A história do Multiverso DC

Na década de 1940, os quadrinhos americanos eram dominados por coloridos super-heróis uniformizados, com todos eles tendo suas inspirações em Superman e Batman. Havia dezenas de heróis diferentes, alguns populares e outros que fizeram uma ou duas aparições antes de desaparecer para sempre. Até o início dos anos 1950, toda essa horda estaria extinta. Na DC Comics, os únicos sobreviventes foram Superman (e sua versão mais jovem, Superboy), Batman e Mulher-Maravilha, junto com alguns, na época, coadjuvantes (Aquaman, Arqueiro Verde, Robotman, Vigilante), que sobreviveram por conta de suas histórias backup nos títulos principais. Os editores, então, preferiram dar mais espaço para revistas de westerns, policiais, de guerra, ficção científica e qualquer outro gênero que preenchesse o vazio.

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Em 1956, o então editor da DC Comics, Julius Schwartz, decidiu experimentar um novo personagem na quarta edição da revista Showcase Comics: Barry Allen, uma versão modernizada do Flash, um dos heróis mais populares que a DC teve na década anterior. O novo Flash, assim como o original, tinha o poder de se mover em super velocidade, mas era um personagem completamente diferente, com um traje diferente e uma nova origem como cientista forense da polícia. Suas aventuras foram um sucesso e em pouco tempo ele ganhou sua própria revista, ressuscitando a antiga numeração de Flash Comics.

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Percebendo que essa retomada dos super-heróis agradava os leitores modernos, Schwartz fez uma nova tentativa com o Lanterna Verde, cuja nova encarnação estreou em Showcase #22 (1959). Hal Jordan também ganhou sua revista própria, seguida pela revista da nova Sociedade da Justiça da América, a Liga da Justiça da América, que estreou em Brave And The Bold #28 (1960). Novas versões do Gavião Negro e do Eléktron também não demoraram a aparecer.

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Schwartz estava ciente de que alguns leitores se lembravam do Flash original, Jay Garrick, que não era visto desde o cancelamento de All-Star Comics no começo de 1951. Na verdade, o Flash original fez uma breve aparição na origem do novo personagem como um personagem de quadrinhos cujas aventuras Barry Allen lia.

Fazer o Flash original um personagem fictício no mundo de Barry Allen foi uma jogada inteligentíssima de Schwartz, e seus escritores poderiam, sem dúvida, deixar por isso mesmo. No entanto, em 1961, eles introduziram uma nova reviravolta: em Flash #123, “Flash de Dois Mundos”, Barry Allen encontra seu herói da infância, que agora reside um mundo paralelo que ocupa o mesmo espaço do mundo em que Barry vive, mas vibra em uma frequência diferente, de modo que os dois nunca se cruzaram. Desde que os poderes de Barry permitiram a ele alterar suas próprias vibrações internas, isso proporcionou ao personagem – e aos escritores – a capacidade de viajar entre os mundos à sua vontade para visitar Jay. Em um distinto toque de meta-linguagem, os dois heróis especulavam que os escritores de quadrinhos do mundo de Barry escreviam as aventuras de Jay Garrick baseados em impressões físicas das próprias façanhas de Jay na Terra paralela.

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A história, evidentemente, gerou discussões entre os leitores. A ideia de que um personagem de quadrinhos era realidade em algum outro mundo era genial, e você poderia ler as histórias de dois super-velocistas pelo preço de um. Flash de Dois Mundos também apelou para uma minoria de antigos leitores que se lembravam das aventuras do Flash original. Esses fãs logo começaram a clamar pelo retorno de outros heróis da Era de Ouro.

Mais encontros entre Barry Allen e Jay Garrick começaram a surgir logo em seguida, levando, em The Flash #137 (1963), a uma aparição de Jay e seus antigos colegas da Sociedade da Justiça. Dois meses depois, em Justice League of America #21, os heróis da SJA encontraram os colegas de Barry, em reuniões que se tornariam anuais. Essa história também batizou as duas Terras, com o mundo da LJA se chamando Terra-Um, e o mundo da Sociedade da Justiça se chamando Terra-Dois.

O conceito de terras paralelas foi tão bom para o editorial que rapidamente começaram a surgir diversas outras Terras na DC Comics. Muitas dessas histórias apareceram apenas uma única vez, como foi o caso de World’s Finest Comics #136, onde Batman se encontra em um mundo paralelo onde ele não tem nenhuma contraparte, e Robin trabalha com Superman; ou a história em duas partes contada em Justice League of America #29-30, estreando o Sindicato do Crime da América, a contraparte maligna da Liga da Justiça, que reside na designada Terra-Três. Uma abordagem mais interessante ocorreu em 1968, em The Flash #179, onde Barry Allen viaja para a Terra-Prime, um mundo onde ele existe apenas nas histórias em quadrinhos; também vale comentar que nessa mesma história, Barry encontra o editor Julius Schwartz.

