Análise d’Os Novos 52 – Liga da Justiça da América

Durante Os Novos 52, a DC Comics buscou lançar e manter 52 revistas periódicas nas bancas americanas, seguindo uma estrita política editorial de “se não vende, é cancelado”. Tendo em vista isso, é bastante curioso – e contraditório – como o título da Liga da Justiça da América, escrito por Geoff Johns, tenha durado mais de seis meses, tamanha a mediocridade da maior parte das edições da revista. Lançada em abril de 2013 nos Estados Unidos, Liga da Justiça da América teve catorze edições, mais quatro especiais que formaram parte do Mês dos Vilões durante a saga Vilania Eterna, que recontavam a origem de determinados vilões da editora.

O primeiro arco, composto de cinco edições, chamado de Os Mais Perigosos do Mundo, desenhado por David Finch e Bret Booth, basicamente mostra Amanda Waller “pedindo” a Steve Trevor que lidere sua equipe de “resposta” à Liga da Justiça, sendo esta uma Liga que ela “pode controlar”. A visão de Waller deseja mais ter as rédeas da equipe do que praticamente causar algum bem no mundo. Algo que é várias vezes tocado no enredo é o impacto que Waller quer causar na mídia com “sua” Liga da Justiça da América, escolhendo a Sideral – uma queridinha da mídia e do público em geral – para ser o “rosto” da equipe para os meios televisivos, algo que a heroína desaprova completamente. Neste primeiro arco, o time é composto pelo Coronel Steve Trevor, Gavião Negro, Katana, Sideral, Mulher-Gato, Caçador de Marte, Vibro e “Lanterna Verde”. Por que as aspas no Lanterna Verde? Bom, o Lanterna em questão é Simon Baz, que havia causado bastante burburinho na revista do personagem título e, para aproveitar-se dessa “fama” e vender a revista, o herói estampou inúmeras capas da Liga América, sendo que só aparece de verdade na história na quinta edição.

Apesar de compor um time de personagens bastante interessante, como o próprio Vibro – que mais tarde ganhou revista solo – e a própria Katana, Johns não soube aproveitar de forma satisfatória os personagens, usando-os basicamente para cenas de porradaria em páginas duplas. A própria arte de David Finch e a colorização medonha pelas mãos de Sonia Oback e Jeromy Cox, que colore o Caçador de Marte como se fosse o Batman numa cena, não ajuda o leitor a se importar com a revista, muito menos com os personagens que ali figuram. A própria persona de Amanda Waller, que deveria ser a grande nêmese da equipe por manipulá-los para apenas cumprir seus objetivos obscuros, também não oferece ameaça real a ninguém, apesar do roteirista insistir em manter o papel de “vilã” para a personagem, que parece apenas não saber o que está fazendo ali com seu Esquadrão Suicida genérico.O grande destaque da revista é o Caçador de Marte, que teve histórias backups publicadas no final da revista, onde recebeu maior profundidade e inclusive uma nova origem, pelas mãos do roteirista Matt Kindt. Bastante talentoso, o autor consegue desenvolver muito bem o personagem em poucas páginas e sem encher os quadros com muito texto. Foi a porta de entrada para a revista solo do personagem mais adiante, durante a fase DC You.

