[HIPERTEMPO] A origem do Capitão Marvel dos anos 90

Seja muito bem-vindo à Hipertempo! Esta é uma coluna mais do que especial do Gloriosa DC em que vamos vasculhar histórias antigas do Universo DC. Hoje vamos desbravar a que talvez seja a origem definitiva do mortal mais poderoso da Terra: o Capitão Marvel!

Jerry Ordway

Após Crise nas Infinitas Terras e a consolidação de uma única Terra para o Universo DC, uma nova origem para o Capitão Marvel foi escrita por Roy Thomas e desenhada por Tom Mandrake, atualizando o personagem para e época. Contudo, a impopularidade da nova origem, chamada Shazam: The New Beginning, acabou se tornando uma origem não canônica para o personagem. Só depois de Zero Hora, com o relançamento dos títulos da DC com nova numeração, é que o Capitão Marvel ganhou uma nova roupagem, com Jerry Ordway assinando a arte e o roteiro do novo título. Ordway havia ingressado na DC por sugestão do grande artista Steve Ditko, tendo trabalhado como colorista e arte finalista de diversas lendas das histórias em quadrinhos, como Curt Swan, Jack Kirby, Gil Kane, John Buscema, George Pérez e o próprio Steve Ditko. A revista também contava com a arte-finalização de Dick Giordano, artista de renome na época – estamos falando de 1994 – que ilustrou diversas histórias dos Jovens Titãs, Aquaman e Batman – trabalhando ao lado de Neal Adams. Ter grandes estrelas da editora em um título de um personagem muito querido deu bastante crédito ao projeto na época.

Com o fim do imbróglio judicial envolvendo Capitão Marvel e Superman, não apenas os fãs, mas os próprios artistas da editora queriam ver o mortal mais poderoso da Terra participando de aventuras ao lado de Superman, Mulher-Maravilha e cia., com uma origem que o consolidasse de vez no Universo DC. Tendo isso em mente, Jerry Ordway elaborou uma grande história que não apenas fortaleceu a já magnífica origem do Capitão Marvel, mas também a ampliou e reapresentou para uma nova geração de leitores. Sendo fã do Capitão Marvel da Era de Ouro, Ordway conseguiu dar à Fawcett City – lar do personagem – um estilo clássico da década de 30, mas também contemporâneo, tornando-a visualmente atemporal, similar ao que foi feito na série animada do Batman nos anos 90.

A história começa com uma expedição no Egito, em que os arqueólogos C.C. Batson e sua esposa Marylin estão investigando uma tumba perdida ao lado de Theo Adam, capanga do grande magnata Thaddeus Silvana. O nome do pai de Billy Batson, C.C. – ou Clarence Charles – foi uma homenagem à um dos criadores do personagem, C.C. Beck. O curioso é que o nome do pai dos irmãos Batson nunca havia sido mencionado antes.

Nota: existe uma certa confusão à respeito do nome do nêmese do Capitão Marvel: no original em inglês, seu nome é Sivana, mas quando o Capitão Marvel foi publicado no Brasil, seu nome foi ligeiramente mudado para Silvana, com “l”. Isso ocorreu durante a tradução dos nomes de alguns personagens de quadrinhos para o português, dando uma “nacionalização” nos nomes originais em inglês; por exemplo, durante algum tempo, “Clark” de Clark Kent foi adaptado para “Edu” e “Lois” de Lois Lane, para “Miriam”. Para fins práticos, usaremos o nome estabelecido no Brasil, “Silvana”.

Capa da revista Os Amigos do Super-Homem, estrelando Miriam Lane

Durante a expedição financiada por Silvana, os Batson encontram uma tumba escondida com hieróglifos que representam o poder do Mago Shazam. Theo Adam inadvertidamente parece ser atraído pelo poder do local, tornando-se agressivo e irracional. Uma luta entre C.C. e Adam ocorre, com o vilão conseguindo roubar parte de um colar místico dentro da tumba, assassinando C.C.. Marylin consegue escapar do desabamento da tumba com outro pedaço do colar.

Aqui já podemos perceber uma mudança na origem clássica do Adão Negro, que deixou de ser um antigo Campeão dos Deuses Gregos exilado aos confins do espaço por sua arrogância e crueldade, para uma versão humana e conhecida dos pais do Capitão Marvel, sendo a reencarnação do Adão Negro original, adormecida até descobrir o colar egípcio e lembrar da palavra mágica novamente.

