Crise Infinita: quando o editorial acerta

Quem acompanha a DC Comics religiosamente há mais de dez anos sabe que a editora está sofrendo com uma má administração criativa. E isso não é uma afirmação de um fã velhaco que sente falta do pré-Crise, mas sim uma constatação do que acompanhamos saindo da editora nos últimos anos. Os personagens nunca estiveram tão descaracterizados, e você consegue contar nos dedos as histórias que serão lembradas e que darão orgulho de guardar na prateleira. Mas nem sempre foi assim. Houve uma época na DC Comics em que a criatividade alcançou seu ápice. Foi a época da Crise Infinita.

A segunda metade dos ano 90 foi uma boa época para os heróis da DC. Não que o Universo DC estivesse coeso e livre de incoerências cronológicas, mas grande parte dos personagens da editora tiveram boas fases nesse período. Aquaman do Peter David, Flash do Mark Waid e Lanterna Verde do Ron Marz são alguns exemplos de runs que ajudaram a definir e redefinir conceitos e personalidades desses heróis. E toda essa orquestra alcançava a apoteose nas aventuras da Liga da Justiça, ora de Grant Morrison, ora de Mark Waid. Mas no começo dos anos 2000, quando grande parte dessas equipes criativas foram retiradas de seus títulos, a qualidade caiu, e tudo o que tínhamos eram sagas megalomaníacas do Jeph Loeb.

Até que em 2002, Dan DiDio entrou para a DC Comics com o objetivo de aproveitar todo o potencial desse universo heroico. A primeira decisão foi encerrar séries voltadas para o público infantil – como a Justiça Jovem -, e focar em histórias mais sombrias e violentas. Depois, ele iniciou os processos para a criação de um grande evento, que comemoraria os 20 anos da Crise nas Infinitas Terras. E tudo isso deu certo porque o editorial da DC Comics estava empenhado e usava algo que não se usa mais nos dias de hoje: planejamento. Foram mais de dois anos de preparação, com os melhores escritores da editora na época envolvidos. Grant Morrison, Mark Waid, Geoff Johns, Brad Meltzer, Greg Rucka, Gail Simone, Bill Willingham, Judd Winick, Dave Gibbons, Andy Diggle e muitos outros desenvolveram histórias que iriam marcar a metade dos anos 2000.

Iniciando com O Retorno de Adam Strange, tivemos sucessões de histórias marcantes como Dia de Formatura, Crise de Identidade, Reinado Sombrio e Lanterna Verde: Renascimento, que pavimentaram o caminho para Contagem Regressiva para a Crise Infinita, que chocou todos os fãs da Liga da Justiça Internacional ao matar o Besouro Azul, Ted Kord, com um tiro na cabeça. Uma ação violenta para fincar um marco na editora: as histórias inocentes acabaram. Action Comics #775 agora é uma utopia, e o Universo DC iria enfrentar tempos sombrios, que iria colocar em provação cada um dos nossos heróis.

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Após a morte de Ted Kord, uma contagem regressiva de seis meses se iniciou, e 4 minisséries foram lançadas com o objetivo de organizar o universo heroico para a Grande Crise que estava por vir. Projeto OMAC explorou as conspirações que pretendiam derrubar os heróis, enquanto Vilões Unidos mostrou a formação de uma equipe de vilões que temiam os métodos violentos dos heróis. Dia de Vingança focou no universo mágico, colocando em destaque vários heróis de segunda. E para finalizar, tivemos Guerra Rann–Thanagar, que resgatou o universo cósmico da DC Comics, que há muito tempo era negligenciado. A cereja do bolo foi o arco Crise de Consciência, da Liga da Justiça. Com todas as peças posicionadas, era a hora de enfraquecer a Liga. A marcante cena da Torre de Vigilância sendo destruída deu início, de fato, à Crise Infinita.

