Análise d’Os Novos 52 – Lanterna Verde: Novos Guardiões

Escrever uma revista de equipe é bastante complicado. É necessário bastante cuidado para que os personagens sejam equilibrados e que todos tenham seu momento de destaque, sem protagonismo exclusivo de um único personagem. Para o leitor, o elemento-chave para que uma revista em quadrinhos de equipe funcione é a dinâmica do grupo: como os personagens se relacionam e o que os fazem funcionar como um grupo. É exatamente isso que vemos no primeiro arco de Lanterna Verde: Novos Guardiões, escrito por Tony Bedard e desenhado por Tyler Kirkham.

Publicada entre novembro de 2011 e maio de 2015, a revista contou com 40 edições, dois anuais, uma edição #0 e um tie-in do evento Fim dos Tempos. Bedard ficou a cargo da revista até a edição #20, com o escritor Justin Jordan assumindo a partir da edição #21 até o cancelamento da revista na edição #40. As doze primeiras edições focam no desenvolvimento do Lanterna Verde Kyle Rayner, Lantera Azul Santo Andarilho, Lanterna Amarelo Arkillo, Safira Estrela Fatalidade, Lanterna Vermelho Bleez, Lanterna Índigo Munk e até mesmo o Lanterna Laranja Glomulus. Apesar dessa versatilidade de Lanternas, é notável que Kyle Rayner tem maior destaque, principalmente por ser o catalisador da trama inicial. A primeira edição já começa com Kyle sendo recrutado ao mesmo tempo para todas as Tropas de Lanternas, fazendo com que membros específicos dessas Tropas venham ao seu encalço na Terra em busca dos anéis “roubados”, que simplesmente abandonaram seus donos. Pode parecer um início deveras forçado, onde temos Kyle usando os anéis de todas as Tropas e perdendo o controle ante o poder de lidar com tantos espectros emocionais de uma só vez. Contudo, essa é a deixa para algo que só seria retomado na edição #0 e que iria gerar um dos melhores arcos já feitos com o personagem nos últimos anos.

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Em meio à brigas com o Agente Laranja Larfleeze, o anjo celestial renegado Invictus e até mesmo uma invasão ao mundo dos Lanternas Azuis pelos conquistadores espaciais conhecidos como Expansão, os personagens vão se conhecendo e desenvolvendo uma relação – por mais conturbada que seja. Santo Andarilho e Arkillo formam uma dupla deveras inesperada, que acaba por completar um ao outro. Aqui, Arkillo ainda estava com a língua pendurada por um colar no pescoço – arrancada por Mongul durante um arco da Tropa dos Lanternas Verdes pré-Flashpoint – e estava sem a capacidade de falar. Graças à bondade do Santo Andarilho, o Lanterna Amarelo pôde voltar a se comunicar e desenvolve um relacionamento de respeito mútuo com o Lanterna Azul. Fatalidade e o Lanterna Índigo Munk são outros que ganham certo destaque na revista, principalmente pelo amor impossível entre a Safira Estrela e o Lanterna Verde John Stewart. Munk, apesar de calado, possui a habilidade da Trigo Índigo de canalizar os espectros emocionais das demais Tropas, entendendo o conflito pelo qual Fatalidade passa. Ambos se complementam, porém sem segundas intenções. Já Kyle e Glomulus formam uma bela dupla cômica, com o pequeno ser arredondado desenvolvendo uma relação de amizade profunda pelo Lanterna Verde desenhista, a ponto de mais adiante se sacrificar para salvá-lo. Bleez acaba se tornando o membro renegado da equipe, atuando por conta própria, mas quando é necessário, se une ao time.

