Como Rebirth pode aprender com Crise Infinita

O atual momento da DC Comics – chamado de Rebirth – é uma iniciativa para trazer de volta o passado glorioso da editora. O retorno de Wally West – personagem que estava perdido no limbo editorial durante Os Novos 52 – e todo o mistério envolvendo os personagens de Watchmen no Universo DC são alguns dos exemplos do esforço que a editora está exercendo para se reerguer.

Entretanto, não é a primeira vez que o roteirista Geoff Johns arquitetou e roteirizou um grande evento para a Editora das Lendas. Em 2006, na comemoração de 20 anos da Crise nas Infinitas Terras, ele planejou Crise Infinita. Crise Infinita deixou uma marca significativa no Universo DC, sendo o coração do Ciclo das Crises dos anos 2000 – período em que toda a linha de títulos da DC Comics estava ou se preparando para alguma calamidade ou no meio de alguma calamidade ou se recuperando de alguma calamidade. Uma vez que o Rebirth também aparenta estar usando do mesmo modus operandi, pretendemos comparar os dois momentos para vermos como o atual evento pode se beneficiar.

NOSSA MARCA É A CRISE: 1982-2004

Começamos em 1982 porque foi esse o momento em que a DC começou a promover sutilmente a Crise nas Infinitas Terras. O Monitor e seu satélite apareceram pela primeira vez em julho de 1982 em The New Teen Titans #21; enquanto que sua assistente, Lyla, teve sua estreia um ano depois, em 1983, em New Teen Titans Annual #2. Ao que parece, se você pretende convencer os leitores de que um par de novos personagens vem observando um universo compartilhado, é essencial mostrá-los observando tal universo por um bom período de tempo – mesmo que o Monitor nunca tenha sido visto completamente até a edição #1 de Crise, quando os poderes da Precursora são revelados.

Em 1986 a Crise havia acabado e a DC Comics podia começar a desenvolver seus efeitos, mas eventualmente isso também levou à conflitos. No verão de 1994Dan JurgensJerry Ordway fizeram Zero Hora, evento que explorou esses problemas através de diferentes conjuntos de ferramentas cósmicas; e 10 anos após isso, em Crise de IdentidadeBrad Meltzer inseriu alguns desagradáveis elementos nas histórias da Liga da Justiça da América. Apesar disso, a DC Comics teve o cuidado de usar o nome Crise com moderação, já que em Crise de Identidade a palavra “Crise” significava mais uma perturbação moral e emocional do que uma desestruturação cósmica.

A premissa de Crise de Identidade envolvia o mistério sobre o assassinato de Sue Dibny, a esposa do Homem-Elástico e uma das coadjuvantes mais queridas pela comunidade heroica. A morte dela desencadeia uma série de descobertas envolvendo os membros da Liga da Justiça usando lobotomia para protegerem suas identidades secretas. A história nos conta que anos antes, Doutor Luz havia invadido o satélite-base da Liga da Justiça e atacou Sue enquanto a equipe estava fora. Para que Doutor Luz não repetisse tais atos criminosos, a Liga votou por apagar a memória do vilão e o transformar apenas em um ladrão não muito inteligente. Com o tempo, Zatanna aderiu ao hábito de apagar qualquer informação comprometedora da mente de vilões, algo que ela também faria com o Batman quando o Cavaleiro das Trevas descobriu as ações da Liga e desaprovou tais atitudes.

Após sete edições de uma trama sombria e eletrizante, algumas lutas e mais mortes, descobre-se que o assassino de Sue não era um vilão, mas sim a ex-esposa de Ray Palmer, o Átomo, Jean Loring – que fez isso tudo para chamar a atenção de seu ex-conjugue. Jean acabou presa no Asilo Arkhan e a Liga começou a olhar para si mesma e para suas atitudes com um pouco mais de cuidado.

E acaba por ai, certo?

O CICLO DAS CRISES: 2005-2011

Não exatamente. Aqui vão os acontecimentos gerados por esse período:

