Desmistificando reboots, relaunches e retcons do Universo DC

Com mais de 80 anos de história, entre seus altos e baixos, a DC Comics é bastante conhecida por seus reboots, relaunches e retcons. Muitos amam os conhecidos períodos de mudanças no Universo DC, enquanto outros consideram esses eventos uma perda de tempo. Atualmente, estamos nos estágios iniciais de mais um desses períodos. Intitulado de Rebirth, tem como principal objetivo a restauração de clássicos conceitos do Universo DC que foram perdidos com o reboot d’Os Novos 52.

Se isso foi capaz de dar um nó em sua cabeça – e eu espero que tenha dado -, esse artigo será de grande ajuda para você. O que você lerá abaixo é uma espécie de guia com os pontos cruciais da cronologia de mais de 80 anos do Universo DC.

A editora que hoje chamamos de DC Comics foi criada a partir de três empresas distintas: National Allied Publications, Detective Comics Inc. e All-American Publications. A National começou publicando o titulo New Fun Comics – que mais tarde seria renomeado para More Fun Comics – em 1935 e New Comics – renomeado posteriormente como Adventure Comics – em 1936. Um ano depois, Detective Comics chega às bancas, e em 1938, Action Comics é lançada.

Em 1946, as três editoras se tornaram uma única empresa, chamada National Periodical Publications. Essa empresa não mudou oficialmente seu nome para DC Comics Inc. até 1977, embora já fosse assim conhecida por décadas.

Assim, vemos o primeiro momento do que viríamos a chamar de Universo DC.

1.0. A Sociedade da Justiça e a Era de Ouro

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Estreando em All-Star Comics #3 (1941), a Sociedade da Justiça da América reuniu os personagens de todas as três editoras mencionadas acima. Personagens como Senhor Destino, Homem Hora e Sandman (NAP); Flash, Átomo, Lanterna Verde e Mulher Maravilha (AAP); e Batman e Superman (DCI) se encontravam ocasionalmente no título da equipe de vigilantes. Muitos desconhecem que todos esses personagens vieram de editoras diferentes, embora conectadas. Dessa união, surge a equipe formada pelos personagens das três editoras. Ver todos esses personagens, que até então só apareciam em seus títulos solos, reunidos em uma única edição para lutar contra ameaças maiores, pode até parecer algo normal hoje em dia, porém, na época, foi algo inovador.

1.1. Superboy

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Outro significante pedaço da história veio em 1945 com a estreia do Superboy em More Fun Comics #101. Como o título sugere, essas eram histórias que contavam as aventuras do Superman quando ele ainda era um garoto, mas isso acabou gerando uma contradição com a origem do Homem de Aço contada em 1938 em Action Comics #1 e, de forma mais elaborada, em 1939 no titulo Superman #1. Naquele momento, alguns leitores, mesmo que poucos, já começavam a se importar com a consistência de uma cronologia envolvendo seus personagens favoritos, e conciliar essas diferenças eventualmente significava criar tanto um universo de novos termos como continuidade retroativa – os famosos retcons – para explicá-las.

2.0. A Liga da Justiça e a Era de Prata

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É no inicio da Era de Prata que começa a surgir a ideia do reboot. Essa nova era para os heróis da DC Comics reintroduziu personagens como Flash, Lanterna Verde, Átomo e Gavião Negro, mas os mudou significativamente em questões como nomes, origens e personalidades. Todas as historias da Era de Ouro foram ignoradas. Foram introduzidos novos personagens e equipes (Caçador de Marte, Adam Strange, Patrulha do Destino), e os personagens como Superman, Batman e Mulher Maravilha foram modernizados. A equipe outrora chamada de Sociedade da Justiça da América foi remodelada como Liga da Justiça da América.

É claro, os dois eventos fundamentais da Era de Prata envolvem o personagem Flash: no titulo Showcase #4, lançada em 1956, somos apresentados ao segundo Corredor Escarlate, Barry Allen e em 1961, em Flash #123, nos é revelado que o Flash original, Jay Garrick, estaria vivendo em um mundo paralelo conhecido como Terra-2. Nesse momento, já haviam se passado dez anos desde a última história envolvendo a Sociedade da Justiça e doze anos desde de que as historias de Jay Garrick haviam sido canceladas.

