A conexão entre Doomsday Clock e A Morte do Superman

Doomsday Clock nos convida a fazer comparações entre o mundo criado por Alan Moore e Dave Gibbons e o universo regular da DC Comics. A história começa em 22 de novembro de 1992, cerca de 25 anos atrás, mas a data é uma alusão à diversos eventos importantes ocorridos na história moderna. 22 de novembro de 1963, por exemplo, é a data em que o ex-presidente americano John F. Kennedy foi assassinado – um evento bastante significativo na linha cronológica de Watchmen.

O dia 22 de novembro deste ano cai na quarta-feira anterior ao Dia de Ação de Graças, porém, no mundo dos quadrinhos, essa data é infamemente conhecida principalmente por um acontecimento: a morte do Superman. Na história escrita por Dan Jurgens, o Homem de Aço encontrou seu fim pelas mãos do monstro Apocalypse – ou como conhecido originalmente, Doomsday – em Superman vol. 2 #75. Também é valido dizer que essa edição foi lançada nas bancas em 19 de novembro de 1992, uma quinta-feira. Portanto, Doomsday Clock se passa três dias após a morte do Superman e inicia nos mostrando um mundo sem super-heróis, em um cenário bastante caótico. Embora esse seja um ponto de partida bem óbvio, existem alguns outros fatores a serem considerados.

No nosso mundo, 22 de novembro de 1992 foi um domingo anterior ao Dia de Ação de Graças. Um dos maiores acontecimentos desse ano foi a vitória de Bill Clinton na corrida presidencial americana. Mesmo assim, ainda tivemos:

  • O ex-presidente norte-americano George H.W. Bush e o então presidente russo, Boris Yeltsin, fazem um pronunciamento anunciando o fim da Guerra Fria;
  • A Coreia do Norte concorda em permitir inspeções em suas instalações geradoras de energia nuclear;
  • A antiga Iugoslávia entrando em guerra civil;
  • Protestos em Los Angeles após a absolvição dos policiais que espancaram o taxista Rodney King;
  • Florida devastada pelo furacão Andrew;
  • A aposentadoria de Johnny Carson do The Tonight Show;
  • O surgimento do Cartoon Network;
  • A Microsoft lança o Windows 3.1;
  • A morte do co-criador do Superman, Joe Shuster.

Obviamente, esse não é um resumo tão abrangente, mas serve para nos dar uma ideia do que foi aquele ano nos Estados Unidos e no mundo. Também não precisamos dizer que em 1992 não existia a internet como a conhecemos nos dias de hoje. As pessoas que queriam estarem antenadas se reuniam em comunidades como a CompuServe, Prodigy e a American Online.

E sim, claro, 1992 também foi um incrível ano para os quadrinhos. O mercado presenciava o surgimento da Image Comics assim como passava por uma revolução com o Data Driven Marketing. Embora tenha contribuído bastante para estratégias superficiais como o fetiche das capas variantes, A Morte do Superman ajudou a alimentar o conceito de aposentar e substituir personagens clássicos em todas as editoras, embora alguns leitores tenham corretamente previsto que essas situações tendiam a ser algo temporário – Kyle Rayner e Wally West se mostraram notáveis exceções por muitos anos. Mas o objetivo era aumentar as vendas, e eles conseguiram.

De forma não muito intuitiva, a DC Comics expandiu seus personagens mais rentáveis em diversas franquias. Além das quatro edições semanais envolvendo o núcleo do Superman, em 1992 a Liga da Justiça e os Lanternas Verdes tiveram três títulos cada, além de uma antologia trimestral. Haviam três séries regulares do Titãs – contando Deathstroke: The Terminator como um título relacionado – e os títulos do Batman obtiveram sua terceira série regular, A Sombra do Batman.

Como a programação semanal dos títulos do Superman demandaram um apropriado aumento se tratando de aventuras, a ideia de matar o principal personagem desse núcleo acabou sendo levada a sério. Em retrospectiva, pareceu ser o inevitável produto das forças do mercado e do risco narrativo – a ideia original era Clark Kent e Lois Lane se casando, mas a serie live-action Lois & Clark: As Novas Aventuras do Superman impediu o andamento desse plano, pois os produtores da ABC exigiram que o casamento ocorresse primeiro na serie em live-action. Lanterna Verde e Flash estavam repletos de narrativas no melhor estilo neo-Era de Prata, enquanto que Grant Morrison e Richard Case estavam envolvidos com Patrulha do Destino e Neil Gaiman com Sandman. O período também foi marcado pelas tentativas de criadores e editores de monetizarem seus personagens de infinitas formas, nos mais diversos nichos.