  • O misterioso assassinato em Crise de Identidade teve repercussões para a Liga da Justiça, a comunidade vilanesca e para o Batman especificamente;
  • No one-shot Contagem Regressiva Para Crise Infinita é mostrado um subplot envolvendo o Batman. Ele havia construído um satélite espião e pensou que estava guardado em segurança. Infelizmente, não estava. O ex-mocinho Maxwell Lord roubou e reprogramou o Irmão-Olho e matou o Besouro Azul, que sabia demais sobre os seus planos duvidosos;
  • Algumas outras minissérie de 2005 também preparariam os leitores para Crise Infinita. A primeira delas, Projeto OMAC, nos mostra Batman, Superman e Mulher-Maravilha investigando Max, que estava tão poderoso que só pôde ser parado pela Mulher Maravilha, que quebra o seu pescoço. Em seguida, Guerra Rann-Thanagar e Dia de Vingança serviram para manter ocupados os heróis tanto do núcleo cósmico quanto do núcleo mágico. Enquanto isso, Vilões Unidos e o arco da Liga da Justiça chamado Crise de Consciência lidou com as consequências do ocorrido em Crise de Identidade na comunidade vilanesca e na própria Liga da Justiça;
  • Crise Infinita abordou todos os assuntos das minisséries, revelando o abrangente plano orquestrado por Alexander Luthor – da antiga Terra-3 – e Superboy Prime – da antiga Terra-Prime – para restaurar o antigo Multiverso. No final, o Coringa mata Alexander, o Superboy Prime é aprisionado pela Tropa dos Lanternas Verde em Oa e as coisas voltaram ao normal, exceto por algumas diferenças cronológicas e pelo vasto Multiverso que a DC Comics trouxe de volta;
  • A linha regular dos títulos da DC Comics deu um salto um ano no futuro em março de 2006, aproveitando os acontecimentos e lacunas de Crise Infinita para fazer ajustes na linha cronológica daquela época. Entretanto, o selo Um Ano Depois não foi tão bem recebido como 52, a maxissérie semanal que relatou os acontecimentos do ano perdido do Universo DC;
  • Após 52, outra maxissérie semanal com duração de um ano chegou às bancas: Contagem Regressiva Para Crise Final, que tinha como propósito gerar hype envolta do evento que viria a seguir, sendo trabalhada em todos os títulos da época e através de diversas minisséries afiliadas, como Contagem Regressiva: A Busca Por Ray Palmer e A Morte dos Novos Deuses;
  • Apesar do título, Crise Final não foi o último grande evento da DC, pois em 2009 chegou às bancas A Noite Mais Densa  que lidou, basicamente, com todas as mortes ocorridas em diversos eventos da história da editora – e em 2010, O Dia Mais Claro – que tentou, mais uma vez, colocar o Universo DC nos eixos;

O Ciclo das Crises durou mais de sete anos antes que toda a carnificina de seus eventos fosse resolvida. Em seguida, com Flashpoint, a DC Comics jogou fora todos esses esforços e deu inicio ao reboot d’Os Novos 52.

O CAMINHO PARA REBIRTH

Assim como Crise Infinita foi precedida por uma série de histórias aparentemente isoladas, um one-shot e um punhado de minisséries, Rebirth seguiu o mesmo caminho.

Convergência, de 2015, foi anunciado como um evento que supriria a lacuna editorial que se criaria por conta da mudança da sede do escritório da DC Comics, que saiu de Nova York para Burbank, na Califórnia. Convergência explicou que o Brainiac Primordial  – uma espécie de “matriz” de todos os Brainiacs esteve coletando cidades de diferentes pontos da cronologia e do Multiverso para lutar umas contra as outras. Convergência gerou algumas consequências confusas para o núcleo cósmico da DC Comics, e se apoiou mais na nostalgia. Ao final de Convergência, a DC Comics debutou sua nova iniciativa, o DC You.

Três minisséries surgiram a partir de ConvergênciaTelos, que contava uma história envolvendo o assistente de Brainiac; Caça aos Titãs, que estabeleceu a verdadeira história dos Titãs originais; e Superman: Lois & Clark, que revelou que o Superman e a Lois Lane pré-Flashpoint estavam vivendo na terra atual d’Os Novos 52 desde o início da era heroica desse mundo.

O resto dos títulos ganharam uma reforma e novas séries como Canário Negro, Prez e The Omega Men se juntaram à versões radicalmente alteradas de Batman, Superman e Lanterna Verde. Como as vendas não responderam bem, a editora lançou DC Universe: Rebirth #1 (2016). Junto com DCUR #1, uma série de one-shots serviram para conectar esse novo momento do universo com as minisséries pós-Convergência.

Como Titãs, Superman e Wally West possuíam uma conexão maior entre o universo pré-Flashpoint e o universo atual, diversas pistas sobre os mistérios do Rebirth apareceram em seus respectivos títulos. Isso também é válido para outras séries em andamento, como Detective Comics e Action Comics. No recente evento Liga da Justiça vs. Esquadrão Suicida, também é fornecido pistas sobre o grande enredo do Rebirth. A estratégia parece ser uma inversão de Crise Infinita, pois as mudanças provocadas pelo Rebirth precedem sua explicação – ou, ao menos, uma explicação mais detalhada.

