Análise d’Os Novos 52 – Lanternas Vermelhos

A Tropa dos Lanternas Vermelhos conseguiu chamar bastante atenção por conta de seu espectro emocional: a ira. Debutar nas últimas página de Guerra dos Anéis foi o suficiente para capturar a curiosidade dos fãs e mostrar que algo grande estava a caminho. Apesar de ganhar maior destaque posteriormente, a Tropa Vermelha nunca figurou um título solo. Então, como dar profundida à uma Tropa superficial cujo objetivo principal é morte e vingança? Esse foi o desafio dado ao escritor britânico Peter Milligan e ao artista brasileiro Ed Benes.

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Publicada entre novembro de 2011 e maio de 2015, Lanternas Vermelhos alcançou 40 edições, uma edição #0, um anual e um tie-in do evento Fim dos Tempos, ganhando bastante destaque logo no começo da iniciativa d’Os Novos 52. É bastante curioso que a revista tenha durado tanto com personagens razoavelmente desconhecidos do grande público. Mas é incontestável que, independente do material publicado, conseguiu capturar a atenção de uma boa parcela de leitores de quadrinhos. Peter Milligan já é um autor veterano da DC Comics, e foi dado à ele a tarefa de fazer um título da Tropa dos Lanternas Vermelhos que conseguisse se sustentar. A missão foi cumprida, mas com muitas ressalvas.

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As doze primeiras edições da revista são muito irregulares. É notável que Milligan tinha por objetivo dar maior profundidade não apenas aos membros da Tropa, mas ao seu líder, o “profeta” Atrocitus. No começo da revista, Atrocitus tornou-se bastante diferente da versão conhecida anteriormente, buscando um maior significado para a existência de sua Tropa. Apesar da boa intenção, a revista torna-se bastante monótona sendo conduzida apenas por cenas de ação gratuitamente violentas. Há subtramas envolvendo um maior desenvolvimento de outros personagens, como Bleez, Ratchet, Zilius e Skallox – todos tendo suas origens recontadas -, mas não são o suficiente para realmente ter algum valor na revista. A trama envolvendo Abysmus – uma das primeiras tentativas de Lanterna Vermelho criado por Atrocitus – não empolga, tornando-se entediante e levando à eventos mais absurdos ainda, como a completamente jogada batalha entre Atrocitus e Dex-Starr contra o Stormwatch. Mesmo a subtrama envolvendo a infecção da Bateria Central dos Lanternas Vermelhos e sua aparente morte – puxando no final uma solução completamente deus ex machina – acabam por encerrar o primeiro ano da revista de forma bastante triste e sem muitas esperanças de melhora.

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A edição #0 mostra a origem de Atrocitus e de sua Tropa, envolvendo os seres demoníacos chamados Inversões, que são um aspecto interessante da mitologia dos Lanternas Vermelhos, já que seu poder não proveem apenas do espectro emocional, mas também de uma magia antiga do Universo. Magia esta que Atrocitus aprende e descobre poder realizar um ritual místico utilizando sangue para vislumbrar segredos do universo, sejam aspectos do futuro ou do passado. Sendo britânico, Milligan aproveita para dar aos Lanternas Vermelhos um novo personagem -humano e britânico como o autor – chamado Rankorr, que o autor confere bastante destaque na revista, principalmente em seus questionamentos sobre o que é ser um Lanterna Vermelho e o que isso representa para o universo. Bleez também possui maior destaque, atuando como segundo em comando da Tropa, gerando desconfianças em Atrocitus de um possível golpe na cadeia de comando. Contudo, apesar das boas intenções, o roteiro não explora devidamente esses pontos, prezando as grandes batalhas  com a arte suja e escura de Miguel Sepulveda, dando um toque mais brutal para a Tropa dos Lanternas Vermelhos.

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Nas oito edições seguintes que lhe restam, Milligan teve que se adequar aos crossovers A Ascensão do Terceiro Exército e Fúria do Primeiro Lanterna. O autor constrói uma trama envolvendo Atrocitus reprogramando os Caçadores Cósmicos responsáveis pela destruição de seu planeta para atacar Oa e destruir os Guardiões do Universo. Apesar de forçado, a intenção em mostrar Atrocitus disposto a tudo por sua vingança, até mesmo sacrificar a própria família viajando no tempo foi muito boa, com um futuro alternativo em que ele acabaria passando de libertador à um déspota em seu planeta, com um fim deveras amargo.

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A partir da edição #21, o escritor americano Charles Soule assuma a revista, ao lado do desenhista italiano Alessandro Vitti. A edição de estreia de Soule está diretamente ligada com o arco O Fim da Luz, da revista do Lanterna Verde, no qual o vilão Relíquia se revela como antagonista. Temendo pela destruição da Tropa dos Lanternas Verdes, Hal Jordan envia Guy Gardner – que já havia sido Lanterna Vermelho – como um agente infiltrado na Tropa de Atrocitus para saber sobre seus planos de conspiração contra os Lanternas Verdes. Mas o que Jordan não sabe é que na verdade Guy partiu pra missão sem nenhuma intenção de voltar. Assim que Gardner vai até Ysmault, ele derrota Atrocitus e se torna o novo líder da Tropa dos Lanternas Vermelhos.

