Análise do Rebirth – Mulher-Maravilha de Greg Rucka

O reboot d’Os Novos 52 bagunçou inúmeros núcleos do Universo DC, e a Mulher-Maravilha não ficou de fora dessa confusão editorial. Apesar de Brian Azzarello ter exercido um trabalho competente estabelecendo a heroína como Deusa da Guerra e remodelando sua mitologia, o run de Meredith Finch foi um completo desserviço à personagem, descaracterizando sua rica mitologia e seu interessantíssimo núcleo de personagens.

Quando DC Universe: Rebirth #1 chegou plantando uma série de mistérios e mudando o status quo dos personagens, descobrimos que não apenas dez anos foram roubados da cronologia do Universo DC, mas que parte da vida de Diana havia sido uma mentira – além da adição de um irmão gêmeo à mitologia da Amazona. O encarregado de guiar a Mulher-Maravilha nessa nova fase foi Greg Rucka, roteirista que ficou famoso por seus trabalhos na DC durante os anos 2000 – como Mulher-Maravilha: HiketeiaXeque-Mate e Gotham Central.

No começo de seu run, com o arco As Mentiras, Rucka abordas as dúvidas de Diana e sua tentativa de entender o que está acontecendo em sua vida, pois aparentemente a verdade a abandonou e tudo o que ela sabe são mentiras. Sua história está fragmentada, e em busca de respostas Diana parte atrás de Bárbara Ann, a Mulher-Leopardo, que poderia ajudá-la a encontrar a verdadeira Themyscira.

Já no segundo volume, Rucka começa Ano Um e conhecemos a nova origem da Mulher-Maravilha, percebendo que quase tudo que ela se recorda realmente não passou de mentiras. Não sei quais os motivos que levaram Rucka a optar por esse modelo de publicação, mas confesso que me incomodou desde o início a forma como o arco era intercalado com As Mentiras – edições ímpares para o arco no presente e edições pares para o arco de origem. Apesar disso, ao fim do run podemos fazer algumas suposições sobre esses motivos, embora Ano Um tivesse mais força se fosse lançado com a periodicidade normal dos outros títulos.

Em As Mentiras, o roteiro de Rucka se destina a desenvolver toda a trama em volta das dúvidas de Diana quanto a suas memórias e até mesmo seus poderes. Os personagens secundários têm extrema importância, embora alguns possuam importância até em excesso. Diana acaba levando Steve Trevor para Themyscira, mesmo sabendo dos riscos envolvidos. Não bastasse todas as dúvidas da heroína, Trevor tem praticamente certeza de que não estão no mesmo lugar em que ele conheceu Diana.

Com o começo do segundo arco, intitulado A Verdade, Diana enlouquece ao perceber que não está em casa e que suas dúvidas estavam certas: a verdade a abandonou. Com a ajuda de seus amigos, Diana agora busca a verdadeira Themyscira e toda a verdade por trás de sua origem. Em contrapartida, somos apresentados à organização criminosa GodWatch, que busca a localização de Themyscira e a verdade sobre as amazonas há anos. Aqui, Rucka acerta em devolver a importância de velhos personagens da mitologia da Mulher-Maravilha, assim como consolidar a GodWatch e Adriana Anderson como algumas ameaças que a Princesa Amazona terá que enfrentar.

Já em Ano Um, a nova origem de Diana é duramente construída. Apesar de ter muita semelhança com a origem de George Pérez, possui elementos que mais uma vez desqualificam a heroína. Diana agora é novamente moldada do barro e teve sua vida concedida pelos deuses, além de ter um irmão gêmeo que tem sido ignorado até então. Ela deixou Themyscira ao vencer o torneio que decidiria qual Amazona seria condenada ao terrível destino de levar Steve Trevor de volta ao mundo dos homens e ficar presa por lá para sempre. Em seus primeiros dias no mundo do patriarcado, Diana conheceu Etta Candy e Bárbara Ann Minerva, que ajudaram na sua adaptação à nova vida, bem como a se comunicar com o resto do mundo. Após sua chegada, ela acabou sendo agraciada com diversos presentes pelos deuses para ajudar em sua missão.

