75 anos de Mulher-Maravilha: uma história sobre verdade e equilíbrio

Quando All-Star Comics #8 chegou às bancas em dezembro de 1941, trazendo consigo a estreia da Mulher-Maravilha no mundo dos quadrinhos, ninguém poderia prever o fenômeno que ela se tornaria. Em um mundo recém-descoberto de super-heróis, chegava uma heroína com poderes sobre-humanos e pureza única.

A Mulher Maravilha era uma princesa de Themyscira, enviada ao mundo dos homens a contragosto da mãe para espalhar a paz e lutar pela verdade. Sempre trajando um icônico uniforme vermelho e azul, ela veio para criar um equilíbrio entre deuses e homens. Mas as coisas eram complicadas na época. No contexto da Segunda Guerra Mundial, o Dr. William Moulton Marston e o artista H. G. Peter entregaram o que os desavisados poderiam apontar como propaganda barata dos Aliados.

O feminismo – ainda que sem nome definido – ganhava força com a Guerra. Enquanto os homens lutavam na Europa e no Pacífico para impedir o avanço do nazi-fascismo, surgiu uma grande necessidade de mão-de-obra nos locais onde a guerra não havia chegado. As mulheres finamente deixaram o conforto do lar por aventuras no mundo real. Relacionar esse contexto da época com o surgimento da Mulher-Maravilha é um equívoco é compreensível, já que em suas primeiras aventuras a heroína trabalhava como enfermeira do exército americano, um trabalho até hoje rotulado como “trabalho da mulher” – como se trabalho tivesse gênero. Mas para os curiosos, a heroína não surgiu como propaganda de guerra dos Aliados, ao contrário de outros heróis da época.

William Moulton Marston acreditava no potencial das histórias de super-heróis como inspiração e queria criar um modelo a ser seguido. Já famoso como psicólogo, Marston vivia em uma família nada tradicional com duas esposas (Elizabeth Holloway Marston e Olive Byrne) e quatro filhos – com todos sendo criados juntos.

A concepção do herói ideal e a escolha de uma mulher para representá-lo recebeu forte influência das duas esposas e de um ideal de igualdade e feminismo que só viria a ser debatido no pós-guerra: igualdade formal x igualdade material. Marston acreditava que as mulheres não só poderiam ser iguais aos homens, mas também superiores, pautado na concepção de igualdade material. Ele então depositou todas as suas esperanças nessa crença.

Para além da criação, a personagem foi um sucesso e foi aos poucos conquistando seu espaço, tentando se adequar à um mundo de quadrinhos dominado por violência gratuita e machismo. A necessidade de se adequar era por que as histórias da personagem sempre possuíam um tom diferente, numa busca incessante por verdade e equilíbrio – busca essa de maneira pacífica, por mais contraditório que possa parecer.

Não obstante à bandeira da igualdade de gênero, a heroína levantava a bandeira da paz, sempre em busca de um meio para proteger os mais desafortunados; luta que se igualava aos movimentos libertários das décadas de 1950 à 1970 – como os movimentos hippies, em oposição às guerras da Coreia e do Vietnã. Todos os sonhos da juventude moderna da época representados em uma mulher.

Tivemos de esperar mais de quarenta anos até termos mulheres trabalhando com o título da heroína, e ainda assim a passagem delas não foi tão gloriosa quanto o esperado, seja com Mindy Newell, a primeira mulher a ser roteirista do título; a fase de Gail Simone no pós-Crise; ou ainda recentemente com o fiasco de Meredith Finch. As mulheres tinham na Mulher-Maravilha um símbolo de tudo o que elas poderiam ser e que a sociedade as impedia – como lutar grandes batalhas, salvar pessoas e ser ouvida em sua luta por paz e justiça.

Desde a década de 1940 até hoje o feminismo ganhou força e tomou diversas formas de representação. Concomitantemente, a heroína trilhou o seu caminho para se tornar o ícone pop que conhecemos. Todavia, ela só chegou a ser efetivamente reconhecida recentemente com a sua nomeação como Embaixadora Honorária da ONU para o Empoderamento Feminino -, com direito a petição online se opondo à escolha. Tal petição foi iniciativa de funcionários da organização, que alegavam ser um retrocesso ter como símbolo do empoderamento uma mulher caucasiana que veste as cores da bandeira dos Estados Unidos.

Mas a jornada para esse reconhecimento não foi fácil. Algumas vezes, o título da heroína não se adequou à evolução, e quando tentaram fazê-lo, as consequências foram gravíssimas. Um clássico exemplo disso é a  louca fase de Denny O’Neil no título, que durou de 1968 à 1972. Ao tentar vender a propaganda barata da Guerra Fria, a história se propunha a levantar a bandeira de que, com o fim da luta armada na Europa, as mulheres deveriam se recolher: deixar o mundo ao cuidado dos homens. Como simbolismo para a personagem, ela perdeu seus poderes nessa época. Essa decisão – que faz Denny O’Neil se desculpar constantemente em entrevistas – mostra que nem mesmo a editora compreendia muito bem a personagem e não respeitava sua simbologia.

