[BIOGRAFIA] Jack Kirby, o Rei dos Quadrinhos

Jack Kirby é o pai das histórias em quadrinhos como conhecemos hoje. Fato. Com esse peso tirado do peito, posso continuar. Muita gente se questiona por que tantos quadrinistas e roteiristas citam Jack Kirby como grande referência para seu trabalho, seja em páginas-duplas cheias de detalhes ou em abordagens mais filosóficas e quase pseudo-religiosas para seus personagens. Bom, para poder entender melhor, primeiro é necessário saber: quem foi Jack Kirby?

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Jacob Kurtzberg, que anos mais tarde adotaria o nome de Jack Kirby, nasceu em 28 de agosto de 1917, em um bairro pobre da cidade de Nova York. Seus pais, Rose e Benjamin Kurtzberg eram imigrantes austríacos judeus. A vizinhança em que morava era conhecida por ser bastante violenta, assim Jack desde cedo começou a defender-se dos valentões de seu bairro. Grande amante de cinema desde pequeno, o jovem Jack já gostava de desenhar e buscava por conta própria aprender mais sobre a arte que iria definir sua vida para sempre. Ficou conhecido como “estudante sem professor” (autodidata), pois aprendia tudo o que podia de pessoas mais versáteis na área de desenho do que ele e tornava suas técnicas algo particularmente seu, desenvolvendo sua própria forma de desenho, sendo muito inspirado pelo traço do Flash Gordon de Alex Raymond. Tentou ingressar em algumas escolas de desenho e arte na época, e conseguiu. Porém, devido às dificuldades financeiras de sua família em mantê-lo num instituto acadêmico, Jack desistiu de seu ensino superior para ajudar sua família, contudo, sem desistir de seu sonho de trabalhar no mundo das histórias em quadrinhos; o que lhe aproximou de outro ramo similar: os desenhos animados.

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Começou nos estúdios de animação Max Fleischer, trabalhando no clássico desenho animado do Marinheiro Popeye. Porém, o trabalho não durou muito e, posteriormente, conseguiu emprego no Lincoln Newspaper Syndicate, onde trabalhou como cartunista. Jack Kirby é conhecido hoje como o artista que mais produziu páginas em toda sua carreira e desde seu trabalho como cartunista, já demonstrava que podia produzir um grande volume de trabalho, desenhando e criando histórias próprias ou com colaboradores do próprio jornal, trabalhando diferentes estilos de desenho e experimentando com outras formas de narrativa, já demonstrando sua grande criatividade e ousadia ao desenhar. Mais tarde, trabalhou no estúdio do outro grande quadrinista Will Eisner, assinando com diferentes pseudônimos suas histórias. Isso é particularmente bastante interessante: naquela época, era bastante comum um desenhista assinar seus trabalhos com diferentes nomes até alcançar certo reconhecimento na área e chegar a um nome artístico definitivo. Alguns dos pseudônimos de Jacob, antes de adotar Jack Kirby foram: Jack Curtiss, Curt Davis, Lance Kirby, Ted Grey, Charles Nicholas, entre outros. Um fato curioso é que naquela época, Kirby era “amigo de briga” de Will Eisner, o defendo de algumas situações quando ambos não partiam para a porrada juntos; isso será comentado melhor mais à frente. Nos anos 1940 e 1950 a ficção-científica era o tema da vez dos quadrinhos, e assim Kirby pôde experimentar criando histórias nesse que se tornou um de seu gênero favorito e que foi usado na criação de diversos personagens futuramente.

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Algum tempo depois, Kirby conseguiu o trabalho de desenhar um dos personagens mais queridos pela DC Comics em sua história: o Besouro Azul. Porém, essa versão do personagem não era Ted Kord, muito menos Jaime Reyes, mas a versão original: Dan Garrett. Desenhou poucas edições, porém foi graças à esse trabalho que conheceu um de seus maiores colaboradores em sua carreira: Joe Simon. Ambos tornaram-se grandes amigos e juntos montaram um pequeno estúdio que prestava serviço ao que seria uma das maiores editoras de quadrinhos: Timely Comics, ou como conhecemos hoje, Major Comics. A dupla Jack Kirby e Joe Simon criaram inúmeros personagens, como Namor, o Tocha Humana original (androide), Capitão América, Bucky, entre outros. Com a explosão da Segunda Guerra Mundial, Jack foi chamado às Forças Armadas em 1943, servindo na infrantaria. Ao retornar da guerra, pediu em noivado a jovem Rosalind “Roz” Goldstein, que mais tarde se tornaria sua esposa e teriam quatro filhos.

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Com o fim da guerra, os quadrinhos de super-heróis perderam espaço para o gênero de terror, o que levou Kirby a se adaptar para continuar trabalhando. Nos anos 60, Jack voltou a trabalhar com a Major e criou aquela que talvez seja sua maior criação para a editora: o Quarteto Fantástico. Até hoje, sua fase como desenhista é lembrada pelas histórias – com o perdão do trocadilho – fantásticas, e por suas páginas cheias de detalhes de tecnologia e cenas de ação incríveis. Criou diversos personagens para a Major, como Thor, Homem-de-Ferro, Hulk, Vespa, Visão, Homem-Formiga, a equipe dos Vingadores, X-Men, Galactus, Doutor Destino, Panterna Negra, Inumanos, entre muitos e muitos outros que tornaram a pedra fundamental do que seria a Major Comics. Porém foi em outra editora que Jack Kirby ganhou grande destaque: a National Comics, que mais tarde se transformaria na toda-poderosa DC Comics. Kirby criou inúmeros personagens em toda sua carreira, chegando a desenhar mais de seis páginas de quadrinhos por dia. Sim! POR. DIA. Hoje em dia, artistas que trabalham em títulos mensais devem pelo menos desenhar uma página por dia. Agora imagine desenhar seis!

