Análise d’Os Novos 52 – Terra 2

Apesar de possuir um Multiverso rico em personagens, a DC Comics evitava utilizá-lo durante o início do reboot d’Os Novos 52. A experiência traumática ocorrida com Contagem Regressiva Para Crise Final e a desorganização editorial dentro da editora na época fez com que a Editora das Lendas colocasse seus heróis de outras Terras na geladeira. Para solucionar esse embargo e saciar os fãs, a DC Comics chamou James Robinson e Nicola Scott para assumir o comando de Terra 2, título que recontaria as histórias de uma reformulação da Sociedade da Justiça, em um novo universo.

Superman, Batman e Mulher-Maravilha pereceram ao tentar impedir uma invasão de Apokolips à Terra, liderada por Steppenwolf. Apesar do sacrifício da Trindade ter finalizado o ataque alienígena, o que sobreviveu na Terra-2 ficou fragilizado, e mesmo após anos do fim da invasão, o que temos é um mundo sem esperança, profundamente marcado pela guerra. Nesse contexto, somos apresentados à novas versões dos clássicos heróis da Sociedade da Justiça da América, que adquirem poderes e habilidades das formas mais inusitadas, porém no momento mais oportuno.

James Robinson nos entrega reformulações incríveis dos heróis da Era de Ouro. Tanto Jay Garrick – que recebe seus poderes das mãos do deus Mercúrio, se tornando o Flash – quanto Alan Scott – que adquire seus poderes após um acidente de trem e se torna o guardião da Terra, assumindo o título de Lanterna Verde – são personagens com uma profundidade invejável. O primeiro se tornou herói casualmente, e começou a utilizar seus poderes para superar as frustrações da sua vida; já o segundo nunca desejou ganhar poderes e se culpa constantemente por não ter conseguido salvar seu marido. Por ter trabalhado com a Sociedade da Justiça durante o começo dos anos 2000, Robinson sabe como subverter esses personagens, sem recorrer ao mote original da Sociedade, que envolvia a Segunda Guerra Mundial.

Jay e Alan acabam se tornando catalizadores para o surgimento de novos heróis nesse mundo. Moça-Gavião (Shiera Munoz-Sanders), assim como os outros, ressurge com uma origem completamente nova, se tornando peça fundamental para o restabelecimento do heroísmo na Terra-2. Apesar do grupo começar modesto, sutilmente Robinson nos reapresenta alguns personagens como Senhor Destino (Khalid Ben-Hassin), Esmaga Átomo (Albert Pratt), Senhos Incrível (Michael Holt), Sandman (Wesley Dodds)Capitão Gladio (Hank Heywood Jr.). Também conhecemos Fúria, a filha da Mulher-Maravilha e Terry Sloan, uma versão do Senhor Incrível original com traços de personalidade mais cínicos – uma espécie de Lex Luthor dessa Terra.

As ameaças enfrentadas pelas Maravilhas – como é chamada essa nova geração de heróis – variam desde Solomon Grundy à entidades mágicas egípcias. Mesmo não sendo vilões consagrados para os leitores casuais, são reformulações de antigos inimigos que a Sociedade da Justiça combatia durante a Era de Ouro dos quadrinhos. E mesmo cada arco inicial apresentando um novo vilão, uma grande trama envolvendo o retorno de Steppenwolf é costurada ao longo do título.

As coisas iam bem para Terra 2 até o editorial da DC Comics começar a exigir personagens na história para tornar o título mais atrativo aos novos leitores. Com isso, tivemos a inclusão do Batman (Thomas Wayne) na história. Com argumento adaptado do personagem de Flashpoint, James Robinson, mesmo a contragosto, tentou dar uma nova origem ao personagem. Mas era claro o nível de deslocamento desse Batman na história. Robinson se esforçou o máximo que pode, mas com as brigas editoriais se intensificando, o roteirista anunciou sua saída do título e da DC Comics.

James Robinson deixou Terra 2 em um momento de virada importante, e quem assumiu a revista no seu lugar foi Tom Taylor, que ganhou notoriedade na época por escrever os quadrinhos de Injustice. Apesar de continuar a história do ponto em que Robinson parou, muitas pontas soltas não foram amarradas, e até mesmo personagens outrora importantes desapareceram. Cumprindo as ordens do editorial, Taylor começou a tornar a Terra-2 mais familiar para um leitor casual.

Após a derrota de Steppenwolf, as Maravilhas agora precisam combater um Superman maligno que lidera as tropas de Apokolips e que deseja transformar a Terra-2 no novo reino de Darkseid. Temos um punhado de bons personagens apresentados, como Tornado Vermelho (receptáculo da consciência de Lois Lane), Aquawoman (Marella), Jimmy Olsen (nova versão do personagem inspirada no Baterista, de Planetary) e Val-Zod (um kryptoniano que foi capturado e criado em cativeiro pelo governo) – além do retorno de Caçadora e Poderosa para a Terra-2.  Mesmo sendo adesões incríveis para o time de heróis, Tom Taylor pesa muito a mão na escrita, e o ranço de Injustice escorre para Terra 2 por mais de dez edições com um Superman matando e destruindo tudo o que vê pela frente. O que vinha sendo uma revista de desenvolvimento lento e preciso se tornou uma corrida contra o tempo, com personagens sendo apresentados a torto e a direito sem nenhuma profundidade ou desenvolvimento. Até mesmo os protagonistas iniciais perdem espaço para as novas versões de Batman e Superman que surgiram.

Com um início primoroso, a qualidade da revista caiu exponencialmente a partir da fase de Tom Taylor. Não foi um trabalho medíocre que o roteirista apresentou, mas não chegou perto da proposta inicial do título. Mesmo com seus altos e baixos, Terra 2 se consolidou como uma das grandes revistas d’Os Novos 52, que reintroduziu novos personagens e apresentou novos heróis para o grande Multiverso DC.