Os anos gloriosos da personagem vieram após a Crise Nas Infinitas Terras, com a fase de George Pérez. Apesar de apresentar uma nova origem para as Amazonas e acrescentar uma dose de mitologia greco-romana à trama, pouco mudou para a Mulher-Maravilha. Entretanto, ela teve suas velhas causas – como luta por paz e igualdade de gênero – fortalecidas.

Ao fim da fase de Pérez, a realidade não era mais a mesma e o nível das histórias da personagem foi caindo aos poucos, tornando a Mulher-Maravilha o que muitos consideram como heroína sem graça, que só se sustentava por causa do ícone que já havia se tornado. Para os leitores, era uma história com heroína, vilões e trama sem apelo. Aos poucos, ninguém mais ligava para o que a Mulher-Maravilha defendia ou representava, porque seu modelo parecia estar falido. Apesar de alguns bons momentos em 20 anos, isso não era mais condizente com o que as massas ansiavam – principalmente no pós-11 de Setembro. Contudo, nada disso foi culpa da personagem. Vivemos a chamada crise de representação na pós-modernidade e nenhum modelo ou ícone escapa ileso dela.

Brian Azzarello foi aclamado por fazer a primeira grande revolução na personagem durante a Os Novos 52, jogando na lama todos os seus grandiosos 70 anos de existência. E por não entender a proposta apresentada por Azzarelo, Meredith Finch, na sequência, nos entregou uma revista cheia de violência gratuita, com uma Diana selvagem e sem nenhuma causa para defender. Muitos aclamaram, embora esse não seja o papel que se espera dela. Contudo, podemos esperar algo de um personagem de quadrinhos?

Da Mulher-Maravilha, sim. Assim como os maiores heróis do mundo, não nos contentamos com qualquer coisa; sempre esperamos muito deles. Depois de tantos anos gloriosos, já conhecemos tão bem nossos ícones que não aceitamos que nos entreguem histórias vazias. E por esta razão, estamos caminhando para o retorno da boa e velha Mulher-Maravilha durante o Rebirth, em uma luta incessante por paz e verdade. Na mais recente fase de Greg Rucka, Diana está representando múltiplos papéis: princesa, heroína, amante, filha e embaixadora.

As críticas voltarão em peso. Na verdade, já podemos ouvir as queixas de representação de um modelo sem graça e falido. Só que mais uma vez, podemos dizer que a culpa não é dela. É que a crise de representatividade não é o único problema da pós-modernidade. A condição pós-moderna é marcada pela liquidez nas relações, onde as coisas não são feitas para durar. Estamos sempre nos afastando daquilo que não é comum, como se esperássemos um pouco de nós nos outros, e quando não conseguimos, os rotulamos como inapropriados. Conforme apresentado por Zygmunt Bauman em suas obras Medo Líquido e Amor Líquido, a sociedade não é mais voltada ao alcance de um objetivo, queremos tão somente ser incluídos. Por isso o desinteresse pela heroína. Com tantos heróis genéricos que podem ser manipulados a todo e a qualquer momento para acompanhar as mudanças constantes da sociedade pós-moderna, levantando hoje uma bandeira e amanhã outra, com toda essa versatilidade, ser a Mulher-Maravilha que esperamos é um ato de coragem.

Ainda mais, com a propagação de personagens de quadrinhos que têm como missão apenas divertir, sem trazer reflexão alguma, faz uma heroína incorruptível, idealista e sonhadora soar incompatível. Até mesmo dentre aqueles heróis que atualmente levantam as bandeiras das lutas sociais – à exceção da Batwoman – há incompatibilidade entre múltiplas causas – ao escolher defender determinadas bandeiras traz a falsa percepção de que não poderemos apoiar outras. É o egoísmo, a busca pela satisfação individual; outra característica da condição pós-moderna.

Essa última característica apresentada da pós-modernidade demonstra o porquê de necessitarmos ainda hoje, ou talvez mais hoje do que há 75 anos, da figura da Mulher-MaravilhaDepois de 75 anos, ter alguém que consegue defender múltiplas causas – igualdade, verdade e paz – e ainda não se corromper, é de certa forma inovador. É perceber que ainda hoje a personagem não aceita o lugar que a sociedade reservaria para ela.

Que venham mais 75 gloriosos anos para a Mulher-Maravilha.

E em 2017, acompanhem um novo momento do blog Gloriosa DC, uma coluna mensal para debater e analisar as diversas faces e histórias da maior heroína de todos os tempos. Vem aí: Oráculo de Themyscira.

  • Marcelo Pereira

    Vou discordar um pouco do texto a respeito de Greg Rucka. Ele já tinha tido uma passagem elogiadissma pela amazona que começou com a graphic Novel HIKETEIA e foi chamado de volta para o rebirth. O Run dele é muito elogiado, na minha opinião até aqui ele manteve o nível de quando era o roteirista da personagem na primeira vez.

    • hortencia dias

      Na verdade não cheguei a discutir o run do Rucka na personagem, farei isso em momento oportuno, sobre o rebirth já o fizemos em outros textos, esse era só pra comemorar os 75 anos mesmo.

  • Eduardo Faria Guimarães

    O Arqueiro Verde está fazendo 75 anos agora,podiam também fazer um dele.