Hoje, conhecemos o inicio dos anos 90 como a Era Cromática dos quadrinhos devido à seus excessos visuais. Em relação a isso, A Morte do Superman pode ser considerada como detentora de tudo o que havia em relação a tais excessos. Quando a poeira em torno disso baixou anos depois, a DC Comics começou a construir – com bastante sucesso – uma estrutura de legado dentro de sua continuidade.

No entanto, em meados dos anos 2000, a DC Comics passou por um período conturbado por conta de histórias que mostravam o lado mais sombrio de seus personagens – como foi o caso de Batman: Jogos de Guerra e Crise de Identidade. Tudo isso culminou em Crise Infinita, escrita por Geoff Johns, que logo na primeira edição nos chocou com o diálogo de Batman para Superman: “A última vez que você realmente inspirou alguém foi quando estava morto”. Em resumo, Crise Infinita foi a sequência de Crise nas Infinitas Terras – história na qual muitos acreditavam que não poderia e nem deveria acontecer – que reuniu o Universo DC inteiro após anos para lutar contra uma ameaça extradimensional que havia sido deixada em um limbo editorial.

Crise Infinita #1 se inicia com relatos da mídia de diversos cataclismos ao redor do mundo, uma temática similar ao que foi visto nos previews de Doomsday Clock. Entretanto, devemos separar os paralelos significativos dos superficiais. Em Crise Infinita, Johns estabeleceu que a morte do Superman forçou a comunidade heroica da DC Comics a se espelhar no exemplo dado pelo Homem de Aço – Superman: Dia do Juízo Final (Day of Doom, no original), de autoria de Dan Jurgens, até mesmo estabeleceu a morte do Superman como o paralelo nos quadrinhos para os acontecimentos de 11 de Setembro. Eventualmente, os super-heróis falham nesse objetivo – até mesmo os outros dois integrantes da Trindade, com Batman deixando sua tecnologia cair nas mãos de pessoas erradas e a Mulher-Maravilha sendo forçada a matar um vilão em uma transmissão ao vivo na TV.

Consequentemente, em Doomsday Clock, Johns talvez esteja tentando comparar a morte do Superman com o ataque alienígena forjado por Ozymandias. Ambos forçaram suas respectivas comunidades a pararem e a se reexaminarem, embora as consequências para o mundo de Watchmen tenham sido indiscutivelmente piores. No entanto, ambos foram alimentados por uma combinação de otimismo e um pragmatismo sombrio. Ozymandias se empenhou em construir uma conspiração que foi responsável por matar e/ou traumatizar milhares de pessoas inocentes, com objetivo de fazer com que os Estados Unidos e a União Soviética abandonassem suas picuinhas a favor de um novo mundo de paz entre os povos enquanto que os editores, escritores e artistas envolvidos no núcleo do Superman procuravam contar uma história de alto risco onde todos sabiam que futuramente precisaria ser revertida de um jeito ou de outro.

Falando em jornadas pessoais, o Superman que morreu em novembro de 1992 foi uma versão indiscutivelmente mais desenvolvida do que qualquer encarnação anterior do personagem. Este Superman foi reinicializado em 1986 como alguém mais em contato com suas raízes terráqueas do que com seu interior kryptoniano, tanto que ele se via como Clark antes de se enxergar como Superman. Seu romance com Lois resultou no descobrimento de seu segredo pela jornalista e, consequentemente, no casamento entre os dois. Lois e Clark se casariam e teriam um filho, mas em termos de eventos de maior escala, Superman estava envolvido em situações maiores. O personagem estava bastante envolvido em uma série de mudanças estranhas e temporárias: ter seus poderes alterados, se tornar um ditador benevolente, se juntar à uma recém-descoberta nova comunidade kryptoniana, e por aí vai.

Assim, tanto em Watchmen quanto em A Morte do Superman, não havia nenhum tipo de garantia de estabilidade duradoura, mesmo sem levarmos em conta o diário do Rorschach. E ainda temos algo a levar em consideração. Além saturação geral do mercado em torno do marketing da Era Cromática, os acontecimentos de Superman #75 foram bastante pesados; e Doomsday Clock nos revela consequências ainda piores quando o plano de Ozymandias – A Grande Mentira – é revelado ao mundo. Ao invés de por a humanidade no caminho da união global, os crimes e encobrimentos feitos por Adrian Veidt não só desfizeram todos os seus efeitos positivos, mas também mergulharam o mundo de Watchmen ainda mais no caos existente daquela realidade.