O fato de ter matado o pai do herói – e, posteriormente, a mãe; além de raptar a irmã de Billy – já gera o conflito que tornará Adão Negro o grande antagonista do Capitão Marvel. Um fato curioso da história é que Billy não viajou com seus pais e irmã para o Egito por causa de suas notas baixas na escola, ficando de castigo em casa. Uma solução de roteiro bastante simples e que alavancou toda a bagagem emocional do personagem: a culpa por não estar com seus pais e irmã quando a tragédia aconteceu será um dos fatores mais fortes que o levará a ser o novo Campeão dos Deuses Gregos.

Na origem clássica, Billy trabalhava como radialista na Rádio Whiz – homenagem à revista que debutou o personagem, Whiz Comics – sem muita explicação sobre seus motivos para trabalhar ali. Aqui, Ordway faz um apanhado disso e ainda dá outra carga emocional para o personagem apresentando outro antagonista que irá ser uma grande pedra no sapato de Billy durante toda a história: seu tio, Ebenezer Batson. Personagem original criado especialmente para a história, o invejoso e mesquinho Ebenezer, após a morte de seu meio-irmão, herdou toda a fortuna da família, expulsando Billy de casa logo em seguida, com o personagem passando a viver nas ruas de Fawcett City em posse de poucas coisas – uma foto de seus pais e seu ursinho de pelúcia -, tendo que arrumar um trabalho como entregador de jornais para sobreviver. Billy recebeu uma origem mais pesada: órfão de pai e mãe, com sua irmã gêmea supostamente morta e expulso da própria casa.

Diferente da versão original, em que Billy simplesmente seguia um senhor idoso até o metrô por convite do próprio – os anos 30 realmente eram bem inocentes – aqui, Ordway fez uma justificativa plausível, com a figura misteriosa sendo familiar à Billy por uma simples razão: o homem de chapéu e sobretudo era muito parecido com seu falecido pai. Apesar de mais tarde ser revelado que essa figura misteriosa na verdade é o próprio espírito do pai de Billy, guiando-o até o Mago Shazam para trazer justiça ao seu assassinato, é uma justificativa bem-vinda para a origem de tudo. Afinal, a aliança do espírito de C.C. Batson com o Mago para derrotar Theo Adam/Adão Negro foi bem explicada no decorrer da história.

Outro ponto bastante curioso é a forma como Billy lida com os poderes do Capitão Marvel em sua primeira transformação. Enquanto que em outras origens a forma como o herói lida com os conhecimentos dos deuses gregos em sua cabeça é completamente ignorada, aqui Billy fica aterrorizado por ter sido transformado em adulto, principalmente pelas muitas vozes em sua cabeça lhe dizendo o que fazer, não conseguindo processar toda a torrente de conhecimento que lhe é dada. Descontrolado por não conseguir lidar com tamanho poder, Billy ataca o Mago Shazam e só é acalmado pela figura misteriosa que o guiou até o metrô. Nesse momento é explicado à Billy que os poderes do Capitão Marvel irão lhe auxiliar na busca pelo responsável pela morte de seus pais. Mesmo assim, o garoto não consegue entender direito tudo o que aconteceu, não sabendo se foi um sonho ou se realmente aconteceu de verdade. Ponto para Jerry Ordway por se preocupar em abordar e esclarecer esses aspectos da origem do personagem.

Algo que não foi mencionado até então é que a comitiva da expedição no Egito havia ido até Fawcett City em busca de respostas pelo assassinato dos Batson, com um dos membros da comitiva sobrevivido à um golpe fatal de Theo Adam, porém ficando mudo no processo. Com a comitiva indo dar uma entrevista na rádio local sobre os acontecimentos no Egito e culpar publicamente Adam pelo incidente – o vilão era reconhecido na cidade como um capanga de longa data de Silvana -, Adam tenta explodir a Rádio Whiz para impedir que a entrevista seja ouvida pelo público. Contudo, Billy – que vivia na escada de incêndio da rádio – acaba testemunhando tudo. Adam joga o garoto do terraço do prédio, mas Billy se transforma no Capitão Marvel para impedir o atentado.