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A partir da edição #0 vemos a grande trama de Bedard tomar forma. Diretamente ligada com os eventos contados no arco A Ascensão do Terceiro Exército, da revista do Lanterna Verde, a Terra está em meio à invasão de seres irracionais criados pelos Guardiões do Universo em sua última tentativa de trazer a ordem à galáxia. Com isso, a dinâmica da revista muda e os protagonistas derradeiros se tornam Kyle e a Safira Estrela Carol Ferris. Após uma luta contra um exército de zumbis invocados pelo Mão Negra, os dois percebem que Hal Jordan morreu sob circunstâncias misteriosas e num lapso de raiva, Carol mostra para Kyle o seu futuro, no qual ele dominaria todos os espectros emocionais e se tornaria algo mais. A partir dessa busca pelo poder de trazer Jordan de volta, os dois partem para treinar com Atrocitus, líder da Tropa dos Lanternas Vermelhos. Kyle aprende a despertar sua raiva interior e deixar seus medos fluírem. O roteiro é trabalhado de forma que não apenas Kyle muda conforme domina os espectros emocionais, mas também Carol ao perceber que Hal tinha razão ao dizer que o jovem desenhista era especial – o que, aos poucos, desperta na Safira Estrela um novo sentimento, até então inexistente.

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Na passagem pelo planeta das Safiras Estrela, Zamaron, vemos um flashback do passado até então pouquíssimo explorado do personagem, quando foi abandonado por seu pai, vivendo apenas com a mãe. Também é mostrado alguns momentos igualmente tocantes, quando Kyle e a Tropa fazem uma festa de aniversário surpresa para o Guardião do Universo Ganthet. Ambos personagens possuem um forte laço de amizade, com Kyle vendo a Ganthet mais como a figura paterna que nunca teve. Isso, vale ressaltar, foi desenvolvido durante toda a trajetória de Kyle desde sua criação em 1994 pelas mãos de Ron Marz, Bill Willingham e Darryl Banks. Durante Os Novos 52, a origem do personagem – rapidamente mostrada na edição #1 – permaneceu a mesma, bem como sua relação paternal com Ganthet. Portanto, quando Kyle descobre que o Guardião foi lobotomizado e desprovido de todas as suas emoções pelos demais Guardiões, a busca do personagem pelo poder não é apenas para trazer Hal Jordan, mas também para salvar Ganthet.

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O confronto entre os dois se torna inevitável, com o Guardião caçando Kyle e seus Novos Guardiões, rastreando-os até Zamaron. O Lanterna Verde tenta trazer Ganthet de volta à razão, mas apenas acaba sendo mortalmente ferido. Num diálogo tocante, mostrando o conhecimento que Tony Bedard tem dos personagens em cena, Kyle explica ao Guardião os mais diferentes significados do amor, seja em perdoar aqueles tenham ferido ou magoado, ou até mesmo deixar ser amado novamente depois de perder alguém muito especial. E com essas palavras, Kyle finalmente desperta todo o seu potencial.

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Apesar do grande gancho que prometia desenvolver a história a partir de aí, a revista teve que se ajustar ao crossover com o arco Fúria do Primeiro Lanterna. Vale destacar que a arte do desenhista Aaron Kuder, que assumiu algumas edições depois da saída de Tyler Kirkham, são deslumbrantes durante o encontro de Volthoom – o Primeiro Lanterna – e Kyle. Muitos podem achar sua arte feia, mas é notável sua influência pelo renomado desenhista britânico Frank Quitely – de Grandes Astros Superman e The Multiversity: Pax Americana -, com páginas cheias de detalhes, mostrando que seu trabalho foi feito com dedicação e muita paciência.

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Bedard encerra sua participação na revista na edição #20 com uma história bastante reflexiva, em que Kyle, com a ajuda de Santo Andarilho, viaja pela Terra ponderando sobre seu papel no planeta e no universo como Lanterna Branco, resolvendo algumas situações durante o percurso. Percebe-se que o personagem cresceu muito desde o início do título, não apenas em poder, mas em auto-conhecimento, sabendo que suas limitações contribuíram para transformá-lo no homem que se tornou. A edição fecha com chave de ouro com os Guardiões Sayd e Ganthet observando o rapaz do espaço, orgulhosos de Kyle e intrigados com o que aguarda o Lanterna Branco no futuro.green-lantern-new-guardians-021-2013-digital-nahga-empire-10Justin Jordan assume as rédeas da revista contando com o artista Brad Walker na maioria das edições. Competente e com desenhos feitos com esmero num traço bastante particular, Walker desenha belas sequências, tanto de ação como em situações mundanas. Com Bedard entregando à Kyle um novo status quo, Jordan tinha bastante material para trabalhar. Logo no começo vemos o desenvolvimento do relacionamento entre o protagonista e Carol Ferris, desiludida por seu eterno namoro com Hal Jordan, que não avança para lugar nenhum. Com Hal voltando ao espaço para ajudar a reconstruir a Tropa dos Lanternas Verdes, as coisas só pioraram; e com Kyle, ela se sente inteira novamente. Aqui, Justin Jordan aproveita os ganchos dados durante as histórias de Bedard para trabalhar o relacionamento dos dois, passando de amizade para uma atração emocional, que leva ambos a se apaixonarem sem perceber. É um desenvolvimento simples de personagem, principalmente no momento em que Carol explica para Kyle o porquê dela gostar tanto de ser uma Safira Estrela e o que isso representa para ela.

