Análise d’Os Novos 52 – Vodu

Criada durante os anos 1990 por Brandon ChoiJim LeePriscilla Kitaen – também conhecida como Vodu (ou Voodoo, no original) – era uma das integrantes dos WildC.A.T.s., antigo grupo do universo da WildStorm que tinha o objetivo impedir uma raça alienígena conhecida como Demonita de conquistar a Terra. A WildStorm viria a ser comprada pela DC Comics em 1999, onde foi mantida separada do universo heroico da editora, e continuou sendo publicada como um selo da DC. Porém, em 2010, o selo foi encerrado e em 2011 foi integrado ao Universo DC após os eventos de Flashpoint.

Originalmente, Vodu era uma dançarina erótica capaz de ver humanos possuídos por Demonitas. Ao longo de suas aventuras, ela recebe treinamento em artes marciais e descobre poderes como metamorfose e telepatia. Com o passar do tempo, ela descobre que possuía genes Demonitas em seu corpo, vindos de um antepassado que fora possuído por um membro da raça alienígena. Além de figurar na revista dos WildC.A.T.s., Vodu recebeu uma minissérie própria escrita por Alan Moore, que aprofundou o passado e as origens da personagem.

Durante o reboot d’Os Novos 52, alguns personagens da WildStorm migraram para o Universo DC e ganharam revistas mensais. Vodu foi escrita inicialmente por Ron Marz (edições #1-4) e teve uma segunda e última fase escrita por Joshua Williamson (edições #5-12 e 0), com arte de Sami Basri, que figurou durante todas as edições. Por conta das vendas baixas, a revista foi cancelada na edição #0, após um ano de publicação.

A fase de Marz aborda uma nova origem para Vodu, que já surge como uma híbrida humana-Demonita. Ela trabalha em uma boate de striptease próxima à uma base militar, e tem o objetivo de coletar informações e aprender mais sobre a humanidade. Ela possui poderes de metamorfose e telepatia, mas para mudar de forma ela precisa entrar em contato com o alvo – muitas vezes de forma sexual – e agir rapidamente, já que sua transmutação possui um tempo de duração. Seu trabalho como stripper, além de facilitar seu contato físico com os militares, também a ajuda a passar despercebida.

Algo interessante e muito divertido que Marz acrescenta em seu roteiro é a dinâmica entre Vodu e suas colegas de trabalho, que possuem problemas reais como falta de dinheiro para pagar a faculdade ou as contas. É uma forma de humanizá-las e não tratá-las como simples personagens estereotipadas.

Conforme a história avança, Priscilla utiliza suas habilidades de forma cada vez mais astuta. O momento da invasão à base militar é pensada de forma inteligente e apresenta novos personagens já conhecidos pelos fãs da Wildstorm, como os Lâminas Negras. Aliada à excelente arte de Sami Basri, se torna um dos pontos altos do run.

Há uma aparição de Kyle Rayner – criação do próprio Marz – na terceira edição, pois o Lanterna detectou o envio de informações para o espaço. Pode parecer um detalhe bobo, mas considerando o fato da Terra ter Lanternas Verdes e não detectarem esse tipo de transmissão, seria no mínimo um descuido do roteiro e do editorial nessa fusão do Universo Wildstorm com o Universo DC.

Joshua Williamson assume o título a partir da quinta edição e começa a apresentar conceitos interessantes que expandem a mitologia dos Demonitas – como os interesses deles pela Terra e as cisões entre os seres que concordam e discordam do uso de híbridos. Williamson, por parte de retcon, modifica a origem de Vodu, colocando que a personagem que acompanhamos desde o início da série era uma clone de Priscilla Kitaen, que era uma humana que sofreu experimentos envolvendo DNA Demonita e que estava presa pelos Lâminas Negras.

Williamson acrescenta uma certa carga dramática à personagem, que agora precisa se adaptar à realidade de ser um clone. Mesmo irritada e desconfiada, ela começa a desenvolver uma profunda lealdade aos Demonitas, por acreditar fielmente em uma profecia. Com o tempo, ela é promovida nas fileiras militares dos Demonitas. Enquanto isso, a verdadeira Priscilla é libertada pelos Lâminas Negras, e por intermédio de Andrew Lincoln – comandante dos Lâminas e dos Falcões Negros -, ela se junta ao time.

A ideia do clone foi uma solução de roteiro para explicar a facilidade com que Vodu matava as pessoas. A DC não gostou dessa vibe violenta da personagem e a queria mais heroica. Colocar Vodu como um clone de Priscilla resolveu essa questão e criou uma linha de conflito interessante entre as duas personagens.

As últimas edições abordam o confronto final entre as duas e cada uma decide que caminho seguir. Enquanto Priscilla decide partir para ajudar o Bandoleiro e continuar a lutar contra os Demonitas, Vodu decide não ser mais utilizada por ninguém, concluindo que utilizaria seus poderes para fins próprios. O encerramento da série foi algo triste, pois vários conceitos que estavam sendo cozinhados para o futuro foram abortados subitamente.

Algo de grande destaque da revista é a sua arte. Sami Basri é detalhista e desenha os personagens da forma mais realista possível, sempre respeitando as proporções. É um artista que produz cenas de ação com bastante violência de forma extremamente competente e que coloca expressões faciais com perfeição nos personagens que desenha.

Apesar do começo lento realizado por Ron Marz, a revista ganhou fôlego com Joshua Williamson, que utilizou de elementos do antigo Universo Wildstorm para contar uma aventura inédita e apresentar uma personagem underground para novos leitores. É uma boa leitura que deveria ter durado mais.