Doomsday Clock pode até não ser um paralelo direto com A Morte do Superman, mas as duas histórias exploram o conceito do Superman em suas próprias narrativas. Em Watchmen, assim como no mundo real, o Superman é apenas um personagem fictício e, de fato, uma figura inspiradora, responsável por inspirar a primeira geração de vigilantes encapuzados na luta contra o crime – incluindo nessa leva o personagem Hollis Mason. Entretanto, a curta carreira do Coruja e de seus amigos saciaram, no mundo de Watchmen, o apetite do público por super-heróis, fazendo com que essas histórias dessem lugar à histórias em quadrinhos envolvendo piratas, fazendo com que as histórias do Superman fossem esquecidas. Quando Dr. Manhattan, o único ser dotado de superpoderes na realidade de Watchmen, surge, a ideia de um Superman é vista mais como uma referência genérica ao Übermensch nietzscheano.

A DC Comics possuía diferentes objetivos com A Morte do Superman. Os diversos títulos que surgiram desse evento procuravam não só atrair o leitor regular de quadrinhos, mas também atrair aquele mais nostálgico – que presumivelmente viria a lamentar ver o Superman aposentado permanentemente. O eventual retorno do Superman foi um evento ainda maior, pelo menos em ternos narrativos, sendo orquestrado em todos os quatro títulos do Superman na época em um total de 20 edições que abrangeram quatro meses e meio do ano de 1993.

Além do incentivo financeiro para continuar a publicar as histórias do Superman, as equipes criativas estavam explorando o que o Superman significava para o universo da DC Comics como um todo. Naturalmente, eles começaram com o conceito do Superman ser retratado como um paradigma ético com crenças enraizadas em uma educação puramente honesta e boa. Essa visão estabelece que alguém com tamanho poder precisa usá-lo com sabedoria e altruísmo, porém, feito de uma maneira facilmente compreensível para os leitores.

Watchmen explode e bagunça tudo isso na cabeça do leitor, fazendo com que o seu super-homem seja um ser cujos poderes quase substituem sua moral, mudando necessariamente sua perspectiva. Antes de se tornar Dr. Manhattan, Jon Osterman era filho de um relojoeiro, assim, sendo forçado a ir além das percepções humanas normais. Ele enxerga todo o espaço e o tempo como uma vasta rede de atividades interconectadas que devem ser estudadas, mas não necessariamente apreciadas. Contraste isso com a roupagem tradicional dada aos fazendeiros Jonathan e Martha Kent ao criarem o jovem Clark entre a fauna e a flora rural no interior do Kansas. Dr. Manhattan percebe a beleza de criações tão singulares e únicas, ou seja, as pessoas, mas ao invés de se dedicar a proteger a humanidade – algo que Superman teria feito -, ele deixa o universo de Watchmen para trás e parte em busca de sua própria jornada de exploração e criação.

É possível fazer uma pequena lista contendo as ligações entre a cronologia ficcional de Watchmen, a cronologia ficcional do Universo DC e o calendário de publicação do mundo real.

  • Dezembro 1984/janeiro 1985 (mundo real): a estreia de Crise nas Infinitas Terras;
  • Julho 1985 (Universo DC): o mês em que ocorre a maior parte da Crise. Viria a acabar em agosto de 1985;
  • Outubro 1985 (Watchmen): mês em que ocorre a maior parte dos acontecimentos de Watchmen. Termina em novembro de 1985 quando o Dr. Manhattan deixa a Terra, com o epílogo se passando no Natal de 1985;
  • Novembro/dezembro 1985 (mundo real): DC Comics publica Crise nas Infinitas Terras #12;
  • Maio 1986 (mundo real): DC Comics aposenta o Superman pré-Crise com O Que Aconteceu ao Homem de Aço?, de Alan Moore e Curt Swan. Também acontece o lançamento de Watchmen;
  • Junho 1986 (mundo real): acontece a estreia do Superman pós-Crise na minissérie Superman: O Homem de Aço, de John Byrne.

Dependendo de como você pretende usar essa lista, essa cronologia pode tanto ser um argumento contrário à teoria de fazer Watchmen parte do Multiverso DC, como reforçar a ideia de que o Dr. Manhattan deixou o universo de Watchmen e deu inicio às suas maquinações no Universo DC. Quando publicado originalmente, Watchmen foi lançada após Crise nas Infinitas Terras, não apenas saindo seis meses após a edição #12 de Crise, mas também se passando três meses após a Crise ter terminado no mundo dos quadrinhos. Consequentemente, os leitores da época não sabiam dizer se Watchmen fazia parte da antiga ou da nova cronologia.

