[ORÁCULO DE THEMYSCIRA] Como acidentalmente a Mulher-Maravilha se tornou um ícone do feminismo

Em 1968 a revista da Mulher-Maravilha precisava de um novo gás. Para reestruturar o título, a DC Comics convidou um jovem promissor Dennis O’Neil, que elaborou um argumento complexo e ousado que marcaria a história da Princesa Amazona para sempre. Mas infelizmente, não de uma forma positiva.

No roteiro escrito por O’Neil, as amazonas eram viúvas de gregos que haviam morrido em guerras ao longo de décadas. Ao completarem dez mil anos na Terra, precisavam viajar para outra dimensão para renovar seus poderes. Diana se recusou a ir para ajudar Steve Trevor – seu amado – a provar sua inocência. Trevor havia sido acusado de traição, e como consequência de seus atos, Diana perdeu seus poderes e se afastou da Liga da Justiça.

Hoje hoje O’Neil reconhece a loucura que criou e não se cansa de pedir desculpas pelas escolhas que fez, mas na época, justificava seus atos como uma tentativa de modernizar a personagem e adequá-la aos movimentos libertários da década de 1970, em especial o Movimento de Libertação das Mulheres.

O final da década de 1960 e início da década de 1970 não foi o período fácil, e devemos reconhecer isso. O mundo vivia as consequências da Guerra Fria e da Crise do Petróleo. Os movimentos pacifistas ganhavam força

Emma Peel

e os Beatles chegavam ao fim, além da Guerra do Vietnã e o escândalo de Watergate. O’Neil tentou adequar a personagem ao seu contexto histórico, e depois de algumas mudanças a heroína abandonou suas vestes de Mulher-Maravilha e encontrou um mestre para aprender karatê; passou a ser fashionista e era dona de uma boutique. O visual da heroína nessa fase era totalmente inspirado em Emma Peel, personagem interpretada por Diana Rigg no seriado de espionagem The Avengers, na década de 1960.

Mais uma vez, O’Neil justificou a nova realidade da heroína como uma abordagem altruísta que valorizava a inteligência da personagem e exaltava seu espírito aventureiro, mas o que acontecia no título começava a chamar a atenção dos movimentos aos quais o roteirista queria vincular a nova imagem da heroína. Era fácil perceber que era mais uma história sobre espionagem do que sobre heroísmo, e naquela época ainda não se discutia o papel da Mulher-Maravilha como se discute nos dias atuais. Bem verdade que seus poucos laços com o feminismo ainda eram os relacionados à sua criação por William Moulton Marston e os elementos ali adicionados.

O’Neil afirmava estar cheio de boas intenções, mas para os leitores, conforme já abordado no nosso especial sobre os 75 anos da personagem, parecia que ele apenas tentava vender a propaganda barata da Guerra Fria de que com o fim do conflito armado direto era necessário que as mulheres se recolhessem às atividades ou funções “femininas”.

Havia ainda os problemas relacionados à própria versão de origem das amazonas, afastando ainda mais a origem mitológica para uma versão que não fazia o menor sentido e era ainda mais vergonhosa. Marston em sua versão optou por manter a característica de superioridade das guerreiras, criadas para demonstrar que as mulheres podiam ser iguais ou superiores aos homens. O’Neil, no entanto, as apresentava como viúvas de heróis de guerra. Era um retrocesso.

Gloria Steinem

Tudo mudou quando Gloria Steinem, uma jornalista que ficaria ainda mais famosa por seu engajamento com o movimento feminista – em especial o Movimento de Libertação das Mulheres – resolveu se manifestar sobre a situação da personagem nos quadrinhos. Ela era editora da revista feminista Ms. Magazine e estampou na capa uma foto da Mulher-Maravilha com seu uniforme original. Gloria demonstrou sua insatisfação com o fato da maior heroína de todos os tempos estar sem poderes e representar uma concepção feminina que se buscava vencer. Foi a primeira vez que o movimento feminista reconheceu a Mulher-Maravilha como um ícone.

A repercussão foi tão grande que a DC Comics não deixou a oportunidade de atingir um novo público passar e trouxe de volta a heroína clássica. De lá pra cá, Diana se aproximou cada vez mais dos ideais libertários, consolidando seu lugar entre os ícones da cultura pop e do feminismo. Obviamente, muitos pedidos de desculpas foram feitos posteriormente pela editora.

A famosa capa da Ms. Magazine

O saldo deixado por essa fase não parece tão negativo quando analisado junto às suas consequências. Se tal erro não tivesse sido cometido, seria necessário mais algumas décadas para que a Mulher-Maravilha tivesse seu papel de ícone feminista reconhecido, bem como seu lugar em meio à cultura pop.

Antes do run de O’Neil pela revista da personagem, a Mulher-Maravilha já era a maior heroína da época, mas tão somente por ter sido a primeira, o título fazia sucesso e vendia bem. Todavia, foi preciso uma desconstrução completa para que o público, em especial o feminino, compreendesse e reconhecesse a sua grandiosidade e significado.

Esse reconhecimento, um pouco tardio, permitiu que a mitologia da personagem fosse não só restaurada, mas preservada sem grandes mudanças, bem como suas bandeiras e causas. Teve início uma fase em que houve grande respeito por sua mitologia e depois da experiência de O’Neil, a mudança mais grande ocorrida no título da personagem foi, sem dúvida, a d’Os Novos 52; e mesmo que Diana sofresse grandes mudanças, em sua essência, ela continuaria a mesma.

Parece que o Denny O’Neil conseguiu dar à Princesa Amazona seu lugar nos movimentos libertários, só não foi da forma que ele esperava.