Apesar de um começo que parecia promissor envolvendo o Arqueiro Verde, Geoff Johns acaba usando a revista apenas para mostrar personagens que apenas seriam detalhados na grande saga da DC, Vilania Eterna, escrita pelo próprio Johns. Sendo assim, o grande vilão do primeiro arco, o Alfred da Terra-3, e seu plano de formar A Sociedade para trazer o Sindicato do Crime para a Terra Primordial, só seriam detalhados na saga em si. Durante cinco edições somos levados a apenas uma pífia história que visava apenas introduzir alguns pequenos personagens que iriam participar da saga da editora, que se desenvolve na edição#6 e #7, além de mais quatro especiais, que recontam as origens de Pistoleiro, Nevasca, Ladra das Sombras e Adão Negro – sendo a última uma desculpa pífia para ressuscitarem o personagem para o mesmo participar de Vilania Eterna.É bastante desanimador ver personagens que possuem muito potencial e que são menos conhecidos do público, como Vibro, Sideral e até o Doutor Luz, serem mal aproveitados durante o primeiro arco, perdendo a chance de conquistar uma nova geração de leitores que começou a ler quadrinhos durante Os Novos 52. É mais desanimador ainda isso ter vindo do próprio Geoff Johns, que escreveu tão bem a Sociedade da Justiça no começo dos anos 2000, lidando com personagens de legado numa equipe que misturava a antiga e a nova geração de heróis da época. Aqui, o autor não conseguiu nada além de um trabalho medíocre e decepcionante, preocupando-se mais em deixar pontas soltas para a história que realmente queria escrever do que conciliando o desenvolvimento dos personagens e o andar da trama.

Com Johns escrevendo o evento principal, coube a Matt Kindt assumir de vez os roteiros da revista e colocar a equipe nos eixos. O roteirista colocou o Caçador de Marte de vez nos holofotes, tornando o marciano o personagem principal do time, estabelecendo uma relação de mentor-aprendiz com Sideral. A Sideral também ganha destaque durante a nova fase da equipe. Diferente de Johns – que trabalhou a personagem que ele mesmo criou nos anos 2000 de forma superficial -, Kindt consegue dar profundidade para Courtney Whitmore, que apesar de ser uma super-heroína e possuir um bastão cósmico capaz de pulverizar estrelas, ainda é uma adolescente de dezoito anos que precisa aprender sobre a importância de ser uma heroína.

O segundo arco da revista, composto pelas edições #8 à #14 mostra a Liga América vivendo um “pesadelo vivo” dentro da Matrix Nuclear, junto com todos os outros heróis da Terra, conforme mostrado nos títulos principais de Vilania Eterna. Aqui, apenas Caçador de Marte e Sideral tomam consciência de que estão presos e partem para libertar os demais heróis. É muito interessante como Kindt soube escrever muito bem os heróis; por exemplo: na prisão de Superman, o herói – que sentia uma culpa ferrenha por haver matado o Doutor Luz em Vilania Eterna –  tenta voltar no tempo girando a Terra ao contrário, referenciando ao primeiro filme do Homem de Aço, estrelado por Christopher Reeve. Sem contar as prisões vivas dos demais heróis; Shazam passa o dia todo destruindo prédios e robôs gigantes ao seu bem prazer, Mulher-Maravilha combate hordas e mais hordas de inimigos que tentam invadir Themyscira sem descanso e por aí vai.Vale ressaltar que essas edições de Kindt são visualmente muito melhores que as do run anterior – desenhado por David Finch e Brett Booth -, contando com ótimos desenhos de Eddy Barrows, Doug Mahnke, Tom Derenick, R. B. Silva e Diogenes Neves. O final da última edição dá um gancho generoso para a revista que seria a sucessora espiritual da Liga da Justiça da América, que é a Liga da Justiça Unida.

O saldo final de todas as catorze edições é deveras agridoce. Se você é do tipo de fã que desiste facilmente de uma revista sem ter em vista que pode ficar bom, deixaria de lado Liga da Justiça da América facilmente. O salto de qualidade do material é imenso no segundo arco, se você começar a ler por ali, não vai perder nada, pelo contrário, verá que existiu coisas boas, como Sideral e Caçador de Marte ganhando seus merecidos destaques. No final, Matt Kindt conseguiu triunfar onde Geoff Johns falhou, contudo, leia por sua conta em risco.

  • O Homem do QI200

    Confesso que só li essa HQ por causa da Sideral, que é minha segunda heroína favorita desde que ela entrou pra SJA e pelo Caçador de Marte.

    • Murilo Fernando

      Também conferi mais pela Sideral, infelizmente ela só ganhou destaque lá pelo final da revista.

    • Neo

      Eu ainda tenho que ler.