Análise d’Os Novos 52 – Corporação Batman

Durante os sete anos que ficou no comando dos quadrinhos do Batman, Grant Morrison subverteu cartesianamente qualquer conceito outrora estabelecido com o Cavaleiro das Trevas. Apesar de executar grandes mudanças no status quo do universo do Homem-Morcego, tudo foi condizente com uma proposta única: consolidar o Batman não apenas como um homem, mas sim como um legado capaz de transcender o tempo, o espaço e a própria morte. Resgatar o conceito do filho do Batman, apresentar uma nova galeria de vilões para os vigilantes de Gotham City ou até mesmo fazer Bruce Wayne viajar no tempo não foram decisões gratuitas usadas apenas para levantar as vendas da revista. Tudo feito por Morrison tinha um motivo e fazia sentido dentro do que ele estava construindo para o personagem.

Corporação Batman era a canção do cisne de Grant Morrison para sua jornada com o Batman. Todos os personagens estavam devidamente desenvolvidos, com a trama caminhando para um final épico que amarraria as pontas soltas e presentearia os leitores com megalomanias narrativas. Então veio o reboot d’Os Novos 52, e o que poderia se tornar um espetáculo na história de publicação do Batman se tornou apenas uma boa história perdida em um furação cronológico.

Os elementos que tornaram a execução d’Os Novos 52 uma experiência negativa já foram discutidos exaustivamente ao longo desses cinco últimos anos. Não houve empenho editorial para manter uma cronologia coesa, muito menos cooperação das equipes criativas de cada um dos 52 títulos. Morrison sempre foi conhecido por trabalhar sozinho, e talvez essa prática de escrita solitária tenha funcionado para Corporação Batman e para a cronologia que ele estava considerando. Ainda assim, por mais genial que seja, ele é mais um roteirista em uma grande empresa, e algumas regras lhe foram impostas, tornando a continuidade de Corporação Batman um misto de elementos da cronologia Novos 52 e da cronologia pré-Flashpoint – Dick Grayson volta a ser Asa Noturna e Oráculo desaparece da trama, por exemplo. Ainda assim, Morrison conseguiu entregar algo sólido e emocionante para encerrar sua aventura com o Batman.

Talia al Ghul inicia a execução de seu plano definitivo para derrotar o seu amado Batman. Líder da organização criminosa Leviatã, ela pretende destruir Gotham City e toda a Corporação Batman. É um plano manjado que já foi repetido exaustivamente ao longo da história dos quadrinhos. Mas é isso o que Morrison faz, ele pega conceitos básicos e os recheia com referências filosóficas e científicas. Logo, o que parece ser simples talvez não seja tão simples assim.

Talia ama Batman profundamente. Talvez seja uma forma deturpada de amor, mas o que ela sente por ele não é algo fraco. Ela, que teve a melhor criação que o dinheiro foi capaz de comprar, cresceu em um mundo de crime e violência. E a única pessoa que ela considerou digna de manter um relacionamento amoroso a ignorou por se recusar a renunciar seus princípios. Pessoas magoadas podem ser capaz de atos cruéis, e quando essa pessoa é a líder da maior organização criminosa do mundo, pode ter certeza que ela não vai parar até alcançar seu objetivo.

Em contrapartida, temos um Batman no seu auge, que passou por inúmeras provações, sem vacilar em nenhum momento. Ele obteve sucesso em proteger Gotham City e articular sua rede mundial de combate ao crime. Outro grande feito desse Batman foi ver seu filho, Damian Wayne, crescer como herói e como pessoa. O garoto chato e irresponsável evoluiu, se tornando alguém à altura de honrar o legado do Morcego.

Nesse ato final, o Clube dos Heróis também ganha destaque, com introdução de novos heróis de legado e a despedida trágica de outros integrantes da equipe. O maior destaque vai para Beryl, a Escudeira, que evolui incrivelmente através de uma das curvas dramáticas da história.

Apesar de Talia e o Leviatã não serem antagonistas tão marcantes quanto Dr. Hurt ou o Hiperadaptador Ômega, Corporação Batman nos apresenta o Heretic, um vilão frágil, mas ao mesmo tempo assustador. Embora sua participação seja burocrática em alguns momentos, sempre que ele entra em cena se cria uma atmosfera de tensão, já que suas ações são imprevisíveis e nem todos os membros da Corporação Batman estão preparados para enfrentá-lo. Está longe de ser marcante, mas se fez imponente em todas aparições.

O mito de Prometeu foi uma das primeiras histórias criadas pela humanidade. Em Crise Final, Morrison fez do Batman o próprio Prometeu. A série termina com Anthro, no seu leito de morte, fascinado com as imagens dos heróis e dos deuses que ele viu quando menino. E essas imagens não morreram com Anthro, porque Batman estava lá para carregar a tocha e continuar a história dos heróis. Graças a ele, o fogo continuou a queimar. Ele semeou a ideia do Batman nos primórdios da humanidade, que se espalhou através da Tribo Miagani e das primeiras gerações da Família Wayne.

Se o run de Grant Morrison no Batman é sobre alguma ideia, essa ideia é de que o Batman é eterno. Batman é uma ideia que surgiu a partir da dor de um jovem, uma ideia de que o pior da humanidade pode ser conquistado através da pura força de vontade e dedicação, para que ninguém mais precise sofrer a dor da perda. É uma ideia tão forte que não pode ser apagada. Bruce era constantemente torturado, quase foi morto, foi jogado de volta no tempo, e ainda assim o Batman resistiu. Foi o Batman que permitiu a Bruce superar todos os desafios.

A ideia do Batman é uma ideia que cresceu muito além do escopo de um único homem. Como Bruce admitiu em Corporação Batman: “A primeira verdade do Batman é que eu nunca estive sozinho”. Mesmo em seus momentos mais sombrios, Bruce teve homens como Alfred e Dick Grayson para ajudar a arcar com o ônus do fogo. O objetivo da Corporação Batman era espalhar o fogo através do mundo. Isso inspirou heróis como o Cavaleiro e a Escudeira. E como vimos em Batman #700, a ideia do Batman persiste ao longo do tempo, com Damian Wayne, Terry McGinnis e até mesmo o Batman do Século 853.

Acima de tudo, Morrison estabeleceu a ideia do Batman como uma força de redenção. Para Damian, a ideia de se tornar um herói e combater o mal provou ser mais cativante do que herdar o império de crime de sua mãe. Batman o inspirou a se tornar algo melhor, da mesma forma que inspirou cada Robin antes dele. E embora tenha morrido no final do run, Damian conseguiu sua maior vitória. Ao invés de crescer e se tornar a versão corrompida de seu próprio pai, Damian se sacrificou para que o fogo continuasse queimando.

A grande lição que podemos tirar de Corporação Batman e do run do Morrison como um todo, é que sempre haverá um Batman, não importa o quão escuro e estranho o mundo se torne.