2.1. O Multiverso

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Desde o surgimento da Terra-2 é estabelecido um conjunto de regras que serviam para distingui-la da Terra-1. É presumido que todas as histórias da Era de Ouro aconteceram somente na Terra-2, e que elas aconteceram em tempo real, ou seja, desde a introdução de Jay Garrick em Flash Comics #1 em 1940 até sua aposentadoria em 1949.

As regras da Terra-2 também acabaram definindo a história da Terra-1. Os cinco anos e meio de histórias entre All-Star Comics #57 e Showcase #4 incluem algumas aventuras que se tornariam parte da história da Terra-1. Entre elas estavam a estreia do Capitão Cometa no título Strange Adventures #9, o inicio da amizade entre Superman e Batman em Superman #76, e a primeira aparição do Caçador de Marte em Detective Comics #225. As histórias envolvendo a juventude do Superman citadas acima, pelo intermédio de um retcon, foram estabelecidas na Terra-1 e contavam a história do Superman dessa Terra – ou pelo menos elas foram negadas de fazerem parte do cânone do Superman da Terra-2, que não apareceu em nenhuma história da Era de Prata até 1969 em Justice League of America #75.

O inicio dos anos 50 foram bastante quietos para os super-heróis da DC Comics. Superman, Batman & Robin e Mulher Maravilha sobreviveram ao final da Era de Ouro, mas eles raramente interagiam uns com os outros. Essas ocasionais interações merecem uma menção, pois em Superman #76 foi mostrado o primeiro encontro entre Superman e Batman, mesmo ambos tendo sido integrantes da SJA. Pode até parecer algo contraditório, mas assim como as histórias do Superboy, isso foi estabelecido como uma parte da cronologia que é partilhada pelas duas Terras.

Naturalmente, a história da Terra-1 se expandia ainda mais conforme a Era da Prata continuava. Em 1970 os personagens usufruíam de uma elástica longevidade que os mantinham perpetuamente jovens. Isso foi um contraste com a Terra-2 e a Era de Ouro, onde os seus habitantes estavam estabelecidos na década de 40 e envelheciam conforme as décadas avançavam. Tais distinções se tornaram elementos necessários do Multiverso dos quais as equipes criativas da DC Comics foram construindo gradativamente.

3.0. Confusão Multiversal

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Na metade dos anos 80, foi estabelecido que o – agora infinito – Multiverso tinha se tornado algo fora de controle. E para tentar consertar isso, eis que chega às bancas o mega evento Crise nas Infinitas Terras, com a proposta de estabelecer a maioria dos personagens da DC Comics em uma única e definitiva Terra, com uma única linha do tempo. Um verdadeiro “pente fino” foi passado, com a finalidade de juntar elementos de todas as Eras passadas. A história cumpriu com o que prometeu e se tornou um marco na história dos quadrinhos. Contudo, as confusões cronológicas estavam longe de terem um final.

3.1. Os reboots durante os anos 80

Embora a Crise tivesse sido finalizada em 1986, a DC Comics não tinha terminado com o reboot de seu universo. Começando com Man of Steel #1 em 1986, a DC Comics recontou as origens de Superman, Mulher Maravilha, Batman, Besouro Azul, Capitão Átomo e Shazam; e durante o mesmo período, a editora também relançou Liga da Justiça, Esquadrão Suicida e Flash (agora estrelado por Wally West).

Além disso, os times criativos da DC Comics acharam novas formas de contar histórias passadas em mundos paralelos. O reboot do Superman descartou toda sua carreira como Superboy, mas as histórias da Legião dos Super-Heróis não foram alteradas. Assim, um crossover de 1987 explicou essa discrepância com a ideia do Universo Compacto. Esse universo não era uma Terra paralela, apenas uma pequena parte do tempo cultivada e moldada para se parecer com o status quo do pré-Crise. Em uma edição datada de 1990 é explicado que uma fenda temporal foi a responsável por apagar o Superboy e a Supergirl da história da Legião dos Super-Heróis e os substituírem pelos personagens Lar Gand e Laurel Gand. Da mesma forma, em 1987, a Liga da Justiça encontrou um grupo de heróis provenientes de outro mundo dimensional, o mundo de Angor – que, eventualmente, acabou se tornando apenas outra Terra Paralela.