Bárbara Ann, antes de se tornar a Mulher-Leopardo, foi uma grande amiga de Diana e o roteirista ainda nos ajudou a conhecer melhor a história da vilã, mergulhando em seu passado e descobrindo todo o seu envolvimento em busca de Themyscira. Ainda assim, Rucka praticamente a descarta, mesmo que esperássemos muito mais da Mulher-Leopardo na continuidade da história.

A missão de Diana é manter o mundo dos homens a salvo de Ares, enquanto Themyscira seria a prisão do Deus da Guerra. Não só tudo que ela viveu nos últimos anos foi uma mentira, como Ares nunca foi um vilão de verdade. Essa é a desconstrução de personagem mais forçada que Rucka realiza, ao estabelecer que Ares provocava guerra e ódio por ser algo da própria natureza dele, embora na verdade ele nunca quis ser vilão; por não ter controle de seus atos, ele acabou sendo preso em Themyscira por Afrodite, onde caberia às Amazonas mantê-lo em sua prisão.

Por outro lado, Rucka nos apresenta, de novo, uma Diana jovem e ingênua, sem saber controlar seus atos enquanto outros heróis já estão atuando no mundo. Sem considerar as implicações disso, grande parte de tudo que a heroína viveu durante Os Novos 52 foi apagado. No entanto, nem tudo foi ruim, já que ele se preocupa em criar uma Themyscira amigável, novos interesses amorosos para Diana e um passado bem construído na Ilha – apesar de parecer que o autor queira manter a Mulher-Maravilha presa dentro de um círculo narrativo.

Também temos a primeira aventura da Trindade, onde mais uma vez assistimos Rucka colocar uma inexperiente e imatura Diana diante de heróis mais experientes, deixando a heroína em uma posição de inferioridade quanto aos demais personagens. Ainda assim, é divertido ver Superman, Batman e Mulher-Maravilha interagindo juntos pela primeira vez.

Outro ponto que não pode ser ignorado é o envolvimento de Diana e Steve desde o início do run. Com as explicações de Ano Um, fica ainda mais fácil compreender o relacionamento dos dois e os motivos que os unem. Desde o dia em que Steve caiu na praia em Themyscira, um sempre estará lá para o outro, o que demonstra os motivos que fazem dos dois um dos melhores casais da DC Comics.

Podemos concluir que a Mulher-Maravilha de Greg Rucka é fragmentada, perdida e em uma busca constante da verdade e auto-conhecimento. Diante de todos os problemas jogados no desenrolar da história, conseguimos conhecer diversas faces de Diana. Vamos juntando as peças aos poucos, tentando formar esse quebra-cabeça, mas 25 edições e 1 anual não foram suficientes para solucionar esses problemas, já que o roteirista se preocupou mais em lançar questões do que respondê-las. Se existe uma única coisa que é inquestionável nesse run, é a impecável arte de Liam Sharp, Nicola ScottBilquis Evely, que contribuem – cada um com seu estilo – para estabelecer um visual definitivo para a Mulher-Maravilha.

O ruim de tudo isso é que Rucka sai do título deixando os fãs da heroína com muitas perguntas, como por exemplo: O que aconteceu com a Mulher-Leopardo? GodWatch foi dissolvida por completo? Onde está Jasão, o irmão gêmeo de Diana? O que aconteceu aos demais deuses do Olimpo? Infelizmente, algumas dessas dúvidas apenas os próximos roteiristas do título serão capazes de responder.

  • O Homem do Amanha (Terra 22)

    Azzarello fez um trabalho muito bom com a WW, uma pena que a obra do cara simplesmente foi “apagada” e só podemos aprecia-la como um “elseworlds” agora, por outro lado eu gosto mas da origem que George Perez que Diana que foi moldada do barro por Hippolyta pois não gostava muito dela ser filha de Zeus apesar dessa nova origem ter rendido historias e dramas interessantes.

  • Hal Jordan

    Eu realmente detestei essa fase da WW, mentiras era muito ruim, mas ano um superou todos os pontos negativos que eu poderia imaginar. Ainda bem que esse cara saiu.