[ORÁCULO DE THEMYSCIRA] Mulher-Maravilha – Terra Um: onde deuses erraram

Quase todo leitor de quadrinhos já imaginou como seria escrever uma história sobre seu personagem favorito. Podemos dizer que as coisas são mais fáceis quando você conhece e respeita o personagem, e mais fáceis ainda quando você é considerado um Deus no mundo dos quadrinhos e é reconhecido por todos como um dos maiores quadrinistas vivo.

Como proposta para substituir o selo Grandes Astros, surgiu o selo Terra Um, que contaria histórias de versões mais jovens de nossos heróis em uma nova Terra do Multiverso. Dentro dessa linha tivemos a releitura de Batman, Superman e Titãs. Com a Princesa Amazona a proposta não foi diferente, e o comando da graphic novel foi entregue a Grant Morrison, que encarou a responsabilidade como uma oportunidade para abordar a Mulher-Maravilha em uma história de origem próximo ao que foi feito na Era de Ouro.

Para os fãs de mitologia grega é fácil lembrar do mito de Hércules e dos seus 12 trabalhos, um dos quais era roubar o cinturão de Hipólita. Na criação da Mulher-Maravilha, esse trabalho tem grande importância, pois o desenrolar dele acaba por levar as Amazonas para a Ilha Paraíso e em Terra Um esse é o marco escolhido por Morrison para contar a sua história.

Até aqui não há quase nada de inovador se comparado à versão da Era de Ouro, mas as coisas mudam com o desenrolar da história. As Amazonas se recolhem na Ilha Paraíso, deixando para sempre o mundo dos homens; Três mil anos depois temos uma jovem Diana lidando com a mãe super-protetora e o fato de ser a mais poderosa dentre as Amazonas. O ponto de partida para essa nova origem é o julgamento de Diana por algum erro cometido, que é explicado por uma série de flashbacks.

Descobrimos que Hipólita não permitia que a filha participasse do festival em homenagem a Diana (deusa da caça), muito menos do torneio que encerrava o festival. Tudo mudou quando Steve Trevor caiu na ilha e conheceu Diana. Ela decide participar do torneio disfarçada com uma máscara de um leão, um troféu de guerra das amazonas. A máscara foi feita da cabeça do Leão de Nemeia e foi tomada de Hércules pela rainha quando ela recuperou seu cinturão. A participação no torneio foi tão somente para conseguir os meios necessário de deixar a ilha, por curiosidade pelo mundo dos homens ou mesmo para salvar a vida de Trevor – é difícil entender qual a verdadeira motivação.

Com o desenrolar da história, percebemos que Diana não ficou praticamente tempo nenhum no mundo dos homens. Ela acaba sendo encontrada por uma equipe enviada para capturá-la e se rende. Daí em diante, assistimos  ao julgamento e a descoberta da verdade por trás da origem da heroína.

Apesar dos inúmeros problemas e incoerências da obra, não vamos discutir sobre a arte hipersexualizada de Yanick Paquette, tão pouco sobre a semelhança do traço do rosto da heroína com Sasha Grey e muito menos o bondage espalhado pela história. Vamos guardar isso para uma texto futuro. Aqui, nós vamos discorrer sobre a falta de interpretação da obra de William Moulton Marston por parte de Grant Morrison.

Convenhamos, todos os heróis evoluem desde a sua criação, se tornam melhores ou não; no caso da Mulher-Maravilha, abordamos isso no texto especial de 75 anos da personagem. Essa evolução é própria da mudança de roteiristas que passam pelo título e suas diversas visões. É impossível imaginar como seria a Mulher-Maravilha hoje se Marston tivesse a oportunidade de ter escrito seus 75 anos de história, isso por diversos motivos, seja pela sua origem polêmica ou pelas mudanças que ocorreram de 1941 pra cá.