Escrita por Geoff Johns, com arte de Phil Jimenez, Jerry Ordway, George Pérez e Ivan Reis, a minissérie Crise Infinita foi recebida com muita expectativa pelo público. Não foi uma história genial, mas, felizmente, cumpriu todas as expectativas, apresentando ação da mais alta qualidade e momentos emocionantes. O grande problema de Crise Infinita é seu vilão, Superboy Prime, que não é nada carismático e passa as sete edições gritando e batendo. Mas isso não é algo que leve por terra todo o planejamento. Ao final de Crise Infinita, tivemos o Multiverso restaurado, o que abriu um leque de 52 possibilidades para serem exploradas no futuro.

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Ao final de Crise Infinita, toda a cronologia do Universo DC foi adiantada em um ano, na linha editorial que ganhou o nome de Um Ano Depois. Mesmo após um grande evento, o editorial da DC Comics não abriu mão do planejamento e manteve sua equipe criativa na casa para arquitetar mais um ano de histórias. Ganhamos o Batman de Grant Morrison, o Xeque-Mate de Greg Rucka, a Liga da Justiça de Brad Meltzer, a preparação na revista do Lanterna Verde para Guerra dos Anéis, de Geoff Johns, e, principalmente, 52.

52 – ou 52 Semanas, como ficou conhecida aqui no Brasil – foi uma maxissérie semanal com cinquenta e duas edições que narrava o que aconteceu com o Universo DC no período de um ano que foi adiantado na cronologia. Escrita por Grant Morrison, Mark Waid, Geoff Johns, Greg Rucka e Keith Giffen, 52 focou em personagens como o Questão e Renee Montoya, Aço, Família Marvel Negra, Homem Elástico e Gladiador Dourado. Todos enfrentando grandes problemas que colocaram o mundo em risco, ao mesmo tempo em que suas personalidades e seus traumas são trabalhados. E assim como em Crise Infinita, o final foi marcado pela revelação de um Multiverso vivo e vibrante lá fora, com 52 Terras personalizadas, prontas para uso.

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Os problemas editorias da DC começaram após o final de 52. Mark Waid saiu brigado da editora, e todo o time de escritores ruiu. Ao invés de uma equipe trabalhando unida, os roteiristas começaram a trabalhar cada vez mais isoladamente. Grant Morrison ficou apenas no Batman. Geoff Johns focou nas revistas do Lanterna Verde, da Sociedade da Justiça e do Gladiador Dourado. Gail Simone ficou com o Sexteto Secreto. Brad Meltzer parou de escrever a Liga e foi substituído por um James Robinson fora de forma.

A falta de interesse dos editores em reunir essa equipe novamente levou à decisões que são mal lembradas até hoje. Trindade e Contagem Regressiva para Crise Final são duas dessas decisões, que ao tentar refazer o sucesso de 52, descaracterizou ainda mais os personagens, e prejudicou não só eventos futuros, como também uma possível tentativa de reboot em 2009 – que, particularmente, acredito que teria sido melhor executada do que como foi com Flashpoint.

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Em 2009, já estava tudo tão errado na DC que após Noite Mais Densa, grande parte do poder de criação da editora foi para as mãos de Geoff Johns, que executou Dia Mais Claro e mais uma dúzia de arcos e eventos medíocres desde então – e Flash Renascimento, que é considerado pelo Gloriosa DC a pior história de todos os tempos. Ainda assim, tivemos boas histórias, mas não na mesma proporção que três anos antes. E após Os Novos 52, todas as chances que tínhamos de ter um novo boom criativo morreram. Muitos escritores não querem mais botar a mão nos personagens clássicos da DC, e tudo o que vamos ter num futuro próximo é Hal Jordan socando Darkseid.

  • Rafael Pirola

    VOLTA MARK WAID

  • Jonah Hex

    Não acho pela interwebs esse arco “Reinado Sombrio” (com esse nome só conheço arco da concorrente). Não seria “Reino Sombrio” (Black Reign)?