 3.2. Zero Hora

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O Gavião Negro não era o único personagem que se tornou um problema com o passar dos anos. Além do Superman e da Legião, as mudanças relacionadas à Mulher Maravilha afetaram as histórias da Liga da Justiça e dos Titãs; e um ponto na trama de Batman: Ano Um exigiu uma mudança no background da Batgirl. Em 1994, o roteirista/desenhista Dan Jurgens cria o evento chamado Zero Hora. A história alterna diferentes linhas do tempo ao invés de mundos paralelos, mas com um final familiar: tudo continua como antes, exceto, por algumas mudanças envolvendo o passado de Bruce Wayne e Selina Kyle; Guy Gardner se tornando um novo super-herói; a introdução de Connor Hawke – filho do Arqueiro Verde -; uma nova repaginação do Starman e algumas outras coisas mais. Zero Hora tentou melhor alocar o personagem Gavião Negro – aposentado da Sociedade da Justiça – e rebootar a Legião dos Super-Heróis com um novo elenco. Esse reboot da Legião foi provavelmente o mais significante produto da continuidade pós-Zero Hora.

3.3. Hipertempo

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Enquanto isso, começando em 1989 com Gotham By Gaslight, a DC Comics havia encontrado uma nova forma de contar histórias de mundos paralelos chamando-as de Elseworlds e decretando que elas não influenciariam a continuidade principal do Universo DC. Se aproveitando disso, Mark Waid Grant Morrison criaram o conceito do Hipertempo.

Essencialmente, um aglomerado constituído por qualquer historia que já houvesse sido publicada pela DC Comics desde Action Comics #1 agora era considerada parte do Hipertempo. Embora algumas partes dele pudessem se manifestar ocasionalmente como parte do universo principal, outras manifestações seriam completamente diferentes, apresentando novas linhas do tempo. Mesmo assim, por mais que se pretendesse voltar a expandir o miolo do Universo DC, até mesmo insinuando que o infinito Multiverso destruído na Crise era apenas uma pequena parte do Hipertempo, a ideia nunca pegou.

3.4. Os reboots durante os anos 2000

Algumas outras séries envolvendo reboots merecem a sua atenção. Em 2004, Mark Waid revisou a origem do Superman pela primeira vez desde de Man of Steel com a série chamada Superman: O Legado das Estrelas. Entre outras coisas, a história estabeleceu que o adolescente Lex Luthor era amigo de Clark Kent em Smallville (assim como na Era de Prata e na série de TV, Smallville) e forjou uma falsa invasão kryptoniana para estar junto das primeiras aparições do Superman. Por volta da mesma época, Waid e o artista Barry Kitson relançaram a Legião dos Super-Heróis, no que mais tarde foi chamado de re-reboot. Dessa vez, a Legião era mais um movimento jovem do que uma superequipe, e as historias começaram com o grupo já razoavelmente estabelecido. Isso durou cerca de quatro anos antes de ser deixado de lado em favor do retorno da versão anterior.

3.5. O Ciclo das Crises

Em 2005, para comemorar o aniversário de vinte anos da Crise nas Infinitas Terras, a DC Comics anunciou Crise Infinita. A história trouxe de volta quatro personagens provenientes da Crise primordial, matando três deles e tornando o quarto em um caso praticamente irremediável de maldade. Crise Infinita explicava as pequenas mudanças na linha do tempo através de uma furiosa versão do Superboy Prime socando a barreira interdimensional. Ao final de Crise Infinita, temos a formação de um novo Multiverso, cuja existência foi revelada apenas um ano mais tarde no final da maxissérie 52.

O Multiverso teve diversas situações exploradas nos anos que viriam, principalmente em Contagem Regressiva Para Crise Final e Crise Final. O fim de Crise Final envolveu outra reinicialização cósmica. Por isso, Geoff Johns e o artista Gary Frank usaram a oportunidade para produzir Superman: Origem Secreta, o terceiro e último grande conjunto de revisões no período pós-Crise.