Assim não podemos afirmar se a história de Morisson mostra o que Marston gostaria de ver na personagem, mas podemos sem dúvida reconhecer que há elementos da Era de Ouro da heroína ali, o que nos remete a reflexão: queremos a Era de Ouro de volta nos dias atuais? Em especial, se tratando da Mulher-Maravilha, precisamos da heroína da Era de Ouro de volta? Óbvio que não.

A tendência atual parecer ser exatamente resgatar o clássico. As mudanças ocorridas durante Os Novos 52 parecem estar sendo deixadas totalmente para trás, para resgatar a Mulher-Maravilha de 1941 – não falamos aqui apenas de Terra Um, mas também do Rebirth -, que vem apresentando um arquétipo da heroína que, apesar de ser visto por muitos como uma homenagem, não passa de uma busca para restaurar modelos que já foram vencidos.

Como mencionado, difícil imaginar como seria um história da heroína feita pelas mãos de seu criador nos dia atuais, mas podemos dizer como ela não seria, e sem dúvida nenhuma ela não seria igual à Mulher-Maravilha de Grant Morrison. Um dos motivos pelos quais é fácil apontar isso, é a forma como Morrison banaliza feminismo e sororidade (solidariedade feminina) na história; as amazonas dele não são nada mais do que selvagens com total desprezo pelo mundo dos homens e pelas mulheres que vivem lá.

De fato, Hipólita sempre quis proteger Diana, e as guerreiras sempre viveram isoladas em sua ilha, mas pressupor que elas seriam capazes de deixar seu lar para trazer Diana de volta a qualquer custo, inclusive usando a Medusa, beira o absurdo. Em outro viés, Diana não passa de uma princesa adolescente e mimada que quer chamar a atenção da mãe. Não encontramos na heroína nenhum dos valores que existem desde a sua criação. Temos também o papel histórico, dentro da DC Comics, das Amazonas, enquanto protetoras da vida e sábias, mas que na história são tão descerebradas quanto a Mulher-Maravilha da Liga da Justiça de Geoff Johns.

O desprezo de Hipólita pelo mundo dos homens, mesmo que ela acompanhe o patriarcado através de seu espelho mágico, choca por ser totalmente contrário ao que William Moulton Marston pretendia com a criação da heroína. Tal situação é evidenciada pela forma como as amazonas tratam Etta Candy quando a conhecem; o desprezo decorre de dois fatos: por ela viver um mundo regido pelo patriarcado e por não ter o porte atlético das amazonas.

Em contraste, a forma como a heroína foi criada, mostra que as mulheres podiam e mereciam direitos iguais aos homens, mas também que possuíam capacidade para serem ainda melhores e por isso criaram um paraíso em Themyscira. Morrison parece esquecer que em sua história as amazonas abandonaram as mulheres mortais e comuns na Terra a própria sorte, sem nenhum cinturão mágico ou poderes; o simples fato de sobreviverem em uma sociedade tão desigual já era um símbolo de vitória. Esquece também que a sororidade dever ser sempre ampla e irrestrita, pelo simples fato de Etta ser mulher ela já teria o respeito e o apoio das amazonas.

A ausência de sororidade é uma característica própria do patriarcado, e não da sociedade de Themyscira. A própria ideia de dominação presente no mundo dos homens influencia no espírito de revanchismo e de diminuição entre as mulheres. Se Themyscira é uma sociedade de iguais – não podemos defini-la como matriarcado, visto que estão ausentes alguns pressupostos – formada por mulheres, a solidariedade deve estar presente entre seus indivíduos e ser compartilhada com seus iguais, mesmo aqueles que não morem lá. Desta forma, as Amazonas deveriam demonstrar solidariedade e respeito com as mulheres que habitam o Mundo dos Homens.