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Na década de 1970, o “multiverso” também se tornou uma saída conveniente para acomodar as recentes aquisições da DC Comics: personagens originalmente publicados pela Quality Comics (Tio Sam, Ray, Bomba Humana) e Fawcett Comics (Capitão Marvel e Família Marvel). Como esses personagens foram adicionados ao catálogo da editora, eles foram designados para “residirem” na Terra-X e na Terra-S, respectivamente. O mesmo foi feito em 1985 com os personagens da Charlton Comics (Besouro Azul, Capitão Átomo, Questão) e foram designados para a Terra-Quatro.

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Embora o número total de Terras não tenha tendido ao infinito, sua contagem ultrapassava a marca de 20 realidades paralelas (isso sem contar os inúmeros mundos que foram apenas sugeridos, sem terem sido explorados). Ainda assim, alguns desses mundos foram desenvolvidos e tiveram crossovers com a Terra-Um e a Terra-Dois. No final da década de 1960, a maior parte da Sociedade da Justiça original tinha retornado e muitos estavam fazendo aparições frequentes em outras histórias. Um desses personagens, o Espectro, até chegou a receber seu próprio título, mesmo que por um curto período.

Enquanto Barry Allen e Jay Garrick tinham essencialmente os mesmos poderes, eles eram claramente diferentes, com nomes, origens, uniformes, aparências e personalidades heterogêneas. O mesmo aconteceu com a maioria dos outros membros da Sociedade e da Liga da Justiça; as duas versões do Eléktron, por exemplo, nem sequer tinham os mesmos poderes. A coexistência desses personagens não representava problema para a continuidade da editora.

Os heróis que tinham sido publicados continuamente desde a década de 1940 eram outra questão. Superman e Batman tinham sido membros da Sociedade da Justiça em 1940, embora apenas em algumas histórias; e Mulher-Maravilha tinha sido parte da equipe. Todos os três foram membros da Sociedade e da Liga, o que levantava a questão: como que eles existiam simultaneamente na Terra-Um e na Terra-Dois?

A resposta dada foi: contrapartes iguais. Na verdade, a Mulher-Maravilha da Era de Ouro apareceu com seus companheiros da SJA em The Flash #137, mas a Trindade sempre esteve ausente nos quatro primeiros encontros entre LJA e SJA, justamente para evitar confusão com seus homólogos. O Batman da Terra-Dois apareceu brevemente em 1966, no final alternativo do escritor Gardner Fox para Detective Comics #347; Robin apareceu em Justice League of America #55 (1967), e o Superman da Era de Ouro ressurgiu em Justice League of America #73 (1969).

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Outras duplicatas surgiram mais tarde, muitas vezes por acidente. Aparições na Terra-Um de personagens menores da Era de Ouro, como Zatara e o Vigilante, sugeriam que esses heróis também tinham contrapartes idênticas tanto na Terra-Um como na Terra-Dois.

Embora os fãs tenham gostado de saber das diferenças entre os heróis da Terra-Um e da Terra-Dois, o potencial de grande parte dos heróis da Terra-Dois era deveras inexplorado. Mas seu momento de brilhar chegou em 1976, quando a Sociedade da Justiça renasceu nas páginas de All-Star Comics. O ressurgimento da série desenvolveu os personagens da Era de Ouro e seu novo mundo. Robin agora era um embaixador da ONU, Superman envelheceu, assim como Bruce Wayne se tornou comissário de polícia em Gotham City.

Novos personagens também foram introduzidos na nova nova Terra-Dois. O primeiro foi a Poderosa, debutando em All-Star Comics #58, de 1976. Em seguida, introduzida em All-Star Comics #69 e DC Super-Stars #17, tivemos a Caçadora. Planejada para ser a versão da Terra-Dois da Batgirl, Caçadora não era meramente uma aliada ou uma imitadora do Batman, mas sim a filha de 20 anos Cruzado Encapuzado.

Em 1977, a Mulher-Maravilha da Era de Ouro começou a aparecer em histórias da sua contraparte da Terra-Um, num esforço tardio de capitalizar em cima a série live-action da personagem. A Caçadora ganhou seu próprio título, após a edição final de Batman Family, em 1978. Em 1979, o Superman da Terra-Dois ganhou uma revista intitulada Superman Family, que se passava no início dos Anos 50. Até mesmo os reformados heróis da Quality Comics, os Combatentes da Liberdade, ganharam um título próprio, só que se passando na Terra-Um ao invés da Terra-X.