4.0. Flashpoint e os Novos 52

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Flashpoint pareceu ser mais um evento de quadrinhos qualquer, e muitos leitores não perceberam que um novo reboot estava para vir. Após o final da série, a DC relançou 52 novas revistas mensais, reinventou seus personagens e reviveu títulos populares do passado. Esse universo pós-Flashpoint recebeu o nome de Os Novos 52. O Multiverso d’Os Novos 52 também foi reformulado, e muitas Terras receberam novas configurações, principalmente com o lançamento de Multiversity, que saiu em 2014. Você pode conferir todas as 52 Terras do atual Multiverso DC aqui.

4.1. Convergência

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A última tentativa de arrumar o Universo DC veio em 2015 com Convergência. A história nos conta que todas as outras linhas do tempo ainda estavam por ai, e prestes a lutarem umas contra as outras por conta de Brainiac. Ao final da história, a Crise é desfeita, impedindo que o Multiverso tivesse sido destruído em 1986 e possibilitando seu crescimento e evolução natural.

Convergência gerou três minisséries: Telos, sobre o assistente de Brainiac que encontra a redenção; Titans Hunt, reunindo a versão clássica dos Titãs nos Novos 52; e Superman: Lois & Clark, trazendo de volta o Superman pré-Novos 52, sua esposa e seu filho. Titans Hunt revela que nenhum dos integrantes da equipe lembra dos Jovens Titãs originais, incluindo eles mesmos; e em Lois & Clark nos é revelado que o Superman pré-Novos 52, sua esposa e filho, têm vivido em segredo no universo principal da editora desde o surgimento da Liga da Justiça d’Os Novos 52.

5.0. Para onde ir?

Pelas nossas contas, já houveram 4 versões principais do Universo DC:

  • Era de Ouro (1935-51)
  • Era de Prata/Multiverso (1956-85)
  • Pós-Crise (1986-2011)
  • Novos 52 (2011-presente)

Essa, claramente, é uma forma bem simples de organizar a cronologia do Universo DC. No entanto, dentro dessas quatro grandes eras, existem nove reboots, dúzias de retcons e centenas de relunches.

E após toda essa viagem pela cronologia de 80 anos do Universo DC, você pode perguntar: afinal, o que é Rebirth?

Antes de tudo, tenha na cabeça de que Rebirth é um relaunch, e não um reboot. Quase todos os quadrinhos da linha de super-heróis da DC foram reiniciados a partir da edição #1, mas a cronologia não será resetada. Então, não teremos outro Flashpoint vindo por aí.

O objetivo de tudo isso, oficialmente, é restaurar o legado e trazer de volta elementos que os fãs sentem falta. Por baixo dos panos, nós sabemos que o verdadeiro objetivo do Rebirth é aumentar as vendas da editora, que caem cada vez mais. E dessa vez, para atrair o público, ela apelou para a nostalgia de antigos leitores, que já não acompanham quadrinhos com a mesma assiduidade de antes.

  • Luã

    Amei o artigo. Um dos melhores do blog, na minha opinião.

    • Anderson Vianna

      Muito obrigado amigo! =D

    • Anderson Vianna

      Muito obrigado amigo! =DD

  • Caio Lourêncio

    O melhor artigo que já li sobre o tema, vou passar a acompanhar o blog o

    • Anderson Vianna

      Muito obrigado Caio. Ficamos feliz em ter você como Glorioso Leitor. =D

  • Tales Santos

    vocês fazem um trabalho sensacional aqui, parabéns

    • Anderson Vianna

      Por todas as terras do multiverso, muito obrigado =DD

  • Muito bem escrito. Adicionei ao Feedly.

    • Anderson Vianna

      Valeu amigo! =D

  • ooook, entendi as mudanças mais drásticas (as crises infinitas e o flashpoint..) mas como vc mesmo disse há uma CARALHADA de remend… retcons que acabam deixando tudo bem complicadinho ainda

  • Matheus ⚡

    Muito bom esse artigo. Amei. Realmente, tudo ficou mais claro depois que li. Parabéns!👏🏻👏🏻

  • Yhanno Lima

    Parabéns! Sou leitor assíduo, e antigo de hq’s DC, e esta leitura, resumiu tudo de forma tão sublime e simples, que me lembrou o ator, e grande mecânico Edd China, do programa Wheeler Dealers, da Discovery Turbo. Que com maestria e simplicidade explica algo tão complicado a leigos, e entusiastas exigentes. Um forte abraço!