O Arqueiro Verde de Jeff Lemire

Se a reformulação do Universo DC com Os Novos 52 foi ruim para um personagem, esse personagem é o Arqueiro Verde. O mandate do editorial de aproximar a personalidade do Oliver Queen dos quadrinhos com o Oliver Queen de Smallville podou qualquer roteirista de desenvolver uma aventura politizada, utilizando as características clássicas do Arqueiro Verde. Ao invés disso, o que tivemos foram histórias utilizando o Arqueiro como um Batman baixa-renda de arco e flecha. Dan Jurgens, J. T. Krul e Ann Nocenti tentaram, cada um em arcos distintos, trabalhar essa nova personalidade do Arqueiro, falhando miseravelmente e transformando a revista do Arqueiro Verde numa das piores d’Os Novos 52.

Uma reformulação na equipe criativa para alavancar as vendas se fez necessária, já que seria um tiro no pé cancelar a revista do Arqueiro Verde nos tempos áureos de Arrow. Então o escritor Jeff Lemire (Sweet Tooth, Homem AnimalTrillium) e o artista italiano Andrea Sorrentino (Eu, Vampiro) foram chamados para colocar ordem na casa. Lemire meteu o pé na porta e decidiu, para o bem do personagem, ignorar solenemente tudo feito com ele anteriormente, e sua estreia, em Arqueiro Verde #17, pode ser considerada a verdadeira edição #1 do personagem n’Os Novos 52.

Green Arrow (2011-) - The Kill Machine v4-004

Tudo se resume na criação de uma mitologia para o Arqueiro Verde. O Arqueiro pré-Novos 52 está morto, e aceitar isso ajuda bastante na aceitação dessa nova história. Não é o Arqueiro clássico, e como ele não irá retornar pelo menos nos próximos 5 anos, restou ao escritor bolar novas histórias que fugissem do óbvio.

A épica aventura bolada por Lemire é dividida em três grandes atos homogêneos: A Máquina de Matar, A Guerra dos Renegados e Quebrado.

Em A Máquina de Matar, Oliver Queen, herdeiro das Indústrias Queen, é jogado num turbilhão de eventos conspiratórios orquestrados por Komodo, um novo vilão que tem como objetivo matar o Arqueiro Verde para satisfazer ambições próprias.

Green Arrow (2011-) - The Kill Machine v4-010

Nesse primeiro arco, o Arqueiro é caçado incessantemente, o que desperta nele o primordial princípio de sobrevivência, colocando-o em situações inusitadas onde a única saída é o improviso e o manejo do arco e flecha. Novos aliados de Oliver também são acrescentados na trama – como o medroso Fyff -, da mesma forma que antigos aliados são reformulados – como a impulsiva Naomi.

Green Arrow (2011-) - The Kill Machine v4-079

Lemire usa de sua superioridade narrativa – alinhada à superioridade artística de Sorrentino – para construir um thriller de ação onde nenhum personagem está a salvo, nenhum personagem é confiável, e tudo pode mudar de uma edição para a outra. Os novos backgrounds dados para Shado e Conde Vertigo são interessantes, e mesmo coadjuvantes na trama são importantes para o seu desenvolvimento, não existindo um personagem descartável.

Green Arrow (2011-) - The Kill Machine v4-124

A Guerra dos Renegados, é o momento em que Jeff Lemire desenvolve todos os conceitos apresentados inicialmente em A Máquina de Matar. O clima underground do primeiro arco sai de cena para dar espaço para uma história maior, apoteótica.

Oliver Queen descobre ser peça fundamental numa guerra entre seis clãs análogos ao Arqueiro. Seu tempo na ilha e sua transformação em herói começam a se revelar como eventos premeditados por uma pessoa próxima à Oliver, e o retorno dessa pessoa abala completamente os conceitos do nosso Arqueiro Verde.

Green Arrow (2011-) - The Outsiders War v5-130

A Guerra dos Renegados é o ápice do run de Lemire com o Arqueiro Verde, onde ele explora o conceito dos Seis Clãs Renegados, assim como outros personagens como Magus, Katana e o próprio Komodo. O final pode parecer um tanto quanto megalomaníaco, mas não estraga sua construção.

Em seu último e catártico ato, Quebrado, Jeff Lemire aproveita para amarrar as pontas soltas do seu run. Richard Dragon, que havia sido introduzido rapidamente no arco anterior, coloca em prática o seu plano de destruir o Arqueiro Verde e dominar Seattle. Para evitar o colapso de sua cidade, Oliver une forças com John Diggle, seu primeiro parceiro, para por um fim na loucura instaurada por Dragon.

Green Arrow (2011-) 034-012

A arte de todo o run fica por conta de Andrea Sorrentino. Sua arte é dinâmica e detalhada. Genial, se for deixar meu lado fanboy falar. Alguns dizem que ele sofre da síndrome de Jae Lee, por não desenhar cenários completos (e isso fica claro no segundo arco, onde surgem ilhas e grandes cidades), mas o nível e detalhes colocado nas páginas é tão grande que supera essa necessidade de um plano de fundo.

O Arqueiro Verde, fora os grandes arcos, também possui algumas edições interessantes, como Arqueiro Verde #23.1 (especial de Vilania Eterna) que conta a história do Conde Vertigo; Arqueiro Verde #25, que é um tie-in de Ano Zero (saga do Batman), mas que funciona ao focar na relação de Oliver com a mãe e com Diggle; e Fim dos Tempos: Arqueiro Verde #1 (tie-in de Fim dos Tempos), que finaliza o run magistralmente, mostrando a evolução da personalidade de Oliver junto aos seus aliados.

Green Arrow (2011-) - Futures End 001-000

Infelizmente, após a edição #34, a DC resolveu escantear Lemire & Sorrentino e colocar os roteiristas de Arrow no comando da revista do Arqueiro Verde, para aproximar o personagem dos quadrinhos do público da série. Todo o clima épico se perdeu em histórias urbanas, que usaram indiscriminadamente outros heróis (como o Lanterna Verde), e elementos da série (como Felicity). Historicamente, utilizar elementos de outras mídias em histórias em quadrinhos nunca funciona, principalmente quando é para aproveitar o hype de uma série ou filme.

Foi o final trágico de um run excepcional, e que em momento algum deixou a desejar. Com roteiro e arte impecáveis, Lemire & Sorrentino criaram uma mitologia nunca antes vista para o Arqueiro Verde. E o melhor: que pode ser resgatada por qualquer bom roteirista que queira desenvolver esses conceitos futuramente. Seria algo impossível de se fazer com o Arqueiro pré-Flashpoint, o que mostra que Os Novos 52 não foi uma jogada ruim por completo. Existem falhas gritantes, não sou cego a esse ponto, mas sem um reboot, talvez não tivéssemos essa que foi a melhor fase com o Arqueiro Verde desde a fase de Brad Meltzer, em 2004.

  • MuriloHK

    Ótimo texto! Porém, acho q faltou falar das cores do Marcelo Maiolo, q deixam a arte do Sorrentino muito mais foda.

    • Bem lembrado. Vou agora mesmo fazer um complemento no texto referente às cores do Maiolo.

  • David Etrama Di Raizel

    Uma animação do Arqueiro Vrde baseada nessa Run do Lemire seria algo extraordinario pra mim.