[ORÁCULO DE THEMYSCIRA] A Mulher-Maravilha de William Messner-Loebs e Mike Deodato

Em 1991, a dupla William Messner-Loebs e Mike Deodato Jr. assumiram o título da Mulher-Maravilha com a difícil missão de dar continuidade à rica mitologia criada por George Pérez. Todavia, dois não se conformaram com uma história unicamente de continuidade e foram extremamente ousados. A Mulher-Maravilha de Messner-Loebs e Deodato não é Diana Prince filha de Hipólita e princesa de Themyscira. Se ainda não conhece essa fase marcante dos quadrinhos da personagem, senta aí que lá vem história.

Quando George Pérez reinventou a Mulher-Maravilha no pós-Crise, ele não só aproximou a personagem da mitologia greco-romana, mas também adicionou novos elementos, criando uma mitologia própria para a personagem. Após os eventos de Guerra dos Deuses – que marcou a saída de Pérez do título -, Circe havia ganhado toda importância reconhecida hoje, se tornado a principal vilã da heroína e das Amazonas. Loebs aproveitou a história criada por Pérez, sobretudo, a existência de duas tribos de Amazonas, para dar início à sua história.

Como parte de mais um de seus planos de vingança, a feiticeira enganou as amazonas de Bana-Mighdall e fez com que elas, lideradas por Antíope (irmã de Hipólita), atacassem a rainha e suas seguidoras, causando uma sangrenta guerra entre as duas tribos das amazonas. Themyscira é levada para outra dimensão onde as Amazonas começaram a ser caçadas por demônios, ocasionando na união entre as Amazonas lideradas por Hipólita e as de Bana-Mighdall. A guerra durou cerca de uma década e culminou com a morte de Antíope.

Quando Diana – que estava baseada em Boston – finalmente consegue retornar para Themyscira, começa a fase mais memorável do run de Messner-Loebs. Ela descobre que na ilha se passaram muitos anos desde que ela partiu, ainda que para ela parecesse pouco mais de meses. Hipólita confronta a filha acerca dos seus feitos no mundo do patriarcado, e quando Diana faz os seus relatos, a rainha se mostra desapontada, pois a filha não teria conseguido realizar seus objetivos enquanto embaixadora de Themyscira.

Ainda que Diana tente esclarecer à mãe que o mundo dos homens não é mais como as amazonas se lembram – e que as coisas estão bem mais complexas -, ela não compreende. Em sua visita à ilha, a princesa conhece Ártemis, a nova líder de Bana-Mighdall, e aos poucos começa a descobrir as verdades por trás de sua origem e sobre a tão falada guerra que causou a divisão entre Hipólita e Antíope.

Mas Diana mal tem tempo para descobrir a verdade, pois Hipólita, insatisfeita com os relatos da filha, resolve convocar um novo torneio e escolher uma nova Mulher-Maravilha. Agora, se Diana quiser continuar como enviada de Themyscira, ela terá que vencer as provas novamente, e dessa vez competirá também com as tão temidas Amazonas de Bana-Mighdall.

Aos moldes do primeiro torneio, temos diversas provas, e Diana se vê, de maneira muito estranha, ser ajudada por Ártemis em diversos momentos, além de ter uma dificuldade muito maior para executar as provas – de tal modo que ela acaba sendo derrotada pela líder da tribo rival. Ártemis é proclamada como a nova Mulher-Maravilha e chega ao fim a divisão de Themyscira.

Diana percebe que não consegue viver novamente em Themyscira – principalmente depois de fazer algumas descobertas sobre o passado da mãe – e decide voltar para Boston, onde chega a ajudar Ártemis em alguns momentos. Lá, ela assume outro icônico uniforme – sim estamos falando da tão famosa combinação de jaqueta e shorts – e passa a atuar como heroína de aluguel.

Mas esta é uma coluna sobre a Mulher-Maravilha e é sobre ela que vamos falar. Ártemis passa a atuar em Nova York e Boston, assessorada em seus atos em busca de igualdade. Mas os problemas começam a aparecer e ela percebe que a tarefa não é tão fácil quanto soa. É que a tribo de Bana-Mighdall tem uma visão diferente do empoderamento feminino e como deve ser realizada a luta por igualdade. Em suas visitas às instituições que ajudam mulheres em situação de violência, a “heroína” não consegue demonstrar compaixão ou ter qualquer empatia com as mulheres. Pelo contrário, ela passa a atribuir a culpa do patriarcado às mulheres e à sua resignação – ela não oferece nenhum tipo de suporte às suas irmãs do mundo dos homens.