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A forçada de barra escrita por Soule gerou bastante polêmica entre os leitores, principalmente com a forma ridiculamente fácil na qual Guy derrotou Atrocitus e assumiu seu lugar de líder dos Vermelhos. Era clara a intenção do autor em mudar o status quo da revista. A verdade é que com Gardner no comando, a revista ganha um novo fôlego, trabalhando melhor os personagens, que deixaram de ser completamente irracionais e só pensar em morte. Nasceu um novo relacionamento entre eles, que começaram a agir como um grupo. Méritos a Soule por questionar coisas básicas, por exemplo, onde os Vermelhos dormem se em Ysmault não existe camas. Genial.

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Conseguindo conquistar a confiança da Tropa Vermelha, temos uma virada de jogo muito esperta desenvolvida por Soule: em troca de fornecer seu apoio na luta contra Relíquia, Guy exige de Hal Jordan a autonomia de proteger o setor 2814, a Terra. Desesperado e sem saída, Jordan acaba aceitando. Os lanternas Zilius e Skallox viajam pelo planeta, conhecendo cidades e arrumando vários problemas. Falando em problemas, um deles tem a ver com uma certa Filha Vermelha de Krypton.

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Supergirl acaba recebendo um anel da Tropa dos Lanternas Vermelhos e causando vários problemas, principalmente para os Lanternas Verdes e Vermelhos. Com a chegada na equipe, Supergirl acaba se adaptando bem, com Guy e os demais membros, especialmente Bleez, aconselhando-a sobre sua nova condição e como lidar com sua ira interior. Nota-se um desenvolvimento muito grande dos personagens se comparado à fase de Milligan, além de cenas engraçadíssimas, como os Lanternas Zilius e Skallox convidando Kara para tomar cerveja no bar da nave-sede da Tropa.

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O grande evento dá-se pela volta de Atrocitus – que conseguiu criar milhares de novos anéis e jogá-los universo afora – com uma força gigantesca de Lanternas Vermelhos recém recrutados na Terra. Há um jogo de gato e rato entre Atrocitus e Guy, com um sabotando os planos do outro até gerar um confronto decisivo, com direito a sacrifícios de membros do time de Guy durante a luta final contra Atrocitus. A resolução final é tão forçada quanto o começo do run de Soule, além de solucionar os problemas de maneira bastante rápida e até anti-climática. O nível de desfecho épico ia aumentando em cada edição, mas no final, acabou sendo bastante medíocre.

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Com o evento Guerra dos Deuses acontecendo nas revistas da linha Lanterna Verde, Charles Soule teve que se adaptar à proposta e conseguiu desenvolver suas últimas três edições de forma bastante satisfatória, principalmente na inesperada amizade entre Simon Baz e Guy Gardner. Os dois formariam quase que a dupla que só viríamos a conhecer no Rebirth da DC Comics, no título Lanternas Verdes. A improvável dupla tem uma ótima química enquanto enfrentam os lacaios do Pai Celestial que estão roubando anéis das Tropas do espectro emocional. Seria muito bem-vindo que esse time durasse mais tempo, mas com a saída de Soule na edição #37, Landry Q. Walker assume o título, trazendo um desfecho bastante inesperado.

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Com o fim da batalha contra Atrocitus, Guy vaga pela Terra eliminando os resquícios do poder dos Lanternas Vermelhos que transforma pessoas comuns em seres extremamente violentos e irracionais. A trama gira apenas em Guy, fazendo as pazes com Gelo, já vislumbrando um futuro sacrifício para impedir que a Terra seja infestada pelo espectro emocional da ira. Seria um desfecho nobre para o personagem, apesar do roteiro sumariamente dispensar tanto a aparição do resto da Tropa quanto dos demais heróis do Universo DC para enfrentar algo tão cataclísmico. E no final, temos o vislumbre de um Guy Gardner mais esperançoso, que seria abordado mais tarde no tie-in de Fim dos Tempos, com o herói se tornando um Lanterna Azul. Bastante potencial, porém, não durou mais de uma edição.

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Lanternas Vermelhos foi uma verdadeira montanha-russa de altos e baixos. Começou de forma bastante dispensável até ganhar seu destaque através de um roteiro fora da proposta inicial do título. Para os fãs do universo Lanterna Verde, é um leitura que pode divertir em certos momentos pelas cenas de ação sanguinolentas e vômitos de napalm pra todos os lados e que ganha o leitor pela dinâmica do grupo, além de dar um sentido para a própria existência da Tropa. Pena que demora muito para as coisas engrenarem. Leia por sua conta em risco.

  • Werly Pires

    O Rebirth parece que ignorou essa revista.