Entretanto, se Watchmen fazia parte de algum aspecto até então desconhecido da cosmologia da DC Comics – talvez um elemento que tornasse o calendário convenientemente sincronizado com o Universo DC -, então existe um espaço para que vejamos em que esteve envolvido Dr. Manhattan após deixar seu universo em novembro de 1985 até o inicio de suas alterações na cronologia atual da DC Comics, iniciada em 2011 com Os Novos 52. É válido lembrar que o personagem não vivencia o tempo da forma convencional, portanto, existe bastante potencial nisso.

Nesse rolo, Doomsday Clock pode acabar estabelecendo que o seu mês de novembro de 1992 está na verdade sincronizado com o mês de novembro de 2017 do mundo real. De qualquer forma, Doomsday Clock começa cerca de sete anos após Watchmen ter terminado. Portanto, é válido olharmos o que estava acontecendo com a cronologia do Universo DC há sete anos.

Em março de 2010, a DC Comics lançou A Noite Mais Densa. Embora a história de Geoff Johns envolvendo os Lanternas Negros zumbis tenha dado um tom de terror ao evento, ela também foi responsável por reviver diversos personagens que foram mortos em eventos anteriores. Ainda em 2010, tivemos sua continuação em Dia Mais Claro, que mostrava muito desses personagens procurando redescobrir seus respectivos lugares no mundo. No entanto, A Noite Mais Densa marcou um ciclo de eventos com duração quase que anual iniciada em Crise de Identidade – em 2004 – e que continuaria através de Crise Infinita, 52, Guerra dos Anéis e Crise Final. Com cada uma dessas histórias trazendo alguma nova mudança, o final de A Noite Mais Densa sinalizou que a DC Comics estava avaliando seu universo de super-heróis e se reposicionando, já visando o futuro.

Foi o que a DC Comics fez, de fato, embora não exatamente como poderia ter sido esperado. Ao invés de construir as tramas e os arcos dos personagens explorados em O Dia Mais Claro, a DC Comics usou Flashpoint para reiniciar sua linha cronológica, dando inicio ao reboot d’Os Novos 52. Uma vez que tenha ficado claro que o vapor narrativo havia se esgotado, a edição especial de maio de 2016DC Universe: Rebirth #1 – fortemente sugeria que Dr. Manhattan fora o responsável pela intromissão resultante nas mudanças ocorridas n’Os Novos 52.

Tendo isso em mente, consideremos uma revisão cronológica, assumindo que a linha do tempo de Watchmen está estabelecida como se passando 25 anos atrás no mundo real.

  • Novembro 1985 (Watchmen): Dr. Manhattan deixa a Terra;
  • Novembro 2010 (mundo real): DC Comics está no meio de O Dia Mais Claro, assim como outros arcos que serviram para fazer correções em personagens da editora que não estavam envolvidos com o evento principal;
  • Abril/agosto 2011 (mundo real) ~ Abril/agosto de 1986 (Watchmen): Flashpoint; o paradeiro do Dr. Manhattan é desconhecido;
  • Setembro 1986 (Watchmen): seria este o momento em que Dr. Manhattan rouba 10 anos da cronologia do Universo DC?
  • Setembro 2011 (Mundo Real): acontece o lançamento d’Os Novos 52;
  • Novembro 1992 (Watchmen) ~ Novembro 2017 (mundo real): início de Doomsday Clock;

Observando dessa forma, o dia 22 de novembro de 1992 é mais simbólico, significando a morte do Superman, mas também marcando o início de uma caótica revolta social generalizada. Os sete anos entre Watchmen e Doomsday Clock correspondem, aproximadamente, ao período de mais de sete anos entre o final de A Noite Mais Densa e o início d’Os Novos 52.

DC Universe: Rebirth #1 revelou que o Dr. Manhattan roubou dez anos da cronologia do Universo DC. Isso aludiu à linha do tempo cinco anos mais curta estabelecida n’Os Novos 52, onde Superman e todos os outros heróis estavam na ativa por um período de apenas cinco anos. Aparentemente, sem a intromissão do Dr. Manhattan, o pós-Flaspoint teria em torno de quinze anos de atividade heroica. Embora com certeza isso esteja na trama de Doomsday Clock, não podemos estabelecer muita coisa pois o comprimento da linha do tempo funciona mais como uma presunção do que como algo concreto. Nem os dez anos roubados pelo Dr. Manhattan nem a linha cronológica contendo os quinze anos precisos realmente coincidem com os sete anos existentes entre Watchmen e Doomsday Clock. Em todo caso, podemos dizer que “quinze anos” é apenas uma referência à “tempo suficiente para que todas essas histórias se encaixem”.