Vale atenção especial em como o roteiro da história foi bem amarrado: quando Billy se transforma, ele se torna adulto – e inadvertidamente, a cara do pai – e Adam primeiramente pensa que o herói é o homem que ele havia matado na tumba egípcia anteriormente. Contudo, como Billy não o reconhece, o vilão não demora para ir juntando os pontos, como o Capitão Marvel usar o relâmpago mágico no peito, similar ao que estava na tumba egípcia. Com isso, Adam fecha o quebra-cabeças sobre sua origem e lembra-se da palavra mágica que o transforma novamente no Adão Negro, com o relâmpago mágico causando um incêndio que devastaria a mansão de Silvana. Outro ponto a se notar na história é como Billy em seus primeiros momentos como Capitão Marvel é bastante desajeitado no domínio de seus poderes, causando estragos pela cidade – principalmente em propriedades pertencentes à Silvana – além de falar a palavra mágica por acidente e voltar ao normal em pleno voo.

Esses acidentes acabam por deixar Billy em dúvida sobre aceitar ou não o fardo que seus poderes lhe dão, a ponto de tentar desistir em um momento. Aí somos brevemente introduzidos ao sr. Dudley, faz-tudo do colégio de Billy que tem uma preocupação especial pelo bem-estar do garoto desde a morte de seus pais.

Enquanto Adão Negro busca a última peça do seu colar místico – os poderes de Adão Negro provêm diretamente do colar -, ele acaba topando com a comitiva egípcia no meio do caminho, decidindo eliminá-los de uma vez por todas. Em posse do escaravelho que completava o colar, que estava escondido no ursinho de pelúcia de Billy, Adão e Capitão Marvel tem seu confronto final, com o vilão revelando ao herói que matou seus pais para recuperar seu poder. O confronto entre os dois ocorre por toda Fawcett City, coincidentemente derrubando prédios pertencentes à Silvana e basicamente levando o magnata à ruína, gerando um profundo ódio pelo herói.

Durante a luta, Billy apanha bastante do vilão, até finalmente compreender como funciona seus poderes e começa a escutar os conselhos dos deuses em sua cabeça, usando de inteligência para vencer Adão Negro. Com o prédio em que estavam prestes à vir ao chão e Adão Negro pedindo misericórdia, inocentemente Billy propõe uma trégua, mas o vilão é ardiloso e ataca o Capitão Marvel desprevenido. Contudo, o herói é mais esperto e acaba por render Adão Negro, rompendo o colar místico que dava poderes ao vilão. Com o Adão Negro à sua mercê, Billy sofre um dilema moral de deixar o assassino de seus pais morrer soterrado pelos escombros do local ou levá-lo à justiça. Provando que quer fazer a coisa certa, o Capitão Marvel entrega Adam ao Mago Shazam, que retira a voz e as memórias de Adão Negro de Theo Adam, com o vilão sendo entregue à polícia posteriormente.

Com Adão Negro vencido, Billy vai até a Pedra da Eternidade para pedir ao Mago que retire seus poderes, pois fardo de ser o Capitão Marvel é grande demais para ele, um garoto de apenas dez anos. Contudo, o estranho misterioso que o havia guiado até o metrô aparece e Billy percebe que ele era o espírito de seu pai. Um abraço emocionado entre os dois se dá, com o Mago Shazam pedindo que Billy reconsidere sua decisão de abandonar o manto de Capitão Marvel, já que o herói ainda deveria reencontrar sua irmã desaparecida, Mary. Com a oportunidade de resgatá-la, e com a benção de seu pai, Billy decide de vez honrar os poderes do Mago e agir como Capitão Marvel – não sem antes usar sua forma adulta para resolver um pequeno problema de faltas na escola.

Toda essa história se desenrolou no one-shot – mais tarde republicado no formato graphic novel – The Power of Shazam, de 1994. A história ganhou o prêmio Comics Buyer’s Guide Fan de Álbum Gráfico Original Favorito de 1994, consolidando a história como um sucesso. Por conta disso, Ordway recebeu o sinal verde da DC para iniciar a revista mensal do herói, Power of Shazam!, que duraria 48 edições entre 1995 e 1999. Se você quer ler um bom material de origem do Capitão Marvel – ou do Shazam, como é conhecido atualmente – com o filme cada vez mais próximo de sair do papel, esta é uma leitura mais do que recomendada, um grande tesouro pouco lembrado nos dias de hoje.

 

  • David Pinheiro

    O Shazan na Liga é deslocado, por causa do Superman. Na SJA ele cairia como uma luva.

  • Marcus Pourroy

    muito bom

  • Anderson Raposo

    Pra mim, essa é a origem definitiva do Capitão Marvel. A dos Novos 52 ficou uma bosta….