Como Gotham Girl salvou o Batman

Na página final de Batman #24, Bruce Wayne tira o capuz, fica de joelhos e pede a Mulher-Gato em casamento. A proposta vem com um anel de diamante que ele a pegou roubando na noite em que eles se conheceram. Sua oferta de casamento muda toda a dinâmica entre eles que é representada nos quadrinhos desde a primeira edição de Batman em 1940, e ameaça resolver o romance que ronda a Gata e o Morcego há décadas.

Mas o que levou Bruce Wayne a finalmente considerar isso? Selina é indiscutivelmente a mulher viva mais importante em sua vida. Como ele, ela é uma criatura da noite que perambula pelos terraços de Gotham, um humano que usa a inteligência, tecnologia e habilidades físicas. Ela não é uma meta-humana, e apesar de seu relacionamento obscuro com a lei, ela é o que ele tem de mais próximo de um semelhante em Gotham City, e talvez um dos poucos parceiros românticos adequados no mundo.

Então, o que o impedia?

O atual roteirista de Batman, Tom King, passou o primeiro ano de seu run respondendo a essa questão, com a primeira edição quase tirando o Cavaleiro das Trevas de jogo. Ao andar por cima de um avião atingido por um míssil, Batman o dirigiu em direção o Golfo de Blackgate no rio Gotham. Anexando os jatos, ativados remotamente por Alfred, ele guiou o avião até um pouso na água, sabendo muito bem que o impacto o mataria – uma perda aceitável desde que isso significasse que os passageiros no avião sobreviveriam.

Seguro de que estava enfrentando a morte certa, como um dedicado pai de família, Bruce comunica Alfred dizendo que ele havia deixado mensagens para os “meninos” (os vários Robins, Dick Grayson, Tim Drake, Jason Todd e seu próprio filho, Damian Wayne) enquanto também sugeria que seu atual protegido, Duke Thomas, continuaria seu treinamento com o Asa Noturna. Mas o momento mais doloroso foi quando ele faz uma pergunta a Alfred, o homem que o criou desde os dez anos: “Eles… Meu pai e minha mãe… Estariam orgulhosos? Essa é uma boa morte?”.

Esse é o ponto culminante de King na série do Batman. É também o que define o Homem Morcego. Bruce Wayne pode ser o chefe da Bat-família, porém tudo que ele faz é baseado em seu relacionamento com seus falecidos pais. Apesar da capa, dos equipamentos e de suas impressionantes habilidades em artes marciais, Batman é severamente traumatizado desde seus dez anos de idade quando ele testemunhou o assassinato de seus pais em um beco.

O Batman de Tom King tem um relacionamento tênue com os vivos porque está obcecado com os mortos. Mais precisamente, ele está obcecado com a própria morte. Como King revelou em Batman #12, o jovem Bruce Wayne, destruído pela perda de seus pais e não conseguindo mais ver felicidade e sentido na vida, tentou se matar. “Eu sentia dor”, ele escreve para Selina. “Isso é tudo que eu sentia… E do que vale a dor? Do que vale sentir apenas dor… Talvez ela não sirva para nada”. O jovem Bruce caiu de joelhos, mas ninguém respondeu suas orações e, em um momento de angústia e puro niilismo, ele jurou uma guerra contra todos os criminosos. “É a escolha de um menino, a escolha de morrer”.

“Eu sou o Batman, eu sou suicida”. Com estas palavras, King reescreveu a história de origem do Cavaleiro das Trevas e a carreira de combate ao crime de Bruce Wayne tornou-se um prolongado ato de autodestruição. Sua relação com Selina Kyle também foi reformulada à imagem de suas tendências destrutivas: “Quando nos beijamos, a dor desaparece. Porque, por um momento, compartilhamos nossas mortes”.

Assim definidos, seu romance, suas patrulhas noturnas e a aliança contra Bane são pouco mais do que um pacto de suicídio. Ao prometer liberá-la, ele escreve: “Vamos colocar nossas máscaras, e juntos, finalmente, vamos rir, rir e rir”. Ele está se referindo à sua crença de que seus pais se ririam de suas “travessuras disfarçadas”, mas suas palavras também sugerem que talvez eles sejam estranhos um para o outro, unidos por pouco mais do que suas dores.