Apesar do “esperançoso” final de Watchmen, é difícil não notar que os super-heróis são considerados culpados pela sociedade que juraram salvar. Da leitura feita por Hollis Mason de Action Comics #1 ao Dr. Manhattan atuando como um reator nuclear ambulante, o mundo de Watchmen não foi bem servido por seus mascarados combatentes do crime. E ainda temos a situação onde muitos leitores – e escritores – entenderam erroneamente que para os super-heróis serem levados a sério eles deveriam ser devastadores, com a psique afetada e de moral ambígua.

Assim, Watchmen ajudou a promover, não por querer, a proliferação de super-seres cada vez mais sombrios e arrogantes – os mesmos vistos na Era Cromática. Pode-se dizer que Dr. Manhattan é a representação do que o Superman “seria”, embora a recíproca não seja verdadeira. Superman não tem nada a ensinar ao Dr. Manhatttan. No contexto de Watchmen, Superman apenas serviu para encorajar Hollis Mason a acreditar em lições morais claras – conforme visto nas páginas finais da  primeira edição da graphic novel, onde podemos ler um pouco da autobiografia de Mason: “a moralidade básica das histórias pulps sem toda a escuridão e ambiguidade” – e que uniformes eram legais. Isso não é algo muito diferente de uma criança amarrando uma toalha em volta do pescoço e acreditando que é capaz de voar; mas isso não é tudo o que se pode tirar de uma história do Superman.

Quanto mais traçamos esses paralelos, mais convencidos ficamos que Doomsday Clock será a tentativa de Geoff Johns de colocar a ética à la Superman em prova. Watchmen serviu como um exame formal às varias facetas das histórias de super-heróis, usando os personagens da Charlton Comics como um trampolim. Porém, e se Doomsday Clock nos mostrar o Superman tentando “consertar” o mundo? A Liga da Justiça teve as melhores das intenções quando tentaram libertar a Terra das garras do Sindicato do Crime (em Liga da Justiça: Terra 2, de Grant Morrison e Frank Quitely), então não poderia ser algo muito diferente disso, certo?

Se houver algo que defina o recente trabalho de Geoff Johns na DC Comics, é que nenhum personagem está além da reabilitação. Os problemas vividos por Hal Jordan não eram apenas conflitos entre as responsabilidades mundanas e seus deveres cósmicos – ele também foi possuído por uma entidade maligna. Barry Allen não era apenas um “cientista policial”, mas um CSI como os vistos na TV. Os integrantes da Trindade também tiveram maus bocados, e então eles passaram um ano resolvendo os próprios assuntos. Wally West está extremamente conectado ao conceito de legado da DC Comics. Portanto, não importa o quão ruim esteja uma situação, os personagens da DC Comics possuem as sementes de sua própria salvação. Com relação a isso, se os super-heróis são parte do que aflige o mundo de Watchmen, então por que não acreditar que o Superman “verdadeiro” não seria capaz de salvá-lo?

  • Eduardo Faria Guimarães

    Esse texto só me lembrou de como o Universo DC é complexo

    • Andy Vianna

      Imagina o nó que deu na cabeça ao fazer essas relações entre as datas do universo de Watchmen, do UDC e do mundo real =D

      • Eduardo Faria Guimarães

        Nem é isso a questão,a questão é.

        Desde quando o Manhattan está manipulado o Universo DC? Será que depois da Crise ele já estava de olho?

      • Andy Vianna

        antes disso tem até mesmo a questão de como foi o processo de descobrimento da dimensão do UDC pelo Manhattan. Tipo, o que ele fez que o levou a descobrir tal coisa? Tomara que Doomsday Clock explore isso, do contrário, puta oportunidade perdida.

      • Eduardo Faria Guimarães

        Acabei de me lembrar que em Before Watchmen Dr.Manhattan,mostra o Manhattan criando algo,não sei se isso tem relação com Doomsday Clock.

        Mas suspeito dizer que provavelmente tem relação,já que foi feito na mesma época dos Novos 52.

      • A gente explorou isso nesse texto aqui: http://gloriosadc.com/por-que-o-dr-manhattan-alterou-o-universo-dc/

        A essa altura ele já ta um pouco datado, mas fala sobre as peripécias do Manhattan em Before Watchmen.

  • Yhanno Lima

    Boquiaberto com este texto. Conseguiu encaixar, e ordernar a complexidade de forma customizada, com uma simplicidade, fora do normal. Meus sinceros parabéns.

  • O Homem do QI200

    Esse site dar orgulho, ein. Cada textão gostoso de ler, parabéns.

  • David Pinheiro

    Tomara que isso não seja muita pretensão da parte do Geoff Jonhs mas que o plano é ambicioso, isso é. Parece que foi feito pelo Ozymandias.