Um importante fator do Rebirth ainda precisa ser discutido: Mr. Oz, que surgiu no run de Geoff Johns com o Superman (Superman #32-39). Atualmente, acredita-se que ele seja um personagem do universo de Watchmen, porém, pelo fato de Mr.Oz ser um elemento que precede Convergência, talvez ele possua alguma outra finalidade, como uma rota alternativa para trazer o Superman d’Os Novos 52 de volta. De qualquer forma, Mr.Oz certamente tem funcionado muito bem como a misteriosa personificação do Rebirth.

LIÇÕES APRENDIDAS?

Novamente, Rebirth está usando muitas das ferramentas usadas no Ciclo das Crises, mas em uma ordem ligeiramente diferente. Crise de Identidade levou para Contagem Regressiva Para Crise Infinita e depois para mais 4 minisséries; Convergência gerou Caça aos Titãs e Superman: Lois & Clark que levou até o especial DC Universe: Rebirth #1. Como notado acima, as mudanças do Rebirth estão acontecendo agora neste exato momento, ao contrário da fase Um Ano Depois, que aconteceu após Crise Infinita.

Com certeza, é uma estratégia diferente adaptada para um conjunto diferente de condições de mercado, mas valeu a pena. Um Ano Depois não fez muito pelas vendas na época, mas a iniciativa Rebirth vem se saindo muito bem. A questão agora é se a DC Comics pode manter isso pelos dois anos que Dan DiDio disse que Rebirth terá. Até agora, a DC Comics está mantendo um bom equilíbrio entre vendas e boas histórias. Enquanto mais arcos de histórias envolvendo o Rebirth ainda estão por vir, muitos títulos tem pouca coisa – ou até mesmo nada – relacionado ao evento. Por exemplo, Mulher-Maravilha está explicando as mudanças na origem da Princesa Amazona, mas isso não é algo que faça parte do núcleo do Rebirth. Entretanto, se o Rebirth não acabar até o verão de 2018, isso provavelmente mudará e mais títulos serão conectados diretamente ao macro-enredo do Rebirth.

Também é possível que a DC Comics retornará com o Ciclo das Crises, aumentando a dependência do Rebirth de mais minisséries. Caça aos Titãs e Superman: Lois & Clark chegaram com poucos holofotes apontados para si, mas não havia tanta expectativa ao redor desses títulos pós-Convergência. Com uma contagem regressiva de dois anos e vendas elevadas, a DC Comics pode se sentir confiante o suficiente para lançar alguns outros eventos antes das principais revelações começarem a serem mostradas.

A DC Comics precisa tratar cuidadosamente desses eventos, no entanto. Se o material fonte para 52 foi totalmente autocontido, Contagem Regressiva Para Crise Final foi totalmente pelo lado contrário e pagou o preço por isso. Contagem Regressiva era, no melhor dos reviews, algo confuso, saltando acidentalmente de subplots em subplots com seus personagens se deslocando através do Multiverso. Isso acabou gerando uma certa má vontade com seus tie-ins, como Contagem Regressiva: Arena e Contagem Regressiva Apresenta: Lord Havok e os Extremistas. Até agora, o foco do Rebirth nas séries atuais vem sendo bem recebido. Pode até ser que não permaneça dessa forma, mas por enquanto não existem razões para mudar.

Usando essa série de eventos com moderação, a DC Comics também pode evitar a temida fadiga de eventos. Embora sabemos que fadiga é outro nome dado para execução porca, a recepção dada à Um Ano Depois mostrou que o entusiasmo por Crise Infinita não se estendeu. Vale lembrar que a DC Comics passou maior parte do ano hypando Crise Infinita com o objetivo de fazer com que os leitores permanecessem acompanhando as minisséries. Em contraste, Rebirth vem construindo primeiramente um público-alvo para a série em andamento, presumindo que as inevitáveis minisséries que virão serão mais significativas para esse público.

Se nós fôssemos comparar o período dos acontecimentos de Rebirth com os de Crise Infinita, então já passamos do ponto onde a série principal deveria ter ocorrido. Nós já tivemos a minissérie isolada, o prelúdio e o one-shot. Ainda teremos outro ano antes do início da série principal. E se isso é para ser o pico de atividade, com as cortinas finalmente sendo erguidas e as respostas sendo respondidas, então a DC Comics não pode ficar acomodada até lá.