Usar o argumento de que está homenageando a origem da personagem, não dá a permissão para Morrison fazer o que bem entender. Se ele pretende homenagear Moulton Marston, deveria se dignar a respeitar o que ele fez na época em criou a personagem – não somente dois quadros semelhantes às histórias da década de 1940, mas uma história que honrasse a solidariedade feminina e a organização da sociedade de Themyscira baseada em igualdade; que respeitasse o fato de que apesar de ser jovem, Diana sempre teve valores e demonstrou respeito com suas irmãs e nunca foi uma princesa mimada que aproveita de privilégios para conseguir o que quer.

No pouco tempo que passa no mundo dos homens, apesar de salvar a vida de Etta e suas amigas, Diana se incomoda com a situação, mas não sente nenhuma empatia ou motivação, prefere voltar a Themyscira e sua vida confortável como princesa a ajudar as mulheres a lutarem por igualdade. Morrison criou uma Mulher-Maravilha covarde, incapaz de levantar qualquer bandeira ou representar qualquer luta. Steve Trevor em um quadrinho de fala consegue demonstrar mais bondade e empatia do que a heroína ou qualquer uma das Amazonas.

Estamos diante de personagens sem significado algum e que não acrescentam em nada para o mundo dos quadrinhos, tornando Mulher-Maravilha: Terra Um uma história totalmente dispensável para a mitologia da personagem. A sensação que temos é que a qualquer momento vamos ter a grande reviravolta e que a história vai acontecer de verdade, mas esse momento nunca chega e a qualidade só diminui com o passar das páginas. Talvez Morrison tenha guardado esse momento para as continuações, mas com um começo desastroso como esse, fica difícil querer continuar.

Apesar de ter aspectos que remontem a Era de Ouro, Mulher-Maravilha: Terra Um apresenta um total desrespeito não só ao que foi construído em 75 anos de Mulher-Maravilha, mas também ao que William Moulton Marston objetivava com a criação da heroína.

  • Caio Arthur

    Não posso discordar ou concordar com o que está escrito acima, pois ainda não li MM Terra 1, preciso parabenizar a equipe pela produção do texto, está Incrível!!

    Espero não me decepcionar da mesma forma.

  • Murilo Fernando

    A história é uma baita releitura da origem da Era de Ouro. Apesar de muitas reclamações, tem seu valor por explorar algo mais enraizado na primeira origem da Mulher-Maravilha. E a arte de Yanick Paquette está bem acima da média.

  • Um ótimo texto explorando muito bem os argumentos necessários para defender as origens da heroína. Li Mulher Maravilha: Terra Um e, a princípio, tive o mesmo sentimento de decepção. Contudo, tentei ignorar todos os aspectos mencionados no texto para observar apenas a arte e a narrativa gráfica, pois considerei o roteiro muito aquém das minhas expectativas.

    A arte é, claramente, sexualizada e erotizada. Difícil não deixar de concluir que foi direcionada para defender o sexismo e fetichismo. Ainda assim, os desenhos são maravilhosos assim como as cores.

    Gostei muito da narrativa, na forma como os quadros são dispostos. O laço simbolizando a narração dos testemunhos. Um outro ponto que gostei bastante foi a empatia de Steve Trevor, muito bem citada no artigo, quando dirige a palavra à rainha explicando sobre o sofrimento do seu povo. Isso deixa claro o motivo da mudança de etnia do personagem para a estória.

    De fato, fiquei muito preocupado com o material quando vi que o roteiro foi de
    Morrison. São muitos os leitores que gostam do trabalho do roteirista.
    Não faço parte desse grupo, apesar de gostar bastante de Grandes Astros:
    Superman. Pensei que haveria uma qualidade similar a de Batman: Terra
    Um. Publicação que gosto tanto.

    Sem dúvida, após essa resenha, lerei novamente Mulher Maravilha: Terra Um com um olhar mais severo. Esse é um dos encadernados que estão ameaçados de sair da minha coleção. Ainda tenho esperança nos próximos volumes (desde que mudem o roteirista).

    Obrigado e um abraço.