A influência de Watchmen em Batman #21

Batman #21 marcou o início de The Button, crossover entre os títulos dos Cavaleiro das Trevas e do Velocista Escarlate. Com a proposta de explorar alguns mistérios levantados em DC Universe: Rebirth #1, a primeira parte da história evoca Watchmen em sua narrativa ao longo de toda revista.

DC Universe: Rebirth #1 reintroduziu Wally West na atual cronologia do Universo DC, e logo de imediato começou a desvendar alguns elementos da realidade d’Os Novos 52. A história indicava fortemente que Dr. Manhattan roubou 10 anos da cronologia do Universo DC com motivações ainda desconhecidas, enquanto um misterioso personagem chamado Mr. Oz começou a trabalhar nos bastidores, executando um plano obscuro que envolve uma série de heróis e vilões da editora. Ainda em DC Universe: Rebirth, Batman descobriu em sua Batcaverna o icônico button manchado de sangue do Comediante. Agora, Batman está finalmente começando a investigar o tal button sorridente.

Para compor Batman #21, Tom King e Jason Fabok se espelharam bastante em Watchmen, aprimorando a narrativa de forma a tornar The Button uma história acessível para os novos leitores e nada gratuita para os veteranos fãs de Watchmen. Uma das características mais marcantes de Watchmen é sua rigorosa diagramação feita em 9 quadros por página, artifício que Alan Moore e Dave Gibbons usaram de maneira magistral para ditar o ritmo da história. Tom King havia utilizado esta técnica anteriormente em The Omega Men (ilustrado por Barnaby Bagenda), e a repetiu em Batman #21, desta vez ilustrada por Fabok.

Não é necessário falar sobre o significado do button ensanguentado, talvez o ícone mais reconhecido de Watchmen. Todavia, King e Fabok fazem diversas referências à distopia criada por Moore logo na primeira página.

Variar a perspectiva de um close-up extremo em um objeto para um foco mais aberto era recorrente em Watchmen, principalmente em suas páginas iniciais, onde a abertura nos levava de um button em uma poça de sangue até o andar superior de um prédio. Em Batman #21 começamos com um close direto em um círculo vermelho no centro de uma quadra de hóquei, vista através de uma tela de TV. Quando o plano é afastado, vemos um taco de um jogador no círculo vermelho, evocando a iconografia de Watchmen: o relógio. Se esse fosse o ponteiro de um relógio, ele estaria indicando que faltam 10 minutos para completar 1 hora, assim como aponta o relógio no início da graphic novel.

Pouco depois, Batman está diante de diversos monitores na Batcaverna. Dentro do contexto envolvendo Watchmen, a imagem se torna uma referência à Ozymandias observando o mundo em sua base na Antártida. Entretanto, dessa vez todas as telas mostram o button ensanguentado, com exceção do monitor central que, entre outras coisas, está sintonizado no jogo de hóquei.

As imagens do button sobrepujam toda a cena, dando uma impressão imediata de que Batman está obcecado com esse mistério. Contudo, se paramos para pensar, essa cena acaba se tornando bem curiosa. Um desses monitores mostra uma estrutura em hélice no button, sugerindo que Batman estivesse examinando e fazendo testes no sangue do objeto, o que talvez signifique que cada monitor seja uma espécie de exame diferente. Com apenas 4 monitores focados em Gotham – em um vemos bombeiros em ação, no outro vemos o que aparenta ser um telejornal, o terceiro mostra uma visão aérea de Gotham e o quarto mostra a já citada partida de hóquei – somos obrigados a questionar: por que um deles está dedicado ao jogo de hóquei? Seria devido aos resultados dos testes feitos pelo Batman, lhe dando ciência da situação de Satúrnia no Arkham, ou talvez o Cavaleiro das Trevas seja apenas um fã de hóquei e tudo isso não passe de coincidência? As duas opções são plausíveis e possivelmente serão respondidas até o final do crossover.

Depois de girar o button diversas vezes em sua mão, Batman o joga em cima de uma mesa, fazendo-o entrar em contato com máscara do Pirata Psíquico. O Pirata Psíquico foi um personagem importante em Crise nas Infinitas Terras, o primeiro grande evento envolvendo alterações de realidade dentro da editora. Tão importante que após o surgimento do novo universo, o Pirata Psíquico era o único personagem a se lembrar da continuidade anterior. Aqui, uma faísca é gerada no espaço entre o button e máscara fazendo Batman ter uma breve visão do Batman de Flashpoint, Thomas Wayne.

Após isso, Batman liga para o Flash e pede ajuda para resolver esse mistério. Barry Allen promete chegar até a caverna em 1 minuto.

Durante esse minuto, o ressuscitado Flash Reverso ataca, vingando-se de sua própria morte em Flashpoint pelas mãos de Thomas Wayne. Batman, ao lutar com um vilão que pode se mover à velocidade do pensamento, resiste bravamente a cada soco e consegue cravar um batarang no pé de Eobard Thawne. Com os segundos passando – outra referência à Watchmen -, Batman sabe que tudo que ele precisa fazer é aguardar até Barry chegar. Mas o Flash se atrasa. O que vem a seguir é a cena que quebra o padrão da diagramação: o tempo se esgota e o Flash Reverso acerta um soco no Batman, nocauteando o Cavaleiro das Trevas.

Thawne pega o button, que instantaneamente o transporta para algum lugar. Um momento depois, ele está de volta, de maneira que se assemelha bastante à forma como Dr. Manhattan desaparecia e reaparecia em Watchmen. Só que quando o Flash Reverso retorna – em uma explosão de luz azulada -, seu corpo está parcialmente queimado e se deteriorando, similar à forma como Barry ficou em Crise nas Infinitas Terras após correr para destruir o canhão de antimatéria. As palavras finais de Thawne antes de sua morte foram “Eu vi Deus”.

A DC Comics parece não ter medo de insinuar que os personagens de Watchmen são figuras centrais para o mistério do Rebirth. Agora que Batman e Flash estão encarando o problema, não seria surpresa que a influência de Watchmen crescesse cada vez mais. O que também se torna notável é como Tom King e Jason Fabok estão não apenas usando os elementos e os personagens de Watchmen, mas sim estudando os artifícios narrativos usados por Alan Moore e Dave Gibbons em sua obra. O resultado pode não ser totalmente fiel, mas eles melhoraram sua própria história usando técnicas eficazes com características particulares que enriquecem a sensação de densidade da obra.

E o mais importante, mesmo que você não saiba nada sobre isso, mesmo se você não se importe com a ciência envolvendo histórias em quadrinhos, até mesmo que você nunca tenha lido Watchmen, você ainda terá uma sólida história sobre Batman e Flash se unindo para resolver um mistério e deter um poderoso vilão. Batman #21 é um belo começo de uma aventura intrigante, e é isso o que importa quando falamos de quadrinhos.