Porém, não podemos nos esquecer que Crise de Identidade não foi feita da mesma forma como é feita os crossovers convencionais. Ela foi publicada como um esforço da editora para chegar ao público não-leitor de quadrinhos usando uma trama envolvendo mistério. Crise de Identidade apenas se cruzou com as séries vigentes da época talvez devido à DC Comics não ter feito um crossover envolvendo toda a linha de personagens por um bom tempo. Portanto, o hype por Crise Infinita atingiu o mercado de quadrinhos em um momento em que ele não estava saturado de tal situação.

O problema foi que o sucesso de Crise Infinita e 52 convenceu a DC Comics que ela poderia continuar indo nessa direção, de modo que, nos próximos anos, o fez. Ironicamente, os excessos corporativos de Contagem Regressiva vieram no hype da Crise Final de Grant Morrison; e o sucesso de A Noite Mais Densa era apenas um reflexo do trabalho de Geoff Johns com o universo do Lanterna Verde. O apelo praticamente universal de Rebirth talvez venha devido à similaridade dessas duas séries e não tanto pelos seus mistérios. Se isso é verdade, a real tarefa da DC Comics daqui pra frente será orientar esse apelo coletivo para um antecipado final de Rebirth.

Mas sim, o Ciclo de Crises foi responsável por grandes realizações. Ele trouxe de volta a glória dos grandes eventos para a DC Comics, reiniciou o Multiverso, causou o relançamento de toda a linha de títulos da editora, conduzidos principalmente por conceitos construídos por escritores como Mark WaidKurt Busiek, Greg Rucka Paul Dini, além do próprio Johns e de Grant Morrison. 52 também mostrou que os leitores aceitariam uma minissérie semanal, embora Contagem Regressiva sirva como lição de que essa receita nem sempre funciona.

Mas nem tudo são flores. No lado negativo podemos citar que o Ciclo das Crises promoveu um clima de mudança perpetua – por exemplo, o sumiço de Wally West (e a saída de Mark Waid da DC) – juntamente com a quase certeza de alguma morte no final de cada evento. 52 transformou Ralph e Sue Dibny em detetives fantasmas; Contagem Regressiva caracterizou o fim apocalíptico da Terra-51 e a corrupção de Mary Marvel; A Noite Mais Densa foi inteiramente uma história sobre mortes, embora também possua uma série de ressuscitações de personagens como Max Lord e Capitão Bumerangue. Até mesmo O Dia Mais Claro, que supostamente deveria focar em restaurar a felicidade e a alegria, começa com a morte de um filhote de passarinho. O Ciclo das Crises não foi de todo mal, porém, gerou um tom sombrio que duraria por bastante tempo.

Acreditamos que isso seja a principal diferença entre o Ciclo das Crises e o período de dois anos do Rebirth. Não se trata apenas da criação de um grande evento e de sua conclusão, mas sim sobre até onde os efeitos negativos dos grandes eventos devem influenciar o futuro. Rebirth talvez termine em 2018 e depois disso a DC Comics deve fazer as coisas voltarem ao normal, pois o Ciclo de Crise mostrou como essa atmosfera de eventos gigantes atrás de eventos gigantes pode se tornar uma bola de neve fora de controle. Felizmente, Rebirth ainda tem muita lenha para queimar. A abordagem sutil vem funcionando bem até agora e a DC Comics deve se lembrar dessa eficácia antes de resolver sair explodindo tudo. Afinal, não se pode se dar o luxo de perder os leitores que trabalhou tanto para conseguir.

  • Neo

    Vocês são muito bons nos seus artigos.
    Uma coisa que eu percebo no Rebirth é que eles estão trabalhando primeiro nos personagens antes de “reiniciar” tudo. O Superman clássico foi trago de volta, a relação com os Titãs está sendo trabalhada, a volta de alguns relacionamentos. o especial de Rebirth parece que deixa claro como a DC vai trabalhar: “conserta” primeiro os personagens, traz o amor e o legado de volta e depois “consertem o universo”.

    • Concordo, antes de estruturar o Universo, eles tem que se estruturartem de volta

  • O Homem do QI200

    É por isso que gosto desse site, aqui é um site notícia úteis e artigos de qualidade.

  • Deco

    E como Fim dos Tempos e Multiversity se encaixam neste esquema? Quando li Multiversity achei a história meio solta e até hoje não entendi como Fim dos Tempos se encaixa na cronologia atual da DC

    • Não se encaixam, na verdade. Multiversity foi uma história fechada que serviu para deixar uma base para outros roteiristas explorarem o Multiverso – como foi feito com o Superman no arco Multiplicity e no primeiro arco de Liga da Justiça da América. Fim dos Tempos tecnicamente eles esqueceram que foi feito, porque a história, além de ter um desfecho que não faz sentido, levou de nada a lugar nenhum.