Essa expansão do Multiverso DC sofreu um revés em 1978, com o que ficou conhecido como Implosão DC, onde mais de duas dúzias de revistas foram canceladas. Em 1981, All-Star Squadron estreou, apresentando os heróis da Era de Ouro em seu auge, durante a Segunda Guerra Mundial. A revista dedicou grande parte de suas histórias para resolver questões não respondidas e aparentes contradições da continuidade da Terra-Dois. Uma nova série de backups estreou em DC Comics Presents, mostrando team-ups de heróis da Terra-Dois com o Superman da Terra-Um. A Caçadora ganhou uma série de backups na revista da Mulher-Maravilha, enquanto o Senhor Destino da Terra-Dois ganhou suas próprias histórias dentro da revista do Flash. Em 1984, os filhos e protegidos da Sociedade da Justiça também ganharam um título, intitulado Corporação Infinito, numa analogia à popular série New Teen Titans. Em 1985, a moderna Sociedade da Justiça ganhou uma minissérie de quatro edições detalhando toda a sua história.

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Como sempre, a Terra-Dois recebeu mais atenção do que as outras Terras do Multiverso. Mas os heróis da Terra-S foram apresentados, pela primeira vez na série Shazam!, que correu entre 1973 e 1978; em seguida, em Finest Comics; e, finalmente, Adventure Comics, durante 1982. O Capitão Marvel original e seus amigos também apareceram em DC Comics Presents e em Justice League of America.

Na época do 50º aniversário da DC Comics, em 1985, a empresa concluiu que o conceito de Multiverso deveria chegar ao fim. Embora três ou quatro Terras paralelas fosse significativas para a cronologia, a DC sentia que o Universo DC não estava tão coeso quanto os universos de outras editoras, e muitos editores não sabiam mais como trabalhar com as múltiplas Terras, principalmente quando se tratava em atrair novos leitores. Então, Crise nas Infinitas Terras foi projetada para dar fim à esses inúmeros mundos e criar um ambiente mais favorável para novos leitores.

A solução foi uma minissérie de 12 edições que criou uma ameaça cósmica que destruiu quase todas as Terras e unificou as restantes em apenas uma. A história do novo universo foi registrada em uma minissérie de duas edições chamada História do Universo DC, e explicou os reboots sofridos pela Trindade, e como os doppelgängers e Terras similares criadas na Era de Prata desapareceram. O Mundo foi unificado na que ficou conhecida como Nova Terra, e as histórias passadas nela ficaram conhecidas como continuidade pós-Crise.

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A Crise nas Infinitas Terras rebootou o Universo DC, fundindo todas as Terras e personagens doppelgängers em um único mundo e em uma única linha do tempo. Mas depois desse esforço, ninguém se preocupou em guiar o barco da continuidade desse universo.

Nos anos posteriores à Crise, fãs e escritores, inevitavelmente, começaram a sentir falta de personagens que se perderam na nova continuidade, e começaram a encontrar formas de reinseri-los na linha do tempo. Uma mudança bastante impopular foi não colocar mais Superman, Batman e Mulher-Maravilha como membros ou fundadores da Liga da Justiça. Nos anos seguintes, uma série de histórias foram escritas para tentar encaixar a Trindade de volta, primeiro como membros honorários, e, eventualmente, como membros integrais. Esse tipo de mudança recebeu o nome de retconmudança retroativa da continuidade (retroactively changing continuity, no original), que também pode ser chamado de “mudança do passado”.

Outra grande omissão aconteceu com a Supergirl, que foi eliminada totalmente da continuidade porque o editorial da DC achou que o Superman deveria ser o único sobrevivente de Krypton. A princípio, parecia uma boa ideia, mas os fãs não paravam de pedir o retorno da Supergirl. Até que ela foi reintroduzida, mas não como a prima kryptoniana do Superman. Uma história desnecessária foi elaborada, o que tornou a personagem uma das mais confusas do UDC (lembrando que o objetivo da Crise era tonar o universo mais acessível para os novos leitores). Naturalmente, a real Kara Zor-El retornou depois de um tempo.

A continuidade foi tão mal administrada, que uma limpeza de cronologia para organizar a casa novamente foi requisitada. E então veio Zero Hora. Menos de dez anos após a Crise, esse pequeno reboot veio para corrigir o caos que havia se tornado a continuidade da DC. Alguns personagens e equipes, como o Gavião Negro e a Legião dos Super-Heróis, foram totalmente reiniciados, por serem considerados muito difíceis de se acompanhar.

