[ORÁCULO DE THEMYSCIRA] A mitologia da Mulher-Maravilha da Era de Ouro

A Mulher-Maravilha foi criada durante a Era de Ouro dos quadrinhos, mas diferente da maioria dos heróis de sua época, ela teve uma mitologia rigorosamente elaborada por seu criador, William Moulton Marston, baseada na mitologia dos deuses gregos.

O Olimpo vivia em guerra. Por serem consideradas inferiores aos homens, as mulheres eram escravas do deus da guerra, Ares. Para derrotar Ares e provar que as mulheres são superiores, Afrodite, a deusa da beleza, moldou estátuas e deu-lhes vida, dando origem às Amazonas. Essa novas mulheres fundaram uma cidade chamada Amazônia e derrotaram todos os exércitos que as atacaram.

Com o intuito de se vingar, o deus da guerra enviou Hércules para tomar o cinturão da rainha Hipólita – dado pela própria deusa Afrodite -, que era a fonte do poder das Amazonas. Essa parte da história é fortemente influenciada pelo mito dos Doze Trabalhos de Hércules, onde o nono trabalho foi justamente roubar o cinturão da rainha das Amazonas.

Hércules desafia Hipólita para um duelo e perde, então arma um plano de vingança onde oferece um banquete como pacto de amizade eterna. As Amazonas caem na armadilha, o cinturão é roubado, a cidade é destruída e todas as Amazonas são aprisionadas. Hipólita pede ajuda à Afrodite e a deusa prontamente liberta todas as Amazonas de suas correntes. Contudo, elas devem usar os braceletes como lembrança do erro que cometeram ao confiar em um homem.

Depois de libertadas, as Amazonas conseguem derrotar Hércules e recuperam o cinturão. Elas são guiadas por Afrodite e abandonam para sempre o mundo dos homens. Elas encontram um novo lar na Ilha Paraíso, onde possuem uma fonte da juventude e uma esfera mágica, presente de Atena, que permite que elas possuam conhecimento. Na ilha, o solo é fértil e elas tiveram a possibilidade de construir uma cidade onde os homens são banidos.

Embora, em sua essência, a mitologia na qual estava envolta a personagem recém-criada fosse a grega, Marston mudou pontos fundamentais e escreveu seu próprio mito, um que causaria inveja em Homero. Historicamente, Ares e Afrodite não eram rivais, mas sim amantes – em todas as suas representações eles tinham uma relação amorosa. Colocar os dois como rivais é mais plausível dentro do contexto histórico de origem da personagem: a Segunda Guerra Mundial. Dos gregos surgiu a máxima: no amor e na guerra vale tudo, assim, em tempos de grande violência, fazia sentido representar o deus da guerra como um ser inescrupuloso que utiliza de todos os meios possíveis para atingir seus objetivos e em sua contraposição uma deusa do amor que utiliza também de todos os meios que considera aceitáveis para vencer e provar estar certa.

A criação das Amazonas representa a origem de um povo movido por amor e solidariedade e aqui, apesar da feminina ser um pouco mais presente, ainda temos uma solidariedade recíproca, pois inicialmente elas viveram no mundo dos homens. Usando Hércules, Ares buscou corromper esse povo através do único meio que conhece para vencer e obter poder: a violência.

Embora as Amazonas tenham sucumbido à violência e se isolado, em breve teríamos o surgimento de um novo símbolo: Diana.

O modo como Diana é criada gera fortes discussões. Hipólita, inspirada por Atena, molda uma criança do barro e se apaixona pela escultura, clamando por um filho. A dádiva é concedida pelos deuses, a criança ganha vida e diversos dons divinos. E assim nasceu Diana. Alguns fãs costumam reclamar dessa origem, argumentando que ela se assemelha mais ao mito bíblico de Adão e Eva do que da mitologia grega na qual a personagem está inserida. Todavia, a inspiração aqui, vem do mito do Pigmaleão.

No mito, Pigmaleão, rei da ilha de Chipre, acreditava que nenhuma mulher na Terra tinha beleza e qualidades suficientes para ser sua esposa. Assim, ele esculpiu em mármore Galatéia e acabou se apaixonando pela estátua, clamando aos deuses que lhe dessem vida. Essa versão da história é mais conhecida, em especial pelos trabalhos do historiador Thomas Bulfinch, e a ideia de Diana ser moldada também teve sua origem na mitologia grega. Contudo, os elementos foram modificado de forma a aperfeiçoar a mitologia da heroína.

Tudo muda para Diana quando o piloto Steve Trevor cai na ilha. Após cuidar dos seus ferimentos, as guerreiras decidem enviá-lo de volta para o mundo do patriarcado, mas para isso organizam um grande torneio, no qual somente a mais forte e habilidosa de todas as Amazonas poderia vencer e seria encarregada de levar Trevor de volta.

Como medida de proteção, Hipólita proibiu sua filha de participar do torneio, mas Diana desobedeceu e participou escondida, vencendo todos os desafios. Apesar de ser contra, a rainha acabou sendo forçada a enviar sua filha para o patriarcado. Antes de partir, a princesa recebeu diversos presentes: o clássico traje com as cores do Estados Unidos, o laço da verdade, os braceletes e a tiara.

No mundo dos homens, ela adotou o nome de Diana Prince, trabalhando como enfermeira dos Aliados. Posteriormente, somos apresentados à Etta Candy, a engraçada coadjuvante das histórias da heroína que pouco depois se engaja na luta armada e se torna um símbolo de empoderamento para as mulheres.

A mitologia original da Mulher-Maravilha é rica e, apesar das décadas de ajustes e modificações, seu espírito ainda se mantém. Embora nos dias atuais ela não seja considerada a versão mais interessante ou valiosa, ela é indubitavelmente a mais importante.

  • O Homem do QI200

    Não sabia nada sobre a mitologia das Amazonas antes do nascimento da Diana, achei foda demais, e ainda mais na parte que um dos 12 trabalhos de Hércules foi roubar o cinturão da Hipólita. Excelente artigo. Falando sobre a mitologia antiga das Amazonas, futuramente pode vir a ter uma review sobre a HQ “A Odisseia das Amazonas?

    • Hortência Dias

      Obrigada pelo comentário, vou colocar a HQ na lista e assim que possível faço o review.
      Volte Sempre!