Remover o capuz para propô-la em casamento sugere que Bruce está pronto para ir além de sua dor. Ele está seguindo o conselho de seu pai – a quem ele encontrou enquanto viajava pelo Hipertempo com o Flash – que o disse: “Não seja o Batman. Encontre felicidade”. Mas ele só conseguiu atender ao chamado da felicidade agora que ele já salvou Gotham Girl sequestrando o Pirata Psíquico e o forçando a reverter o medo que ele havia infligido sobre ela. Isso levou a seu confronto com Bane, em Batman #20.

Quando ele deu o golpe final no brutamonte, ele gritou para Bane: “Eu sou o Batman”. Ele então conclui com um monólogo imaginário junto de sua mãe, que respondeu a pergunta que ele havia feito a Alfred quando ele enfrentava a morte súbita em cima do avião. “Você não precisa de uma boa morte para eu me orgulhar de você”.

Ao salvar Gotham Girl, Bruce Wayne não só libertou-se de décadas de dor, mas também pagou uma dívida: era Gotham Girl ao lado de seu irmão Gotham, que salvaram Batman da morte enquanto dirigia o avião para um pouso seguro na água.

Inspirado por Batman, Claire Clover e seu irmão Henry decidiram se tornar super-heróis, negociando seus anos de vida em troca de superpoderes, habilidades meta-humanas que, quanto mais usavam, mais curtas suas vidas se tornavam – uma verdadeira trapaça. Após Henry ter sido tomado por uma fúria assassina causada pelo Pirata Psíquico, Claire teve que matá-lo para impedir que ele assassinasse Batman. Isso e a intromissão do Pirata Psíquico em suas emoções a levaram a entrar em um péssimo estado de pânico constante.

Salvar Claire forneceu a Bruce um caminho para a redenção, e, a dando de volta sua vida – também ajudando ela a aprender a ser uma heroína sem usar seus poderes – ele também conseguiu de volta a sua. À luz do dia, em cima de um arranha-céu, a conversa de ambos em Batman #24 ecoa os diálogos imaginados com sua mãe. Batman teve que admitir que estar com medo o manteve são, mas também o impediu de ser feliz. Então ela o fez uma pergunta que ele nunca se havia feito: “O que você quer fazer?”.

O órfão ferido e o chefe da Bat-família que travou  guerra contra o crime como um elaborado ato de negação, que orientou muitos jovens heróis, e que agora está criando seu próprio filho, finalmente faz as pazes com seus pais e se afasta do seu desejo de morte. Pela primeira vez em sua vida, Bruce Wayne não é uma vítima de seu passado; em vez disso, ele o está abraçando, junto com seus medos.

E qual melhor maneira de abraçar o passado do que oferecer à Selina Kyle um anel de diamante que ele recuperou dela em seu primeiro encontro? Mulher-Gato insiste que eles se encontraram na rua, uma origem que faz referência ao enredo de Batman: Ano Um, de Frank Miller e David Mazzucchelli em 1987. Embora ela inicialmente insista em sua versão dos fatos, sua surpresa com a revelação de que ele comprou o diamante que ela roubou e que manteve isso durante todos esses anos, sugere que é verdade como eles se conheceram.

Isso é um retcon? Uma evidência de que houveram mudanças no Multiverso? Ou é simplesmente o modo de King de dizer que sua fase escrevendo o herói, que nos deu uma perspectiva completamente nova do Batman, indiretamente traz o Cavaleiro das Trevas de volta às suas raízes?

Quanto à resposta de Selina, os leitores terão de esperar até a conclusão de The War of Jokes and Riddles, antes de descobrir se ela aceitará a proposta de Bruce.

  • O Homem do Amanha (Terra 22)

    Espero que a Selina aceite

  • O Homem do QI200

    É por isso que estava com sdds das notícias desse site, por causa desse texto com alta qualidade. Tom King tá cuidando com carinho essa solo do Batman, o caminho feito até o pedido de casamento foi muito bem construído e a conversa entre o Morcego e a Gotham Girl sobre ela ser uma heroína ou não e sobre o Batman procurar ao menos fazer o que ele deseja foi muito bom.

    • Neo

      Essa fase tem que ter na minha estante. Mas vou esperar os encadernados kk.

      • O Homem do QI200

        Ih man, nem tudo vai sair encadernado mano, que ver? Tipo a do Batman, aposto que só vai sair algo do The Button, e Eu Sou bane, do Super, Do Erradicador, Multiplicidade, Superman Reborn e talvez Aurora Negra e assim em diante.

      • Neo

        Não agora, mas acredito que futuramente vai sair. Não dá pra comprar as mensais não…

  • Eduardo Faria Guimarães

    Digo e repito,Batman é um dos melhores se não o melhor título do Renascimento.