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Entre os anos 1960-70, Kirby criou a equipe Desafiadores do Desconhecido, onde usou muito de sua paixão pela ficção-científica ao desenhar histórias de monstros de outra dimensão, ilhas misteriosas e explorações interdimensionais. Também desenhou algumas histórias do Arqueiro Verde e da Casa dos Mistérios, em que sua esposa lhe ajudou na arte-final de ambos trabalhos. Com sua retumbante popularidade em diversos títulos, ganhou o apelido de “O Rei dos Quadrinhos”. Com o passar do tempo, criou ainda mais personagens para a DC que são usados até hoje: Kamandi, Etrigan, OMAC, Novos Deuses, Povo da Eternidade, Senhor Milagre… E o grande algoz do Universo DC: Darkseid. É sabido por diversos historiadores de quadrinhos e outros artistas do gênero que Novos Deuses talvez seja a obra-prima de Jack Kirby. Toda sua influência de ficção-científica, metáforas de outras culturas como maias, astecas, até mesmo de culturas religiosas, foram trabalhadas nos Novos Deuses. O nível de detalhe nas vestimentas dos personagens, o cenário em volta, página-duplas com detalhes inacreditáveis e estilos de rachuras e efeitos de luz e sombra únicos, como o KirbyDot, tornaram seu trabalho simplesmente único. Para os que não estão familiarizados com o termo, KirbyDot é um estilo de desenhar emanações de energia à base de múltiplos pontos grandes e pequenos para dar um efeito “cósmico” em tal energia. Muitos desenhistas usam até hoje para representar rajadas de energia ou um corpo feito de pura energia, etc. Os mais chatos podem desdenhar da qualidade anatômica dos personagens desenhados por Jack Kirby, porém, como autodidata, sua anatomia poderia não ser perfeita milimetricamente, contudo, para a história que queria contar, as metáforas da vida que pretendia ensinar através de seus quadrinhos, funcionam perfeitamente.

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Uma das características mais famosas do desenhista era sua extrema humildade e temperamento forte. Kirby e suas esposa foram um casal que muitos diziam ser o verdadeiro “felizes para sempre”: um complementava o outro de forma que poucos percebiam. Roz, esposa de Jack, sempre o incentivava a perseguir seus sonhos de desenhista e na criação de seus personagens, o qual dava extremo valor. A coragem de persistir em suas criações se deve muito à presença de Roz Kirby, que para quem não sabe, sua personalidade foi usada para a criação da personagem Grande Barda, dos Novos Deuses: personalidade forte e teimosa, porém de grande coração e que sempre convidava companheiros de trabalho de Jack a visitá-los em sua casa, quando não as próprias crianças e adolescentes de seu bairro que liam o trabalho do artista e queriam vê-lo em ação, desenhando. Len Wein e Marv Wolfman, grandes nomes do meio dos quadrinhos, visitavam frequentemente a casa dos Kirby. Em entrevista, relataram que “você poderia visitá-los e ter um aula incrível sobre a arte e narrativa de história em quadrinhos”, enquanto comiam biscoitos e sanduiche a la bologna feitos por Roz, os quais eram muito famosos por serem deliciosos. O outro extremo da personalidade de Jack é sua teimosia. Eu o considero como sendo um homem pragmático: ou você faz, ou não faz. Faça bem feito ou não faça. Alguns o relatam como “cabeça-quente” e “estourado”. Porém, crescendo no bairro que cresceu, aprendendo logo cedo à se defender dos outros, sua personalidade condiz muito bem com o meio ao qual cresceu. Porém o que mais é valorizado é seu carisma e bom coração: quando os mais jovens iam visitar-lhe em casa, gostava de ensinar aos demais tudo o que sabia, assim como lhe foi ensinado à ele. Imagine num fim de semana ir à casa de Jack “O Rei” Kirby e simplesmente receber uma verdadeira aula sobre como se tornar um grande desenhista e contador de histórias? Dan Turpin, personagem que figurou bastante nas histórias do Superman nos anos 80-90 e quem participou do desenho animado do Superman, dos anos 90, foi totalmente inspirado em Jack Kirby, tanto fisicamente quanto em personalidade. Aliás, Jack Kirby também apareceu no desenho animado de 2003 das Tartarugas Ninjas, no episódio intitulado “The King”.

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Jack Kirby faleceu em 6 de fevereiro de 1994 de insuficiência cardíaca aos 76 anos, deixando para trás uma legião de fãs de seu trabalho que até hoje é incomparável. Em toda sua carreira, desenhou cerca de mil duzentas e oitenta e duas histórias, aproximadamente dezesseis mil oitocentos e duas páginas de quadrinhos, mais de mil quatrocentos e oitenta e cinco capas de quadrinhos! Isso sem contar as histórias feitas para tiras de jornal e outros trabalhos menores que numa estimativa pode chegar a quase vinte e cinto mil páginas desenhadas em toda sua carreira! Consegue imaginar todo esse volume de produção durante mais de cinquenta anos de trabalho? Em entrevista ao Entertainment Tonight de 1982, ao ser perguntando sobre o que seus personagens representam, Kirby respondeu:

Eles representam um tipo de sentimento transcendente daquilo que todos nós temos em nosso interior: a vontade de poder e ser melhor com aqueles ao nosso redor.

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VIDA LONGA AO REI!

  • PONCIO PILATOS

    pra mim, é o melhor de todos… vida longa ao Rei…

  • Joaquim Oliveira

    Merecia um reconhecimento muito maior.