planeta contam com esse zelo por parte dos heróis.

O autoexílio do herói

Os heróis e vilões que conhecemos continuaram suas vidas e tiveram filhos – filhos com poderes, inclusive. Em um mundo muito mais pessimista daquele que conhecemos, a nova geração de seres superpoderosos floresceu sem nenhum guia, nenhuma luz para lhes mostrar o caminho. Cresceram rebeldes, irresponsáveis e apenas com a ânsia de lutar uns contra os outros, sem dar a mínima para a segurança de inocentes. Mas a que se deve tamanha falta de princípios morais? Aí é que entra a crítica aos anos 90. Superman, ele principalmente, sofreu com os tempos modernos de violência exacerbada. Matar o vilão ao invés de mandá-lo para a prisão, para depois escapar e causar mais mortes, repetindo o ciclo uma e outra vez. “Por que o Batman não mata logo o Coringa e poupa a vida de milhares senão milhões de futuras vítimas?”. Que leitor de quadrinhos nunca pensou nisso? E é exatamente Superman e Coringa que são as peças chave que desencadeiam toda a mudança deste universo.

Em um ataque ao Planeta Diário, usando seu gás do riso, o Palhaço do Crime mata todos os funcionários, inclusive a esposa do Homem de Aço, Lois Lane. Ao ser finalmente preso, antes de ser levado para a cadeia, é morto por uma rajada de energia à queima-roupa de Magog, um novo herói de Metropolis. Superman, por mais que sinta a perda pessoal da esposa e de todos seus amigos e entes queridos do jornal, desaprova completamente a morte do Coringa. Contudo, em um julgamento público, a população aprovou a ação de Magog, que acaba sendo absolvido do assassinato do nêmese do Batman. Como protesto, Superman se retira não apenas da cidade, mas do manto de herói, deixando Metropolis e o mundo, isolando-se em sua Fortaleza da Solidão. Esse ato extremo, para o bem e para o mal, inspiraria outros a fazer o mesmo.

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Não estamos mais em Kansas

Pela óptica da Mulher-Maravilha, Superman descobre o incidente que se tornou a gota d’água para a sociedade: a dizimação do Kansas, celeiro agrícola da América, e devastação de outros estados adjacentes por uma explosão atômica. Mas não uma explosão qualquer, senão a morte do Capitão Átomo, após ele e o Batalhão da Justiça de Magog enfrentar o Parasita – antigo vilão do Superman capaz de absorver a energia vital de qualquer um que toca. Agora, caro leitor(a), consegue imaginar um final feliz para uma luta entre o Parasita contra um reator nuclear ambulante como o Capitão Átomo? Pois é, nem eu. E é justamente isso que acontece. Além da explosão matar a todos que estavam por perto – com exceção de Magog e o Homem Metálico -, o solo se tornou radioativo e extremamente infértil, matando animais e qualquer outra vida nos arredores.

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A repudia do Superman pelo evento só não é tão grande quanto a da Mulher-Maravilha. Ver seu companheiro de batalha se tornar tão passivo ante à urgência de pôr ordem na situação irá transformá-la, e muito, no decorrer da história. O peso da perda de tudo pelo qual acreditava marca este Superman de forma, até então, nunca antes vista. O herói realmente se distanciou de seu lado humano, referindo-se às pessoas comuns como terráqueos e preferindo ser chamado de Kal ao invés de Clark. Mesmo com seu posterior retorno, o “S” outrora com fundo amarelo dá lugar à um tenebroso negro. Um Superman diferente irá voltar e o mundo não estará preparado para isso.

Por que o mundo precisa do Superman?

Inconformado sobre como o mundo apenas piorou com sua ausência, o Último Filho de Krypton retorna de seu exílio para colocar ordem no mundo. Com seu retorno, muitos outros heróis também reaparecem, dispostos a ajudar na mudança da sociedade meta-humana. Porém, nem todos pensam desse jeito. Vemos a perspectiva de várias frentes diferentes. A Organização das Nações Unidas recebe com inquietação a volta dos antigos heróis. Durante décadas, as pessoas normais já não tomavam realmente as decisões importantes que regiam seu modo de vida. A influência de seres superpoderosos sempre pairava. O ser humano deixou de ser o verdadeiro regente do planeta. Com isso, o grupo pró-humano de Lex Luthor, a Frente de Libertação da Humanidade, ganha força com seu plano de eliminar de vez os meta-humanos e devolver à sociedade comum as rédeas do destino do mundo – sob o comando de Luthor, é claro. Batman e seu grupo de ex-heróis planeja fazer as coisas a seu modo, operando nas sombras, sem chamar a atenção, completamente ao contrário do grupo do Superman, que começa a agir em escala global, prendendo ameaças meta-humanas ou convertendo-as à sua causa.

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Um dos pontos centrais na trama é o papel do Superman no mundo. Conhecido como O Primeiro de Todos, sua figura imponente, quase divina, sempre manifesta reações nas pessoas. Muitos no Universo DC o vêem como um salvador, o raio de esperança para guiar a humanidade à um futuro melhor. Mas o herói se vê dessa mesma maneira? Um dos pontos mais discutidos pelos leitores, e também pelos próprios personagens, é se o Superman é esse raio de inspiração para as pessoas, por que não assume esse papel de vez e lidera o mundo à tão almejada utopia? Por que não se posiciona ante o planeta como o líder que deveria ser e muda a situação não só da América, mas do mundo? “Eu não sou um deus para dizer às pessoas o que fazer”. Essa é a frase costumeira do herói para essa pergunta. Em histórias que se passam em realidades alternativas, como Superman: Entre a Foice e o Martelo, vemos o que aconteceria se o Superman assumisse o papel de líder mundial, porém, com o idealismo soviético ao seu lado. Também vimos na saga Superman: O Rei do Mundo o que aconteceria se o herói forçasse a humanidade à uma utopia. O resultado sempre acaba com um regime totalitário em que as pessoas perdem seu livre arbítrio em prol da paz e do bem-estar coletivo. Perder a liberdade de expressão e do individualismo seria um preço alto a pagar por um mundo sem crimes, sem desastres e, principalmente, sem o fim do mundo todos os dias na frente de casa?