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O escritor aproveita a dinâmica dos dois, mais os Guardiões Templários – irmãos dos falecidos Guardiões do Universo – para explorar o universo afora, ajudando o Lanterna Branco a entender toda a magnitude de seu poder e o seu papel no universo. Usando tal artifício, Jordan nos traz histórias bastante interessantes, como a de uma civilização alienígena que usava viagens no tempo. Porém o foco principal é um retcon feito em cima da mitologia dos Lanternas Verdes e de todas as Tropas, que seria mais aprofundado na própria revista do Lanterna Verde: o esgotamento do espectro emocional. Aqui, é dito que as entidades de cada tropa estão morrendo aos poucos e, por consequência, os anéis de seus portadores estão falhando, tornando-se cada vez mais fracos. Numa atitude desesperada, as entidades tomam posse do corpo de Kyle e decidem se sacrificar cruzando a Muralha da Fonte, onde, teoricamente, iriam reabastecer o espectro emocional novamente.

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A Muralha da Fonte, assim como outros conceitos estabelecidos por Jack Kirby na criação do Quarto Mundo, são na maioria das vezes usados de forma errada, como os próprios Novos Deuses durante a saga Divindade, escrita por Robert Venditti, que afetou todas as revistas da linha do Lanterna Verde. Esgotar o espectro emocional é algo que, digamos, ilógico. As pessoas de todo o universo deixaram de sentir força de vontade, raiva, medo, compaixão, amor, esperança e avareza? Enfim, com isso temos o Lanterna Branco cruzando a Muralha da Fonte – que para fins práticos, separa o nosso mundo real do mundo das histórias em quadrinhos – e acaba voltando deveras perturbado, de posse da Equação da Vida, permitindo à ele reescrever a própria realidade se assim desejar. Outro conceito de Kirby que também foi deveras descaracterizado foi a Equação da Vida, a força oposta exata à Equação Antivida que o próprio Darkseid tanto busca para obter a dominação suprema. Tendo em vista isso, obviamente que Kyle, Carol e os Guardiões Templários entram em conflito com os Novos Deuses, porém sua participação aqui não tem grande relevância, já que a trama seria desenvolvida completamente em Lanterna Verde.

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Kyle Rayner começa a sofrer com o poder absurdo que ganhou com a Equação da Vida, não conseguindo controlá-lo direito e deformando a realidade à sua volta, além de, inconscientemente, criar um “gêmeo malvado” chamado Oblívio. É um clichê bastante manjado das histórias em quadrinhos e que apesar de um momento ou outro interessante, é bastante mediano, principalmente com Rayner dividindo seu poder e criando uma Tropa de Lanternas Brancos que sumiu da cronologia e nunca mais voltou. Foi um fim bastante medíocre para um revista que teve um desenvolvimento tão promissor.

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Lanterna Verde: Novos Guardiões foi uma das revistas d’Os Novos 52 que começou impactante e que com o passar do tempo conseguiu trabalhar vários personagens de forma satisfatória, principalmente Kyle Rayner, que há tempos não tinha sido desenvolvido de forma tão inteligente; e Carol Ferris, que deixou de ser a eterna namorada de Hal Jordan e passou a ter papel de destaque por méritos próprios. Se você gosta do universo do Lanterna Verde e não leu ainda, vale a pena conferir.

  • Julius, o Onipresente

    Obrigado pela dica.
    Se a Panini lançar encadernados dessa Saga então vale a pena.

    • Murilo Fernando

      Fico feliz que tenha gostado do artigo! 😀

      • Julius

        Aqui sempre têm os melhores artigos sobre DC.