Menos de dez anos depois, o conceito de Terras paralelas continuava irresistível. Por um tempo, algumas histórias alternativas foram explicadas como parte de uma estrutura chamada Hipertempo. Semelhante ao Multiverso, o Hipertempo era uma ramificação infinita de linhas do tempo do Universo DC. Algumas realidades se afastavam da linha do tempo normal, aumentando suas diferenças; já outras, se aproximavam, sofrendo o efeito inverso. Criado por Mark Waid e Grant Morrison em 1999 na continuação de Reino do Amanhã, The Kingdom, o Hipertempo parecia uma óbvia tentativa de explicar a pobre continuidade do Universo DC da época. A partir daí, a DC começou a chamar a sua linha do tempo como Universo Original, e as demais linhas do tempo ficaram conhecidas como Elseworlds.

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Demorou para a DC aceitar o retorno do Multiverso, mas isso finalmente aconteceu em 2006, durante Crise Infinita. Na história, Superman e Lois Lane da Terra-Dois, Alexander Luthor da Terra-Três e Superboy da Terra-Prime sobreviveram à destruição da Crise original e viveram em reclusão por anos atrás de uma barreira cristalina impenetrável. Capanga de Luthor, Superboy Prime foi esmurrando a barreira, e cada golpe, reorganizava um evento na Nova Terra. Foram os famosos socos na parede da realidade. Uma vez livre, Alexander Luthor deu origem à infinitas Terras mais uma vez. Após a sua derrota, essas Terras se mesclaram novamente em uma única Terra, mas a energia restante se expandiu, criando um Multiverso com 52 Terras idênticas. Então, um ano depois, é explicado na maxissérie 52 que o Senhor Cérebro “comeu” eventos importantes dessas 52 Terras, alterando suas histórias e tornando cada uma delas únicas. E o universo mainstream da DC Comics foi renomeado como Terra-0.

O conceito era genial, mas, infelizmente, a DC não conseguiu capitalizar em cima disso. Com um verdadeiro playground disponível para se contar histórias, parecia que as Terras paralelas estavam fora dos limites dos escritores. E os autores que ousavam desbravar o Multiverso nos trouxeram bombas como Contagem Regressiva para Crise Final ou Countdown: Arena. Aparentemente, o único que conseguia extrair boas histórias do Multiverso era Grant Morrison, que levou mais de seis anos bolando The Multiversity, o que seria a bíblia do Multiverso DC.

E para completar o que havia sido prometido pelo editorial como a Trilogia das Crises, veio Crise Final. Crise Final, originalmente planejada como a canção do cisne do Universo DC, acabou não sendo um reboot. No entanto, ela reinventou os Novos Deuses de maneira significativa . Também foi uma tentativa de introduzir alguns novos conceitos e personagens interessantes, a maioria deles concebidos por Morrison. Mas sem a mão de seu criador, esses spin-offs fracassaram na mediocridade.

Após os esforços colocados em Crise Infinita, 52 e Crise Final, foi surpreendente a decisão da DC em 2011 de abandonar o seu antigo universo e reinicializar tudo de uma vez. Mais do que provável, o motivo por fazer isso era as vendas. Embora os quadrinhos da DC vendessem bastante, a competição entre editoras aumentou. Atualmente, os quadrinhos são considerados storyboards para filmes e séries de TV. No espaço de uma década, a presença da DC explodiu em jogos de videogame, animações e séries de televisão. Uma forma de atrair dólares extras desses fãs de outras mídias foi oferecer para eles uma entrada no universo dos quadrinhos.

Flashpoint pareceu ser mais um evento de quadrinhos qualquer, e muitos leitores não perceberam que um novo reboot estava para vir. Após o final da série, a DC relançou 52 novas revistas mensais, reinventou seus personagens e reviveu títulos populares do passado. Esse universo pós-Flashpoint recebeu o nome de Os Novos 52. O Multiverso d’Os Novos 52 também foi reformulado, e muitas Terras receberam novas configurações, principalmente com o lançamento de The Multiversity, que acabou saindo em 2014.

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Também é importante lembrar que Flash de Dois Mundos não foi a primeira história na DC a apresentar o conceito de universos paralelos. Em 1º de maio de 1959 foi lançada nas bancas a edição #59 da revista da Mulher Maravilha. Na história, Diana acidentalmente viaja para uma outra Terra que é um espelho do mundo em que vive. Nessa terra, ela encontra Tara Terruna, sua contraparte idêntica, e juntas, lutam para libertar o reino de Tara, que está sob o comando do maligno Duke DazamWonder Woman #59 foi a primeira vez que a DC explorou o conceito de Terras Paralelas, e a terra de Tara Terruna foi denominada por muito tempo como Terra-59, após o estabelecimento do Multiverso.

  • Roger Kalebe

    Para quem não conhece nada sobre multiverso, entendi perfeitamente. Muito bom.

  • Murilo Fernando

    Artigo sensacional e indispensável para quem quer acompanhar o Multiverso da DC.

  • Marcos Roberto

    Muito obrigado, está sensacional!!!