A atuação dela passa a ser vista de forma contraditória pela mídia e ela parece ser incapaz de cumprir os papéis que lhe foram atribuídos, ao mesmo tempo que é dotada de teimosia e reage de forma violenta a quase todos os desafios que encontra. Podemos definir a nova Mulher-Maravilha como uma selvagem.

Todavia, fique claro que não estou dizendo que a fase é ruim, pelo contrário, ela é muito boa e a atuação concomitante de Ártemis e Diana é muito boa – talvez tenha sido a única chance verdadeira que tivemos de compreender a dimensão do que é ser a Mulher-Maravilha.

Depois de mais de 50 anos de Diana e de ela ser quase sempre representada da mesma forma, a personagem foi perdendo aos poucos o seu valor. Ter outra pessoa ocupando o manto da heroína nos mostra o quanto  a primeira é versátil, e de como o título da Mulher-Maravilha é maior do que uma pessoa ou da pessoa que o ocupa. Não podemos reduzi-lo a alguém, esse papel representa um único objetivo: alcançar a igualdade entre gêneros e povos. A questão é a forma como buscamos esse objetivo.

Diana, sempre o fez por meio de intervenções programadas e da maneira mais pacífica que uma amazona pode fazer; já Ártemis busca por meio do terror e da violência. E mesmo que aos poucos perceba que é uma tarefa quase impossível e o fardo pesado demais, não pode voltar atrás e devolver seu título.

Nos dois anos em que Ártemis estrelou o título da Mulher-Maravilha, ela acabou assumindo múltiplos papéis. Uma versão distópica do que vinha sendo realizado no título da heroína até então, mas ainda assim ela consegue manter a atuação em questões que Diana não abria mão, como no combate ao crime organizado em Boston, por exemplo. O que faz a Mulher-Maravilha de Ártemis ser a mais memorável do run de Messner-Loebs são alguns aspectos bem técnicos. Temos primeiro a arte: o traço icônico de Ártemis – com cabelo longo e rabo de cavalo -, sempre retratada com um olhar feroz; e os demais aspectos do roteiro, a forma como conseguiram desvincular Diana rapidamente do título de Mulher-Maravilha e a apresentação de Ártemis como uma embaixadora de postura mais ativa e violenta.

O único ponto que  lamento de toda essa história é o modo como Messner-Loebs descartou Ártemis em seu roteiro. A forma como a personagem morre e devolve o título para Diana é quase um insulto a todo o trabalho empenhado para criá-la e fazer dela uma personagem importante para a mitologia de Themyscira e da Mulher-Maravilha. Ainda que Ártemis tenha sido aproveitada depois em outras histórias, a sua representação nunca mais teve a mesma relevância.

Após a morte de Artémis, Diana retornou ao título de Mulher-Maravilha e descobrimos ainda mais coisas sobre toda essa história, inclusive que Hipólita sabotou o torneio para que Diana perdesse – pois ela havia tido sonhos em que via a Mulher-Maravilha morta, e por isso temia pela vida da filha. Mas essas são histórias para um outro texto.

  • Ebola-chan

    Acho que o William Messner-Loebs é um dos roteiristas mais subestimados dessa época Pós-Crise, vejo pouquíssimas pessoas o elogiando, e o cara já escreveu diversas coisas boas. Ao contrário de um certo aí que é idolatrado e nunca conseguiu me agradar em nada…

    • Eduardo Faria Guimarães

      Aposto que é o Rucka que você se refere kkk

      • Ebola-chan

        Pior que não. Eu gostei muito da primeira passagem do Rucka, e essa agora do Renascimento eu não sei muito bem o que achar, achei muito estranha apesar de ser boa…

        Meu “ódio” é mais pro John Byrne hehe

      • Eduardo Faria Guimarães

        Não li a fase dele pela personagem,mas o que ele fez pra você ter tanto ódio? kk

      • Ebola-chan

        Boa parte disso vem das escolhas criativas dele, especialmente de colocar a Hippolyta como Mulher-Maravilha… fora que o Superman dele é dito por boa parte dos fãs como se tivesse sido a melhor fase do personagem. E quando eu li, eca kkkk

      • Eu tenho muita dificuldade de entender o pessoal que diz que as histórias do Byrne na DC são boas. A fase dele no Superman é tão absurda que me espanta terem permitido a publicação daquilo.

      • Ebola-chan

        Pois é. Estou cansado de ver gente falando que essa foi a melhor fase do personagem. Chega a ser inacreditável.

      • JGPRIME25

        John Byrne é superestimado

  • José Francisco

    Como se diz o ditado…a grande maioria “não é muito inteligente.”
    Fase sensacional. Muito bem desenhada e inovadora.

  • Deco

    Acho que esse período foi estragado pela arte de Deodato, que na época era obrigado a seguir o estilo Image