E então houve trovões e relâmpagos

Um dos grandes símbolos da inocência do Universo DC é o Capitão Marvel, atual Shazam. Billy Batson, alter-ego do herói, é um menino de coração puro que só vê o melhor nas pessoas, o retrato da frase “fazer o bem sem olhar a quem”. Num universo cínico e corrompido como o de Reino do Amanhã, o que aconteceu com O Mortal Mais Poderoso da Terra? Capturado e sofrendo constante lavagem cerebral por Lex Luthor ao longo dos anos, a mente do garoto cresceu de forma fragmentada e extremamente frágil. A cena de tortura vista no quadrinho mostra, sob a visão de Luthor, um vídeo manipulado sob como os super-humanos são instáveis e só trazem morte e destruição. Imagine o que ver isso durante horas, dia após dia, durante anos poderia fazer com a mente de uma criança. A metáfora da corrupção da mais pura das almas ante tempos violentos e sombrios é clara.

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Quando estoura uma rebelião no Gulag, prisão meta-humana elaborada pelo Superman e seus aliados, Luthor vê a oportunidade perfeita de atacar usando o Capitão Marvel e eliminar todos os meta-humanos de uma vez só. E o inevitável confronto entre o Homem de Aço contra o Campeão dos Deuses é o clímax da revista, em meio ao caos desenfreado que surge com a chegada do Batman e seu grupo. Vendo um desastre maior ainda independente do resultado do confronto, a ONU lança ogivas atômicas contra o local e, num diálogo tocante entre Superman e Capitão Marvel, uma escolha é feita e um sacrifício é realizado em prol de muitos.

Admirável Mundo Novo

Norman McCay surge para trazer o Superman novamente à sua humanidade ante tanta desgraça e ódio que o rodeia. Em outro discurso sensacional, McCay faz novamente o papel do leitor fã do personagem há anos, resumindo-o de forma simples, honesta e brilhante. O que se desenrola a seguir no fechamento da história é, basicamente, a lição de moral a ser tirada de tudo o que foi representado ali. Não basta impor sua vontade sob os demais, mas sim trabalhar juntos para alcançar o bem comum. Parece ser algo bastante lógico e óbvio, mas em meio a tantos problemas naquele mundo, o mais difícil de enxergar seria exatamente o óbvio. Diferenças são resolvidas e mudanças acontecem com o passar do tempo. A humanidade caminha rumo à um futuro próspero, dessa vez auxiliada por seres que querem ajudar, e não destruir.

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A grande lição da história é que a violência pela violência não traz resposta nenhuma, tampouco soluciona problemas. É com base no diálogo que diferenças são solucionadas e que as pessoas se entendem, não completamente talvez, mas é assim que o caminho para a paz é construído: diálogo antes das ações. Curiosamente, isso é o que representa a Mulher-Maravilha em seu núcleo: uma guerreira da paz. Com o caos que se tornou o mundo, foi destituída de sua função como embaixadora da paz de Themyscera e banida da Ilha Paraíso por falhar em seu dever de guiar o Mundo dos Homens à paz. No decorrer da história, a vimos apelar mais ao seu lado guerreira, submetendo a paz na base da força, independente do sangue a ser derramado. O choque de realidade na personagem vem, claro, sob palavras do Batman, destruído tanto físico quanto moralmente por um mundo mais errôneo do que aquele que tirou a vida de seus pais.

Reino do Amanhã hoje

Atualmente os quadrinhos não vivem tempos tão violentos quanto há vinte anos. A violência ainda ocorre, porém não de forma tão gratuita. A moral e conceitos dos heróis e heroínas sofreram desconstruções, porém, com roteiros bem escritos, são renovados e apresentados à uma nova geração. Aliados à novos conceitos, como igualdade de direitos independente de gênero, raça ou religião, além de questionar decisões políticas e sociais de maneira inteligente. O Admirável Mundo Novo chegou aos quadrinhos? Talvez sim, talvez não, mas sem dúvida, estamos bem perto dele. Que os quadrinhos continuem ganhando sobrevida com idéias novas e inteligentes, sem remexer em aventuras do passado para semear o futuro. Que histórias antigas sirvam de inspiração e não de muleta para reciclagens ou caça-niqueis que visam apenas vender e não transmitir uma mensagem ao leitor. Que o verdadeiro Reino do Amanhã venha a nós não com trovões e relâmpagos, mas com um caloroso e brilhante raio de sol que ilumine a todos nós.

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Gostou deste artigo? Tem uma opinião diferente sobre Reino do Amanhã? Deixe seu comentário abaixo, glorioso leitor, para celebrarmos esta grande obra das histórias em quadrinhos!

  • O Homem do QI200

    Artigo maravilhoso, parabéns

  • Joaquim Oliveira

    Texto lindo

  • Ana,A Captadora de Referências

    Brilhante! “Reino do Amanhã” é uma das mais belas histórias que já li.